Como se escreve nos jornais

Humildade

      «Ao abrir a porta, Cidália deparou com as luzes acesas e o apartamento todo remexido. Foi encontrar a vítima no quarto, caída em cima da cama, cheia de sangue. Eugénia Madeira estava nua da cintura para baixo, mas, segundo o CM apurou, não terá sido vítima de sevícias sexuais» («Médica assassinada a golpes de faca», Paula Gonçalves e Gonçalo Silva, Correio da Manhã, 8.09.2010, p. 4).
      «Sevícias sexuais»... Deve ser assim que os polícias falam. Os repórteres estavam atentíssimos e apanharam tudo. Estariam mesmo? Hum... O jornalista Alfredo Teixeira, do Diário de Notícias, também lá foi e formou outra convicção: «Uma médica do Centro de Saúde Norton de Matos, em Coimbra, foi ontem, de manhã, encontrada morta em casa. Eugénia Madeira, de 55 anos, estava deitada na cama, degolada, nua e com sinais de ter sofrido sevícias sexuais» («Médica degolada na cama e vítima de sevícias sexuais», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 8.09.2010, p. 16). Por outro lado, acredito mais na dupla do Correio da Manhã, que pelo menos não maltratou a gramática, ao contrário do jornalista do Diário de Notícias: «Ao mesmo tempo a PJ procurou todos os indícios do crime, confirmando ter-se tratado de um homicídio. A médica tinha o pescoço degolado, havia também sido asfixiada com uma almofada e haviam ainda indícios de sevícias sexuais» («Médica degolada na cama e vítima de sevícias sexuais», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 8.09.2010, p. 16). Mais: os repórteres do CM apuraram mal os factos e a vista, pois o jornalista do DN garante que «na cama, completamente nua e com um golpe perfurante no pescoço estava Eugénia Madeira».
      Há mais alguma coisa a dizer sobre isto? Sim: nada como ler dois (ou três ou quatro) jornais para termos consciência de que não sabemos nada.

[Post 3858]

Pontuação: quer... quer...

Distinga-se


      «Por exemplo, quer nos homens, quer nas mulheres, o sexo oral é mais frequente nesta última geração do que na mais jovem.» É verdade que a vírgula antes da locução conjuntiva alternativa ou disjuntiva quer... quer..., quando liga elementos da mesma oração, é facultativa, mas, na minha opinião, não se deve usar nestas circunstâncias, reservando-se para os casos em que liga orações.

[Post 3857]

Sigla OTAN


Muito bem!


      Não somos todos carneiros: há quem siga o que sabe ser o mais correcto, independentemente de maiorias acéfalas: «Os militares portugueses integram ainda outros contingentes internacionais no âmbito da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e da ONU (Organização das Nações Unidas), em diversos pontos do mundo, como o Líbano, Timor, no Congo. Afeganistão ou Kosovo (ver mapa)» («GNR abandona missão militar da UE na Bósnia», Jornal de Notícias, 7.09.2010, p. 9).

[Post 3856]

Léxico: «mockumentary»

Amálgamas e confusões


      «É claro que, no final, subsiste a dúvida se será um documentário ou um ‘mockumentary’ (documentário fictício)» («Phoenix reinventado», P. P., Correio da Manhã, 7.09.2010, p. 41).
      Recentemente, no Jornal de Notícias, podia ler-se isto sobre o mesmo termo: «O termo junta “mock”, que significa burlesco, e a abordagem do documentário, com o objectivo de reforçar a espontaneidade da narrativa, veracidade ou realismo da história» («A moda dos “mockumentary”», Dina Margato, Jornal de Notícias, 23.08.2010). Essa é uma das acepções, mas nesta amálgama mock transmite a ideia de imitação, falsificação. E por isso já o vi traduzido para «falsumentário».

[Post 3855]

Sobre «dinossauro»

Entendam-se


      «Manuel Gonçalves Silva, 72 anos, advogado de Gertrudes, é o ‘dinossauro’ da advocacia em Elvas, com quase 48 anos de actividade» (Correio da Manhã, 7.09.2010, p. 7). Para que raio estão ali as aspas? Bem, esqueçam isso agora. Esta é uma derivação por metáfora, regista, e muito bem, o Dicionário Houaiss. Mas vejam agora as diferenças. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora a acepção. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa diz que é de uso figurado e significa a «pessoa ou instituição considerável, com vasta experiência». O Dicionário Houaiss, por seu lado, assevera que é a «pessoa ou instituição considerada ultrapassada, mantida pela tradição», e que o uso é pejorativo. Que acham os meus leitores?

[Post 3854]

Léxico: «mirmecólogo»

Apoiado


      É a nova moda: ter formigas em casa como «animais de estimação». É pedagógico, dizem eles. Uma vantagem é dar trabalho (nem que sejam apenas as entrevistas aos jornais) aos mirmecólogos e trazer o vocábulo à luz do dia. De caminho, pode ser que também contribua para que os dicionários registem o termo. «Eduardo Sequeira, mirmecólogo (especialista em formigas), esclarece que “existem vários processos de construção para formigueiros, alguns mais fáceis do que outros”, sendo que um dos factores essenciais a ter em conta “é a sua adequação à espécie pretendida”» («Quinta caseira para as formigas», Elsa Pereira, Jornal de Notícias, 7.09.2010, p. 28).

[Post 3853]

Como se escreve nos jornais

Indocíveis


      No Correio da Manhã, continuam a ignorar que uma criança de 3 anos não é um bebé. Culpa dos jornalistas, dos editores e dos revisores: «Os feridos mais graves foram transportados para o Hospital de Mérida, incluindo uma mulher que viajava com dois netos, um bebé de três anos, que estava ontem a ser operado, e o seu irmão, de sete» («Acidente junto às obras do TGV», Paulo Madeira, Correio da Manhã, 7.09.2010, p. 34).
      As palavras não são só palavras, são conceitos. É lamentável que continuem a laborar num erro tão básico e risível. Vejam se retêm desta vez: bebé é a criança recém-nascida ou de poucos meses.

[Post 3852]

Como se escreve nos jornais

Como a pescada


      Avalie o leitor por si próprio com que critério e tino escrevem alguns jornalistas. Começo por transcrever o último parágrafo de uma notícia sobre um homicídio: «A autora dos disparos foi detida pela GNR, mais tarde entregue à PJ, e ontem ouvida no Tribunal de Moncorvo. À hora do fecho desta edição, a audiência ainda não tinha terminado.» Pois é, a audiência ainda não tinha terminado, mas a jornalista nos primeiros parágrafos já tinha uma certeza: «A mulher matou Luís Moreira com dois tiros desferidos à queima-roupa, usou uma pistola de calibre 3,35 milímetros, adaptada e considerada ilegal. O crime ocorreu no café, depois de a vítima ter esfaqueado o filho da arguida, com 36 anos, na sequência de uma discussão que começou por causa de cinco euros encontrados no chão» («Mulher mata homem com dois tiros num café», Glória Lopes, Jornal de Notícias, 7.09.2010, p. 11).
      O «presumível», com que éramos bombardeados a toda a hora e em todos os meios, já é menos correntio, mas o salto pode ter sido excessivo, descompassado: é-se logo arguido, mesmo antes de a autoridade competente o ter declarado. Juízo, precisa-se.

[Post 3851]

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