Léxico: «desruralização»

Outra acepção

      «O campo, hoje, sucumbiu à compulsão do consumo, à suburbanidade, a uma ruralidade pautada pelo dogma do investimento a longo prazo — as pessoas terão sempre necessidade da agricultura, dir-nos-ão. O geógrafo Álvaro Domingues tem estudado a mutação da ruralidade. Criou, até, o conceito de desruralização para explicar a alteração do modo de vida rural e é autor de uma antologia de imagens, ilustradas por fragmentos, que é de uma eficácia total na descrição do que é hoje a Vida no Campo, título de uma das suas obras» («O campo», António Pinto Ribeiro, «Ípsilon»/Público, 2.08.2013, p. 27).
      Será então outra acepção, que ainda não chegou aos dicionários. A desruralização, tal como vemos nos dicionários, é o despovoamento progressivo dos meios rurais, e veio, há não menos de cinquenta anos, directamente do francês déruralisation.
[Texto 3137]

Não é senão isso

De além-tumba

      «É um facto que a mitologia rural da Morgadinha — com a sua natureza bondosa, o seu ciclo agrário constante, os animais cordatos, os bois puxando os carros, a harmoniosa hierarquia das classes sociais, a ventura da pobreza — não era se não isso: uma mitologia que consagrava o campo como prolongamento do paraíso, onde a vida saudável se combinava com as virtudes humanas» («O campo», António Pinto Ribeiro, «Ípsilon»/Público, 2.08.2013, p. 27).
      Já vimos (à exaustão, julgava eu) que é senão que se escreve nestes casos. Graciliano Ramos diz, de além-tumba, como é. «Em seguida modifiquei e venci a reacção molesta e acusei-me de precipitação: Nunes Leite devia estar doente, devia ser doente. Não era senão isso. O lençol de água a correr como fonte e o brado lamentoso indicavam desequilíbrio, pois não havia razão para tais excessos» (Memórias do Cárcere, Vol. 1, Graciliano Ramos. Lisboa: Editorial Caminho, 1993, p. 93).
[Texto 3136]

Linguística forense

Autoplágio? Acho normal

      «O linguista forense Rui Sousa-Silva não esperava encontrar tamanha sobreposição de texto quando decidiu comparar os memorandos de entendimento assinados entre a Comissão Europeia (CE), o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), por um lado, e a Grécia, a Irlanda ou Portugal, por outro. Logo na primeira leitura, notou grande reutilização de texto. Ao fazer uma análise comparativa, a dimensão pareceu-lhe “absurda”: os acordos assinados pela Irlanda e por Portugal partilham 75% do texto, os assinados pela Grécia e pela Irlanda coincidem em 77%, e os assinados pela Grécia e por Portugal em 82%» («Memorando da troika. O texto português é 82% igual ao grego», Ana Cristina Pereira e Lurdes Ferreira, Público, 3.08.2013, p. 18).
[Texto 3135]

«Cantonamento», de novo

Ausentes dos dicionários

      «Mas há uma outra geografia ferroviária portuguesa que vive ainda a um ritmo não muito diferente do século XIX. São as linhas que ainda não foram modernizadas e cuja exploração continua dependente do cantonamento telefónico — um sistema no qual o chefe da estação telefona para a estação seguinte a pedir o avanço do comboio. [...] O mesmo acontece entre o Pocinho e a Régua, em que o cantão (distância entre estações guarnecidas com pessoal) é de 68 quilómetros)» («Em Portugal poderia ocorrer um acidente igual ao da Galiza?», Carlos Cipriano, Público, 3.08.2013, p. 8).
[Texto 3134]

Acelera ou frena

Infrene e não destravado

      «O Convel [de controlo de velocidade] permite ainda a condução em “piloto automático”, na qual o maquinista dá indicações ao computador de bordo sobre a velocidade a que se pode circular naquele troço e o próprio comboio acelera ou frena — os comboios não travam porque não têm travões, mas sim freios — consoante esteja a subir ou a descer, de maneira a manter-se dentro do limite imposto» («Em Portugal poderia ocorrer um acidente igual ao da Galiza?», Carlos Cipriano, Público, 3.08.2013, p. 8).

[Texto 3133]

Léxico: «nocturlábio»

Mas ainda vai a tempo

      «A eles se deve a invenção dos dois instrumentos denominados astrolábio e nocturlábio, com o primeiro dos quais se tomava a altura dos astros, e com o segundo se determinava quando a estrela do norte andava mais alta ou mais baixa que o pólo [...]» (Historiadores e Críticos do Romantismo, Vol. 1, Guilhermino César. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora, 1978, p. 111).
      Não está em todos os dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não o regista.
[Texto 3132]

«Metainformação», de novo

Outra vez bem

      «Ao longo de quase uma hora, o general Keith Alexander apresentou os dois principais programas de vigilância da NSA — um dedicado à recolha de metainformação (números e duração de uma chamada telefónica, por exemplo) e outro que permite o acesso ao conteúdo, neste caso apenas para comunicações mantidas fora do território dos EUA» («Um general entre hackers para falar sobre espionagem», Alexandre Martins, Público, 2.08.2013, p. 23).
      Depois de algumas hesitações, Alexandre Martins lá voltou a escrever correctamente a palavra «metainformação». Uf... Agora só falta estar em todos os dicionários.
[Texto 3131]

Léxico: «acusmático»

E não é doença

      «O termo acusmático», lê-se num cartaz da Casa da Música que o leitor R. A. acabou de me mandar, «genericamente usado para definir sons cuja proveniência se desconhece, remonta ao filósofo e matemático grego Pitágoras, que enquanto dava aulas se escondia atrás de uma cortina negra para evitar que os seus gestos e movimentos distraíssem os alunos. Séculos mais tarde, a palavra “acusmático” passaria também a designar concertos onde se ouve música mas não há músicos.»
      Pitágoras falava atrás de uma cortina para que os seus discípulos não se distraíssem e se concentrassem somente no seu discurso. Era a estes discípulos que apenas o ouviam que se dava o nome de acusmáticos. Actualmente, diz também respeito a toda a música que se ouve, mas cuja fonte se desconhece — no fundo, a esmagadora maioria do que se ouve, pois ouve-se constantemente música e não temos músicos nem instrumentos à nossa frente. Ficava bem dizer agora alguma coisa sobre Pierre Schaeffer, mas tenho de deixar algum trabalho ao leitor, não é?
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o termo, mas afirma que é o «que diz respeito a acusma» ou o «que padece de acusma». Acusma é, para este dicionário, a «alucinação auditiva em que se ouve[m] sons de vozes ou de instrumentos».
[Texto 3130]

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