Léxico: «fritilária-dos-lameiros»

Até em decretos-leis a vejo


      Mas mantém-se fora dos dicionários: «A zona acolhe borboletas como a fritilária-dos-lameiros (Euphydryas aurinia) e a espécie nocturna Euplagia quadripunctaria, bem como abrigos importantes para várias espécies de morcegos, alguns deles relevantes para a criação e hibernação do morcego-de-peluche (Miniopterus schreibersii)» («UNESCO considerou a Arrábida uma “jóia costeira», Andréia Azevedo Soares, Público, 28.09.2025, p. 17).

[Texto 22 580]

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P. S.: Olha, Porto Editora, aproveita e indica os plurais de «decreto-lei». Muitos falantes nos irão agradecer. Até já estou a vê-los, gratos e escarninhos.


Chega aqui

+41


      «Luís Montenegro não fará essa coligação, mas também a nomeação de Luís Neves está longe de significar que vai passar, doravante, a escolher o PS como parceiro preferencial do seu Governo sem maioria. O mais certo é que vá continuar, como até aqui, a jogar ora para um lado, ora para o outro, conforme os assuntos. Ao “contratar” Luís Neves, pode contribuir para diminuir a “percepção de cheguização” do PSD na questão da segurança, mas não é suficiente» («Um novo ministro no Governo AD de que a esquerda gosta», Ana Sá Lopes, Público, 23.02.2026, p. 40). 

      Isto mal começou (e começou mal), mas já temos «cheganos» (a minha preferida, porque a implicação com os ciganos pode proporcionar umas boas frases), «chegopitecos», «cheguização» e decerto outras de que não me lembro agora. Seja como for, nada supera a helvética sigla do partido, CH.

[Texto 22 579]

Definição: «pastinaga»

Tem mais que se lhe diga


      «Corsé, musqué, sucré... le panais est multiple. “On peut l’utiliser en dessert, en pâtisserie, sans ajout de sucre grâce à son côté naturellement sucré”, estime Benjamin Le Maguet, qui l’accorde volontiers à la pomme, plus acide. [...] Le panais est d’une grande richesse nutritionnelle. Il est riche en vitamines B9, C et K, ainsi qu’en potassium et en magnésium. Si on le compare souvent à la carotte, il contient plus de fibres que cette cousine. Parfois considéré comme un féculent, il en possède les glucides complexes, qui génèrent la satiété, mais a un apport calorique bien plus faible que la pomme de terre. Il est donc idéal pour remplacer patates, riz ou pâtes. Autre atout de taille: il est très digeste» («Et si on arrêtait de bouder le panais?», Cécile Collet, 24 heures, 6.03.2026, p. 23).

      Ora, bem podemos mencionar isto na definição de ➔ pastinaga BOTÂNICA (Pastinaca sativa) planta herbácea bienal da família das Apiáceas, cultivada pela raiz branca, fusiforme, carnosa e comestível, de sabor adocicado, rica em fibras e em vitaminas e sais minerais; apresenta folhas grandes e flores amarelas em umbela; cherovia, cheróvia, cheruvia.

[Texto 22 578]

Definição: «caneiro»

Assim não vamos longe


      Só recentemente é que soube que a ribeira de Alcântara, que nasce na Brandoa, passa pela Avenida Gomes Pereira, em Benfica, onde vivi quase vinte e cinco anos, de que nunca terei saudades. Vi uma fotografia datada de 1966, da altura em que a ribeira estava a ser posta em caneiro naquele troço. O que me parece é que «caneiro», nesta acepção, está muito, mas muito mal definido nos nossos dicionários. Assim, proponho ➔ caneiro HIDRÁULICA troço de ribeira canalizado e conduzido em galeria, túnel ou conduta subterrânea, formando um leito artificial fechado, geralmente em meio urbano para permitir a passagem sob ruas ou edificações e regular o escoamento das águas.

[Texto 22 577]

Léxico: «casa móvel»

A definição definitiva


      «Um casal perdeu a casa móvel em Silveira de Cima, na Lousã, e tem dormido, por estes dias, numa carrinha. Já em Cabanões, um jovem voltou à estaca zero na reconstrução daquela que seria a sua futura habitação. A casa móvel de Valter Martins e da companheira Liliana era uma solução temporária, enquanto reconstruíam, ao lado, uma habitação, em Silveira de Cima, onde vivem desde 2012» («Casal perde casa móvel e jovem vê arder habitação que reconstruía», Jornal de Notícias, 20.08.2025, p. 7). 

