Tradução: «pediment»

Despublica!


      «– É pequena para a idade. – Não era verdade, mas ninguém o contradisse. – Terá de crescer. Aproxima-te – disse Roberval, e parei diante dele, tão perto que podia tocar no armário. Como queria fazê-lo! As pequenas gavetas eram perfeitas para as minhas mãos. Quem me dera que o meu guardião me desse aquele brinquedo! Ele, que era o guardião de todas as coisas. O armário imitava um palácio em miniatura. Na fachada, estavam gravados pedimentos e pilares, ladeando as gavetas com embutidos de marfim. O que teria o meu guardião lá dentro? Joias? Papéis? Relíquias sagradas?» (excerto do romance histórico Isola, de Allegra Goodman, pré-publicado no Público, «Dois capítulos do romance histórico Isola, da norte-americana Allegra Goodman», 18.03.2026, 12h01).

      Um termo estranho — temo-lo, sim senhor, mas que até eu desconhecia — devia logo fazer disparar alarmes, quando não na tradutora, no revisor. Pois, mas não. No original, lê-se isto: «Its façade was carved with pediments and pillars framing drawers inlaid with ivory.» Ou seja: «A fachada estava esculpida com frontões e pilares que enquadravam gavetas incrustadas de marfim.» Em português, «pedimento» é sinónimo (completamente obscuro, esquecido, arcaico) de «pedir; petição» e, segundo a Porto Editora, também termo geológico. O vocábulo inglês pediment (séc. XVII) «frontão, remate triangular de fachada» ← alteração de formas anteriores periment, peremint (séc. XVI), é de origem incerta; provavelmente deformação dialectal de pyramid («pirâmide»), por associação à forma triangular; posteriormente reinterpretado por influência erudita de ped-, «pé» (latim pes, pedis), o que levou a aproximações secundárias ao latim pedamentum, «apoio, escora», e ao italiano pedamento, «base, fundamento», embora estas ligações não sejam etimologicamente seguras. Seguro é que é um erro monumental de tradução.

[Texto 22 654]

Etimologia: «filatelia»

Já fui coleccionador


      «Filatelia» vem do francês, Porto Editora? Está certo! Mas incompleto. Essa pecha de não reconhecer autorias é muito portuguesa. Então a ideia não foi, aí por 1864, do francês Georges Herpin, que pretendia substituir o menos feliz «timbre-mania»? Monsieur Herpin, je peux vous recommander un excellent cabinet d’avocats pour engager votre action en indemnisation.  Assim, proponho ➜ do francês philatélie, termo criado em 1864 por Georges Herpin (1842-1895), a partir do grego phílos, «amigo, amante», e atéleia, «isenção de taxa, franquia postal paga», significando literalmente «amor pela isenção (de porte)», isto é, pelo porte previamente pago nos selos. 

      (O grego atéleia significa propriamente «isenção de taxa ou imposto»; no contexto postal, remete para a dispensa de pagamento de porte no destino, uma vez que este já foi pago antecipadamente pelo remetente e assinalado pelo selo. E só passou a ser assim desde a reforma postal britânica de Penny Post, em 1840.)

[Texto 22 653]

Erros de sempre e para sempre

Tu quoque, Ioannes Lupe!


      «O extraordinário filme de Andres Veiel sobre a alemã Leni Riefenstahl (1902-2003), a partir de amanhã nas salas de cinema, tem um título austero: Riefenstahl. Dir-se-ia que o seu nome próprio deixou de lhe pertencer por inteiro, até porque “Leni” é uma abreviatura de Helene – sendo Helene Bertha Amalie o seu nome completo» («O cinema revisita a herança trágica de Leni Riefenstahl», João Lopes, Diário de Notícias, 18.03.2026, p. 26).

      João Lopes, reveja-me isto com urgência. Calha eu ter cá em casa uma Lena, por vezes ou para alguns, Leninha, mas valha-me Deus, a isso chama-se diminutivo, ou hipocorístico. E já viu que, no caso de Leninha, não reduz nem abrevia nada, uma vez que tem mais um carácter (e não, c’um caraças, «caractere», como escreve o pessoal da bonecada) do que o nome pleno?

