Léxico: «dessolidarizar»

Podia estar

      O autor achou que tinha de inventar uma palavra: «prometeuniana». Apre. Mas, mudando de assunto, eis uma que falta em muitos dicionários: «Não posso dessolidarizar-me desses horrores, exactamente do mesmo modo que não posso dessolidarizar-me das minhas ideias. Perante a radical evidência do mal, a única salvação para o homem e para os homens aparece-me em Jesus [...]» (Deus, o Que É?, M. S. Lourenço. Lisboa: Morais Editora, 1968, p. 152).
[Texto 3355]

Aportuguesamento: «fisális»

Não vale a pena

      «Se olharmos com curiosidade para a planta Physalis deparamo-nos com a existência daquilo que parecem ser pequenos invólucros em forma de lanterna que, na fase final do seu desenvolvimento, mais parecem embrulhos feitos com papel de arroz» («Physalis: o fruto que vem embrulhado!», Rosa Isabel Guilherme, «Fugas»/Público, 5.10.2013, p. 31).
      Pois, mas já está aportuguesado e dicionarizado, fisális, tanto a designação da planta como do fruto, a baga. Por isso, não se esforcem, deixem lá o latim.

[Texto 3354]

Léxico: «cinzentismo»

Não falta por aí

      Uma professora universitária a escrever «sigílio»? Está isto lindo, está. Mas mudando de assunto: o grande poeta afirmou que não desejava «assumir a responsabilidade pelo cinzentismo («insipidness»?) de ninguém a não ser o meu próprio». O problema habitual: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «cinzentismo»; em contrapartida, aparece no Dicionário Português-Inglês da mesma editora. Como este, centenas de outros erros, lacunas e incoerências.
[Texto 3353]

Ortografia: «audioguia»

Não há tempo

      «A primeira explanação já conhecida parece ser uma sátira ao estilo convencional dos áudio-guias de museus, com frases como “está a observar um tipo de pintura chamada graffiti, do latim graffito, que significa graffiti com um O”» («Banksy invade as ruas de Nova Iorque», Vítor Belanciano, Público, 3.10.2013, p. 33).
      Está o jornalista ilibado da (aparente?) parvoíce, porque acabei de ler a transcrição em inglês: «“You’re looking at a type of picture called graffiti, from the Latin ‘graffito,’” the audio guide offers, “which means ‘graffiti,’ with an ‘o.’”» (aqui). Mas só pode ser audioguias, porque o elemento audi(o)- não se liga por hífen ao elemento seguinte. Claro que os jornalistas não têm tempo para pensar nestas minudências e investigar. Sobretudo não têm meios.
[Texto 3352]

Tradução: «shutdown»

Paralisados, do pescoço para cima

      «O primeiro shutdown do Governo norte-americano em quase 20 anos – o último foi repartido entre o final de 1995 e o início de 1996, durante a presidência de Bill Clinton – tem as consequências óbvias da falta de dinheiro para pagar ordenados e do impacto no turismo devido ao encerramento de museus e parques nacionais, por exemplo» («O shutdown deixou funcionários sem ordenado e congressistas sem sopa», Alexandre Martins, Público, 3.10.2013, p. 28).
      Não compreendo: shutdown para aqui, shutdown para ali, até no título, quando num dos parágrafos se usa um equivalente possível: «Mas a paralisação do Governo norte-americano pode durar semanas, e quem fica semanas sem receber o ordenado por causa de um debate no Congresso que correu mal pode não ter o sentido de humor no menu preferido.» Na semana passada, foi com filibuster que nos bombardearam. Não nos dão descanso.
[Texto 3351]

«Casa arbórea»

Poetas

      «Logo à entrada do bosque existia uma árvore da China, de tronco duplo; na realidade eram duas árvores, mas os ramos estavam tão entralaçados que se podia andar de uma para a outra, tanto mais que eles se encontravam ligados por uma casa arbórea» (A Harpa de Ervas, Truman Capote. «Colecção Latitude». Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 26).
      Não é muito melhor do que «Rua Áurea», essa é a verdade. Acho que foi a alma de poeta de Cabral do Nascimento que ali se derramou.
[Texto 3350]

«Livro-mestre»?

Grandes falhas

      «Depois da ceia, com uma pala verde sobre os olhos, sentava-se ela à secretária, somando parcelas e voltando as páginas do livro-mestre até se apagarem os lampiões da rua» (A Harpa de Ervas, Truman Capote. «Colecção Latitude». Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 17).
      Pois é, muito interessante... O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «livro-mestre». Contudo, o Dicionário de Português-Italiano da mesma editora regista-o, embora remeta para «livro-razão», que o Dicionário da Língua Portuguesa também não regista. E «livro-mestre» não virá, directa e desnecessariamente, do italiano libro mastro?
[Texto 3349]

Isto é que é traduzir

Francamente

      «O site do PÚBLICO foi considerado a publicação online mais bem desenhada na edição deste ano do congresso ÑH, organizado pelo capítulo espanhol da Society for News Design, que anualmente distingue as publicações e trabalhos jornalísticos com melhor desenho» («Site do PÚBLICO ganha prémio para o mais bem desenhado da Península Ibérica», Público, 2.10.2013, p. 13).
      Faz-me lembrar uma maluca que eu conheço que falava da «estética das contas». Era só estética, porque estavam todas absurdamente erradas. E no Público, isto: está chapter no original, vá de traduzir à letra. Só que — santinhos — em português nada significa. Em inglês é que é, no contexto, «a local branch of an organization».
[Texto 3348]

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