Léxico: «chega»

Chega!

      Ontem, no Jornal da Tarde, vi uma reportagem sobre chegas de bois de raça barrosã (com mais de 1000 kg!) em Montalegre. A entrada custava 10 euros, e o prémio para o dono do vencedor foi de 750 euros. Tudo ficou resolvido em 2 minutos. Dantes, a chega era a luta entre bois do povo, isto é, sementais, bois reprodutores que pertenciam a toda a aldeia. Pois acontece que a palavra «chega», nesta acepção, não está em todos os dicionários. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Às tantas, até nos dicionários de galego se encontra, pois os galegos arraianos com o Barroso, os de Randin, Muínos, Baltar, também tinham antigamente chegas de bois. Não é assim, Fernando Venâncio?

[Texto 3174]

Léxico: «mandinga»

Não me mandingues!

      Só hoje, que cheguei ao conhecimento do Antigo Breviário de Rezas e Mandingas, é que soube que até as dores de cabeça têm patrono — Santo Aspácio. A mim tem-me feito bem Aspegic (que fica aqui para não estar apenas nas crónicas de António Lobo Antunes. Ala). Ah, sim, e também não conhecia a palavra «mandinga» — feitiçaria, sortilégio —, que recebemos de África.
[Texto 3173]

Léxico: «contrapicado»

Do cinema para todo o lado

      «Depois ninguém sabe explicar o que se deu. Se foi dos eflúvios etílicos que envolveram a sala, se foi o olhar contrapicado do médico agachado no chão para a cara seguramente sinistra de Joaquim – e, olhada de baixo, toda a gente assume um ar aterrador» (Que Importa a Fúria do Mar, Ana Margarida de Carvalho. Lisboa: Editorial Teorema, 2013).
      Tem de ser o Dicionário Houaiss a registá-lo e a dizer que se trata de um lusismo, pois os nossos dicionários, estranhamente, omitem-no. É mais um — ou menos um, conforme a perspectiva.

[Texto 3172]

«Está bem, abelha»

Como quem manda à merda

      Acabei de ler a expressão, que não ouvia nem lia há muito, e lembrei-me que Cardoso Pires a usou várias vezes nas suas obras. «Sorriso maldoso do inspector. Óculos escuros é com ele, mas em tecnicolor polaroid. No entanto faz-se desentendido; pensa: Está bem, abelha. E recosta-se na cadeira. Tem a ordem de captura à mão de assinar mas quer ouvir primeiro, saber opiniões. Opiniões? Elias não há meio de entender por que diabo aparece o mangas da secretaria metido naqueles expedientes. Conselheiro chamado de aflição para os devidos efeitos?» (Balada da Praia dos Cães, José Cardoso Pires. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, 17.ª ed., p. 136).
[Texto 3171]

«Período compulsivo»

Também foi

      «“Entendeu-se que [o palacete] era ideal para albergar sindicatos e uma cooperativa, a Cooperativa de Produção e Consumo Proletário Alentejano”, recorda Valverde Martins [antigo coordenador da União dos Sindicatos do Distrito de Beja]. Sem conseguir precisar a data da entrada na casa, recorda ter sido “no período compulsivo a seguir ao 11 de Março”» («“Sentíamos repulsa por eles. Quando me entregaram a chave da casa senti que era justo”», Vanessa Rato, Público, 11.08.2013, p. 12).
      Pois, foi isso que disse Valverde Martins, e a jornalista, mesmo vendo que está incorrecto, que é um lapso manifesto, deixa tal qual. Mas sim, também foi um período compulsivo para alguns, como os grandes proprietários, os latifundiários, alguns militares que não sabiam exactamente o que estavam a fazer, porque nada lhes era explicado ou eram enganados...
[Texto 3170]

«Deo optimo maximo»

É o que cada um quiser

      O português Pedro Paulo, barman a trabalhar no Hotel One Aldwych, em Londres, ganhou um dos mais importantes concursos de cocktails do mundo, o UKBG National Cocktail Competition, patrocinado pelo licor francês Bénédictine. O nome da bebida que preparou, One DOM, é também uma mistura: do nome do hotel e da divisa dos Beneditinos, Deo optimo maximo, mas que normalmente só é conhecida pela abreviatura D. O. M., inscrita nas garrafas daquele licor. «A Deus, que é muito bom e muito grande» é uma das possíveis traduções. Para Pedro Paulo, porém, é antes «Para Deus, para os mais corajosos, para os mais audazes».
[Texto 3169]

Ortografia: «antiestalinista»

Por antonomásia

      «Isso custou-lhe inimizades internas. “Sempre fui profundamente anti-estalinista e tive alguns problemas com o partido por causa disso. Estive nitidamente a favor da insurreição de Praga e escrevi contra a invasão dos tanques soviéticos, das barbaridades que se fizeram. Eu era a favor da Primavera, do chamado socialismo de rosto humano”, disse, afirmando-se seguidor do panteísmo e depois de assegurar que, enquanto dirigente do PCP, sempre separou a escrita da militância» («O homem que via os deuses ao lado», Isabel Lucas, Público, 10.08.2013, p. 3).
      Cara Isabel Lucas: anti-Estaline, mas antiestalinista. Parabéns, porém, pelo «partido» minúsculo e não, como se vê demasiadas vezes, maiúsculo, «Partido».
[Texto 3168]

«Haveria de»

Mais e sempre avarias

      «E [o escritor Mário de Carvalho] salienta a “fábrica da escrita”, ou seja, o processo criativo torrencial de um escritor que leu muito cedo. Uma Pedrada no Charco (novela de 1957), Os Bastardos do Sol (1959) ou de haveria de ler Histórias Alentejanas (1977). [...] A sua referência moral e política haveria de ser Álvaro Cunhal, mas o militante do Partido Comunista fazia questão de vincar a sua oposição ao regime de Estaline» («O homem que via os deuses ao lado», Isabel Lucas, Público, 10.08.2013, pp. 2-3).

[Texto 3167]

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