Rifoneiro

Grandes certezas

      «Não é “à”, mas “na”.» Já me tinha corrigido noutra ocasião. Desta vez não podia deixar passar em claro. Dá-me aí o Rifoneiro Português, de Pedro Chaves. Cá está: «Casa roubada, trancas à porta.» Expliquei pacientemente. Outro rifão semelhante e a significar mais ou menos o mesmo: «Porco morto, cevada ao rabo.»
[Texto 2188]

«Dengue», de novo

Tudo na mesma

      Virgílio Nóbrega, jornalista da RTP Madeira, no Jornal da Tarde de ontem: «A população de mosquitos transmissores do dengue tem alastrado, mas, de acordo com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical, está controlada e monitorizada.»
      E se os jornalistas consultassem mais amiúde os dicionários, não seria bom? A palavra «dengue», na acepção da doença infecciosa, é do género feminino. Só do género feminino. Espera aí... eu já tinha escrito isto! Os jornalistas repetem os mesmos erros.
[Texto 2187]

«White cube»

Cubo branco

      Vou ter a coragem de ser humilde e admitir: eu não sabia o que era o white cube. Meu Deus. Quer dizer, literalmente, sabia o que era. No âmbito das artes plásticas, porém, remete para o conceito que designa a sala de exposição branca e neutra, cubo branco, onde até as cartelas das obras expostas escasseiam. Mas tem mesmo de estar em inglês?
[Texto 2186]

Sobre «demão»

Sinónimo de «ajuda»

      Sim, «demão» também significa «ajuda». É verdade que as acepções mais usadas e conhecidas são outras: camada de tinta, cal, etc., que se aplica numa superfície e cada uma das vezes que se retoma um trabalho ou um assunto.
      «Aliás, não fosse querer dar uma demão na venda dos livros ao velho camarada e grande amigo Alberto Pratas e Isidro Pacheco que aquele lançamento promovera, não estaria ali» (O Autógrafo, Dias de Melo. Lisboa: Edições Salamandra, 1999, p. 77).
[Texto 2185]

Baiona

Mas a memória

      «Aquilino Ribeiro Machado, que nasceu em Baiona, a cidade do Sul de França onde os pais estavam exilados, a 6 de abril de 1930, vivendo de seguida em Vigo e em Tuy (até o autor de Quando os Lobos Uivam regressar a Portugal, em 1932), licenciou-se em Engenharia Civil e começou a trabalhar na autarquia lisboeta em 1956, passando a diretor de serviços do Gabinete de Estudos e Planeamento do Fundo de Fomento da Habitação em 1969» («Primeiro presidente de Lisboa eleito depois do 25 e Abril», Diário de Notícias, 9.10.2012, p. 24).
      Muito bem — o pior é que se vão esquecer de que escreveram desta forma. Aliás, quase sempre escrevem Bayonne, como nesta notícia de Maio: «Há duas semanas, Valls [ministro do Interior francês], nascido em Espanha e naturalizado francêrs [sic], qualificou a ETA de “terrorista”, mostrando que a mudança política em França não altera este ponto. Oroitz Gurruchaga Gogorza e o seu número dois, Xabier Aramburu, estão em prisão preventiva em Bayonne» («Ministro francês em Madrid após prisão de etarras», Diário de Notícias, 29.05.2012, p. 29).
[Texto 2184]

«Dengue» é do género feminino

Dêem-lhes uso


      Jornalista Filipe Gonçalves, no Telejornal de ontem: «A noite cai em Santa Luzia e a calma contrasta com a agitação causada pelo mosquito. Foi nesta zona que em 2005 apareceram os primeiros casos. Agora é o dengue que tira o sono a muitos residentes.»
      E se os jornalistas consultassem mais amiúde os dicionários, não seria bom? A palavra «dengue», na acepção da doença infecciosa, é do género feminino. Só do género feminino.
[Texto 2183]

«Tratar-se de»

É disso que se trata

      Jornalista João Botas, no Telejornal de ontem: «Nas últimas décadas, as investigações de dois cientistas, um britânico e um japonês, provaram que também as células maduras podem ser reprogramadas e passarem a funcionar como se de células estaminais se tratassem
      Os leitores já não se satisfazem com questões formais, e por isso aqui fica uma substancial. A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Erro é erro, mas, se é difundido pela comunicação social, é mais grave. E é menos desculpável se quem o dá é jornalista, como é o caso.
[Texto 2182]

Unidades de medida

Têm alternativa

      «O norte-americano David Blaine planeia ficar durante 72 horas de pé, numa plataforma de seis metros de altura, sem comida, e ainda por cima no meio de uma tempestade de relâmpagos artificiais que têm uma potência de um milhão de volts. ‘Electrified: One Million Volts Always On’ é o nome do número de Blaine, que começou na sexta-feira, em Nova Iorque. E, se tudo correr bem, ele ficará assim até ao final do dia de hoje. O ilusionista, de 39 anos, é conhecido por protagonizar truques arriscados em que testa os limites do corpo. Para ficar no meio desta “tempestade elétrica”, Blaine usa um fato de malha metálica, que o impede de levar um choque, tem um sistema de ventilação para respirar e um capacete com um visor especial que o protege da radiação ultravioleta» («72 horas de pé, sob tempestade elétrica», Diário de Notícias, 7.10.2012, p. 42).
      As unidades de medida grafadas em itálico? Hum, não é preciso. E porque não escrevem «vóltio»? «Demasiado rebuscado», li algures. Não me digam. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no verbete «vóltio», remete para «volt».
[Texto 2181]

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