«Uma carta adonde»!

Exigem pluralismo

      Armindo Miranda, da Comissão Política do PCP, entrevistado à porta dos Estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, enquanto o primeiro-ministro respondia «ao País»: «Vamos entregar uma carta adonde damos a opinião do Partido Comunista Português que não compete ao director de Informação da RTP decidir quem devem ser os próprios governantes do nosso país, os próximos governantes.»

[Texto 3363]

«Por mãos alheiras»!

Aqui mesmo

      Não têm fim os acertos e os desacertos a que podemos assistir na nossa vida. Depois da «faca de dois legumes» de Jaime Pacheco e do «pau de dois gumes» de Nuno Azinheira, eis outro disparate de nos fazer chorar. Ontem, numa reportagem, entrevistavam jovens que estão a aprender a lutar contra o êxodo rural. Em Rio Maior, encontraram Luís, um jovem que está a concluir o mestrado em Psicologia. «Pelo caminho», afirma o repórter, «reinventou o negócio de família.» Demos a palavra ao jovem: «Não quisemos deixar ficar as tradições por mãos alheiras ou quisemos pegar naquilo que nós nos orgulhávamos muito.»
[Texto 3362]

«Quando mais não fosse»

No país da Alice

      «– Não lhe parece então condenável e odioso que uma mulher abandone o marido e dois filhos, para seguir um indivíduo qualquer, sem tão-pouco saber ainda se é digno do seu amor? Pode realmente desculpar um comportamento tão leviano e impensado numa mulher que já não é criança e que devia ter aprendido a respeitar-se, quando mais não fosse, em atenção aos filhos?» (Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher, Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Lisboa: Publicações Europa-América, 1972, p. 62).
[Texto 3361]

Iocoama

Porque não é

      «O seu pai estava à frente de uma clínica dentária em Iocoama. Era um homem muito bonito, cujo nariz particularmente bem feito fazia lembrar Gregory Peck em A Casa Encantada» (Sputnik, Meu Amor, Haruki Murakami. Tradução de Maria João Lourenço. Alfragide: Casa das Letras, 2010, 9.ª ed., p. 16).
      Parece pois que, no caso, também ninguém ­— tradutora, revisor (Ayala Monteiro) ou editor — achou ridículo. Porque não é.
[Texto 3360]

Lípsia

Dizem que é ridículo

      «Fiz os meus estudos na Alemanha, formei-me em medicina. Tornei-me até um bom médico, ocupando um lugar nas clínicas de Lípsia e, nessa época, não sei que número do Medizinische Blaetter fêz um grande barulho à volta de uma nova injecção que fui o primeiro a pôr em prática» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, 4.ª ed., p. 27).
      Agora dizem que é ridículo. Mas lá está ainda no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora lipsiense: «relativo à cidade alemã de Lípsia (Leipzig) no estado da Saxónia (Sachsen)».

[Texto 3359]

«Avante, Camarada»

Agora é assim

      «É uma espécie de “Avante, camarada”: um mero emblema. A meio da conversa, na conferência de imprensa que fechou o Congresso, Cunhal saiu-se de repente com uma extraordinária observação» (Retratos e Auto-Retratos, Vasco Pulido Valente. Lisboa: Assírio & Alvim, 1992, p. 122).
      Como sucede com o título Tanta Gente, Mariana, também neste caso omitem agora a vírgula antes do vocativo. Isso mesmo, tudo raso. Acabei de o comprovar.

[Texto 3358]

Tradução: «tussor»

Gosto e proveito

      «Através da camisa de tussor, olhei o sítio onde espetara o alfinete: curiosidade despojada de toda a paixão; recordei-me sem qualquer cólera do que Ana escrevera: “Apoio a minha mão no sítio onde lhe bate o coração... o que ele chama a última carícia permitida...”» (Teresa Desqueyroux, François Mauriac. Tradução de Nataniel Costa. Lisboa: Estúdios Cor, 1955, p. 84).
      O itálico indica bem que é um estrangeirismo, que o tradutor (e director da colecção) não quis ou não soube traduzir. (Está, efectivamente, a milhas da qualidade das traduções de Cabral do Nascimento, que lemos com outro gosto e proveito.) Agora vejam. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora está registado «tussor»: «Cabo Verde tecido fino, de seda natural». E na etimologia, «do francês tussor ou do inglês tussore, “idem”, do hindustâni tasar, “idem”». No entanto, no Dicionário de Francês-Português da mesma editora, sobre tussor lê-se: «(Índia) seda crua». Tudo isto merecia alguma harmonização.

[Texto 3357]

«Havia semanas»

Nataniel sabia

      «Teresa, menos por cansaço do que para fugir àquelas palavras com que a aturdiam havia semanas, afrouxou em vão a marcha; impossível deixar de ouvir a voz de falsete do pai» (Teresa Desqueyroux, François Mauriac. Tradução de Nataniel Costa. Lisboa: Estúdios Cor, 1955, pp. 13-14).
[Texto 3356]

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