[Texto 22 652]

Léxico: «bandeira branca»

Falta a mais antiga


       Tens tantas bandeiras, Porto Editora, mas falta-te logo a que, no conjunto das «bandeiras cromáticas» (bandeira branca, vermelha, amarela, negra, etc.), é, muito provavelmente, a mais antiga enquanto sinal convencional com valor relativamente estável, já que está atestada na Antiguidade (Tácito) como sinal de rendição, o seu valor simbólico se manteve com grande continuidade ao longo dos séculos e acabou mesmo por ser formalizada juridicamente (Convenções da Haia), o que não aconteceu, pelo menos com a mesma força, com muitas das outras cores. Estou a referir-me à ➜ bandeira branca MILITAR/DIREITO INTERNACIONAL bandeira de cor branca usada como sinal convencional de trégua, rendição ou intenção de parlamentar entre forças em conflito, indicando suspensão das hostilidades e pedido de comunicação com o adversário; o seu uso, regulado pelo direito internacional, confere protecção aos portadores quando empregada de boa-fé e sem fins de engano.

[Texto 22 651]

Léxico: «névoa cognitiva»

Conhecemo-la no pós-pandemia


      Cada vez se vê mais, e agora encontro-a mesmo num romance. Refiro-me à ➜ névoa cognitiva MEDICINA, PSICOLOGIA estado de diminuição da clareza mental caracterizado por dificuldades de concentração, lapsos de memória, lentidão de raciocínio e sensação subjectiva de turvação do pensamento, associado a estados de fadiga, stress, privação de sono ou a condições clínicas como a covid e tratamentos oncológicos, nomeadamente a quimioterapia.

[Texto 22 650]

Como se escreve por aí

Nos jornais, para mais


      «“O time [grupo] Rapids trabalha desenvolvendo soluções de data science e machine learning acelerados por GPU”, explica-nos, dizendo que há bibliotecas dedicadas à ciência de dados em código aberto (open source) que usam Unidades Centrais de Processamento (CPU). “O Rapids cria uma versão acelerada dessas bibliotecas usando o poder de processamento paralelo das GPU, para agilizar todo o processo”, explica Gilberto Titericz Júnior, que se mostra satisfeito pela aplicação da sua solução a “terabytes de imagens esperando para serem classificadas”. “A vantagem de usar as GPU é a velocidade de classificação, que aumenta significativamente comparado com as CPU”» («O primeiro serviço mundial de ondas internas do oceano é português», Teresa Firmino, Público, 23.12.2024, p. 25). 

      Se a jornalista tivesse perdido dez segundos a pensar no caso, concluiria que não devia grafar a palavra time, usada no Brasil, em itálico. O jornal Público, no entanto, não ficará conhecido por ser criterioso nestas questões. Umas páginas atrás, lia-se isto: «As imagens de videovigilância na posse da Polícia de Segurança Pública (PSP) vão ser essenciais na identificação dos membros dos No Name Boys responsáveis pelos graves desacatos na noite de sábado durante um convívio do grupo num restaurante em Sintra» («No Name Boys: PSP tem imagens de videovigilância», Miguel Dantas, Público, 23.12.2024, p. 14). Desde quando, Miguel Dantas, é que o nome de um qualquer grupo, seja qual a sua natureza, se grafa em itálico? Dez segundos também bastariam.

[Texto 22 649]

Léxico: «subopção»

Comum em menus informáticos


      «Esta funcionalidade será lançada de forma gradual, começando com o modelo 2.5 Pro em países seleccionados e, nas semanas vindouras, expandir-se-á para o modelo 2.5 Flash e mais regiões. Embora activa de origem, o utilizador poderá desactivá-la a qualquer momento nas definições da aplicação, na secção “Contexto pessoal”, subopção “Os seus chats passados com o Gemini”. A gestão e eliminação das conversas permanecem disponíveis em “Actividade das Apps Gemini”» («Gemini ganha memória de conversas anteriores e mais personalização», Sérgio Magno, Público, 13.08.2025, 18h20).

[Texto 22 648]

Léxico: «cantautorismo»

Talvez pare por aqui


      «A visão que Seal tem da música revela um pensamento profundo sobre a arte, sobre o poder da música provocar emoções. No mesmo disco de 1994 em que surgem ‘Dreaming in Metaphors’ e ‘Kiss From a Rose’ há ainda uma discreta balada de título ‘If I Could’ em que a sua voz se cruza com a de Joni Mitchell, artista superlativa que também soube navegar entre uma visão personalizada do cantautorismo de tonalidades folk e um jazz mais exploratório» («Seal fora da caixa», Rui Miguel Abreu, «Revista E»/Expresso, 11.07.2025, p. 49). Se queres saber, Porto Editora, anda por aí há mais tempo do que a outra, «cantautoria».

[Texto 22 647]

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