Léxico: «ângelus»

Menos latim

      «O Papa Francisco lembrou durante o Angelus de ontem que “não existe profissão ou condição social, não há pecado ou crime de qualquer género que possa cancelar da memória e do coração de Deus um filho”» («Papa pede forte mudança nos corações», Diário de Notícias, 4.11.2013, p. 20).
      Em português, escreve-se ângelus — não precisamos nem do itálico nem da maiúscula. E será que nós dizemos «cancelar da memória»? Hum... Em italiano, sim: «Non c’è professione o condizione sociale, non c’è peccato o crimine di alcun genere che possa cancellare dalla memoria e dal cuore di Dio uno solo dei suoi figli.» Nós diríamos «apagar da memória», talvez até «riscar da memória».
[Texto 3470]

«Mantrailing», hein?

Deve ser pela melodia

      «[Kevin J. Kocher] Esteve entre sexta-feira e ontem a dar a primeira formação feita em Portugal de mantrailing. Nada mais do que a “arte” de encontrar alguém específico pelo odor» («Cães ajudam a encontrar doentes perdidos através do faro», Ana Maia, Diário de Notícias, 4.11.2013, p. 20).
      Ainda nem sequer está registado nos dicionários de língua inglesa, mas não tarda podemos encontrá-lo nos de língua portuguesa.
[Texto 3469]

«Colocar o dedo na consciência»!

Outra vergonha

      «Quem coloca o dedo na consciência coletiva é o escritor Hans-Magnus Enzensberger, que deixa no ar um [sic] pergunta de difícil resposta: “Porque é que ninguém se mexe para o ajudar? Parece que todos admiram Snowden, no entanto, nada fazem por ele.”» («Personalidades alemãs pedem asilo político para Edward Snowden», L. M. C., Diário de Notícias, 4.11.2013, p. 23).
      Então não é pôr a mão na consciência que se diz, caro L. M. C.? Isso não é meter os pés pelas mãos, confundir demasiado, atrapalhar tudo? Agora já não apenas trocam, a torto e a direito, o verbo «pôr» pelo verbo «colocar», como confundem também a anatomia. (Ah, e Hans Magnus não tem hífen.)

[Texto 3468]

Ortografia: «ascensão»

Uma vergonha

      «O mesmo aconteceu com o jovem australiano Andrej Pejicc [na verdade, Pejić], cuja mudança lhe trouxe uma vertiginosa ascenção no universo da alta-costura» («A modelo que parece o que não é para... não perder o emprego», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 4.11.2013, p. 53).
      Quem escreve isto também é capaz de escrever «ascençor do Lavra», por exemplo. Uma jornalista! Pode haver excepções, mas, de forma geral, os verbos terminados em -nder dão origem a substantivos terminados em -nsão. É o caso: ascenderascensão.
[Texto 3467]

Uma «direcção» esquisita

Vamos silenciá-la

     Para descansar da questão galega, fui à Decathlon, em Alfragide. Embora conheça o caminho de olhos fechados, liguei o GPS, um TomTom, porque a última vez que o usara não funcionava bem. A própria palavra «Decathlon» não sai muito escorreita da voz clara e bem audível de Joana, uma das vozes por que podemos optar, mas isso é o menos, desculpável até, pois trata-se de uma indicação secundária. Muito pior é não abrir a vogal de «direcção», muito longe de /dirɛsɐ̃w/, conforme transcrição fonética do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa. Faz impressão. A viagem já não corre bem. Não serão (diabos os levem) estragos causados pelo Acordo Ortográfico de 1990?

[Texto 3466]

Léxico: «masseira»

Outra falha

      «São os campos de masseiras, zonas cultivadas no terreno arenoso das dunas.» Ah, os dicionários. Abro o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e vejo que desconhece esta acepção de «masseira». É verdade que têm este nome porque, na sua forma, as parcelas quadrangulares, com os lados inclinados, parecem masseiras, os tabuleiros em que se amassa a farinha para o fabrico do pão.

[Texto 3465]

A língua e o autismo

Melodia e simplicidade

      «Miguel, um dos utentes do CAO [Centro de Actividades Ocupacionais], percebe tudo o que lhe dizem tanto em português como em inglês, mas responde em inglês. As terapeutas não conseguem perceber porquê. “Talvez tenha aprendido nos videojogos e na Internet. O inglês é quase sempre a língua preferida dos autistas, provavelmente pela melodia e por ser mais fácil”» («“Para perceber um autista, é preciso aprender a pensar como ele”», Mariana Correia Pinto, Público, 4.11.2013, p. 13).

[Texto 3464]

A questão galega

Pode haver uma terceira via

      «Fácil é de perceber que o que esteve em causa, nesse debate [II Conferência sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, realizada em Lisboa, no final de Outubro], foram duas vias possíveis para a resolução da questão galega: uma insistindo numa via isolacionista, que não levará senão, a curto-médio prazo, à completa extinção dessa singularidade linguístico-cultural; a outra, apostando antes numa crescente convergência com o espaço lusófono (não apenas com Portugal), sem qualquer fantasma de dissolução. A língua que se fala na Galiza será sempre uma variante singular da língua portuguesa, nessa acepção mais ampla e mais profunda do que é a Lusofonia, enquanto realidade plural e polifónica» («A questão galega», Renato Epifânio, presidente do Movimento Internacional Lusófono, Público, 3.11.2013, p. 54).

[Texto 3463]

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