      Nos dicionários há tantas casas, mas não esta. Ainda recentemente, numa tradução, encontrei «autocaravana», quando no original estava mobile home. Bem pode ser por o tradutor ignorar o conceito de casa móvel. Assim, proponho ➔ casa móvel habitação transportável, sem motor próprio, construída sobre rodas ou estrutura amovível, concebida para ser rebocada e instalada provisória ou permanentemente, podendo servir de residência habitual, de férias ou de emergência. 

      E se os tradutores, coitados, não lêem nada em português? Temos a solução: mobile house transportable dwelling without its own engine, built on wheels or on a removable structure, designed to be towed and installed either temporarily or permanently; may serve as a permanent residence, a holiday dwelling or emergency accommodation.

[Texto 22 576]

AO90 na prática

Calma, isto vai demorar


      «Responsáveis curdos refrearam ontem os rumores sobre uma ofensiva terrestre iminente no Oeste do Irão, afirmando que isso não será possível enquanto os EUA e Israel não controlarem totalmente o espaço aéreo iraniano» («Curdos aguardam “céus limpos” para avançar», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 6.03.2026, p. 5). 

      O jornalista ainda não chegou a esta parte do articulado do Acordo Ortográfico de 1990. Nos últimos quinze anos teve outras prioridades. Temos de ter paciência.

[Texto 22 575]

Léxico: «policultural»

Faltava o adjectivo


      «O ringfencing da PAC não é suficiente por si só para mitigar os efeitos das profundas alterações apresentadas, como: o fim dos dois pilares (apoio ao rendimento e gestão de mercados, no primeiro, e apoio ao investimento, às zonas desfavorecidas ou às medidas agroambientais, no segundo); o fim dos direitos históricos nos pagamentos diretos, ampliando-se as elegibilidades a outras superfícies para além daquelas que dispunham destes direitos; o fim do pagamento base e do pagamento redistributivo e a instituição de um único pagamento degressivo, diferenciado em função do rendimento da atividade agrícola, privilegiando os que mais precisam, especialmente os jovens, as mulheres, as explorações familiares, os sistemas agrícolas policulturais ou as zonas com condicionantes naturais; o fim das medidas agroambientais e dos ecorregimes, substituídos por ações ambientais e climáticas» («A PAC e o território: é tempo de descentralizar!», Arlindo Cunha [economista, agricultor e ex-ministro da Agricultura], Público, 6.03.2026, 00h15).

[Texto 22 574]

Definição e etimologia: «feminicídio»

Muito incompleto


      «No caso das vítimas mulheres, em muitos países do mundo este crime tem um nome específico e está tipificado na lei: feminicídio ou femicídio. Em Portugal, os homens (que são a esmagadora maioria dos autores destes crimes) são julgados por homicídio com agravantes, mas não existe o crime de feminicídio» («Portugal não segue tendência da Europa e recusa crime de femicídio», Amanda Lima, Diário de Notícias, 6.03.2026, p. 16). 

      Fazer-se equivaler «femicídio» a «feminicídio» é um grande disparate linguístico, originalmente dos dicionários, não da jornalista. Sim, o mal está feito, mas pode voltar-se atrás. A definição da Porto Editora («assassínio de mulher ou rapariga, em razão do seu sexo») apresenta um grande senão: não será compreendida por qualquer Zé taxista. Tem de ser uma formulação mais elaborada, e ao mesmo tempo mais explicativa. Assim, proponho ➔ feminicídio assassínio de mulher ou rapariga motivado por razões de género, isto é, por discriminação, ódio, estereótipos ou relações de poder desiguais associadas ao facto de a vítima ser mulher. 

      Quanto à etimologia, vem do castelhano feminicidio, difundido na literatura jurídica e sociológica latino-americana, formado de femin- (do latim femina, «mulher») + -cídio (do latim -cidium, «acto de matar»), sob influência do inglês femicide, termo popularizado na década de 1970 pela criminóloga Diana Russell para designar o homicídio de mulheres motivado pelo facto de serem mulheres.

[Texto 22 573]

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