Picassos, Magrittes, Pollocks e Warhols

Plural, pois claro

      «E, já agora, porque é o Governo não classifica, de uma vez por todas, a colecção Berardo, acabando com as constantes e irritantes ameaças do comendador Joe de a levar para fora do país? Acaso temos por aí Picassos, Magrittes, Pollocks e Warhols aos pontapés? Um raciocínio semelhante em relação ao senhor Calouste: haveria museu na Avenida de Berna, se a França tivesse feito à colecção Gulbenkian o que tanta gente está cheia de vontade de fazer ao quadro de Crivelli? Pois é. O Estado que se entretenha com o seu património — do qual nem sequer consegue cuidar — e deixe os privados em paz» («Crivelligate, a conclusão», João Miguel Tavares, Público, 13.06.2013, p. 48).
[Texto 2969]

 

«Camisa-de-sete-varas»

Parece que é igual

      «Muito menos a sua irmã, embora achasse que ela se podia meter numa camisa de sete varas se por acaso voltasse a encontrar o dito homem» (Tiro e Queda, Mafalda Belmonte. Lisboa: Bertrand Editora, 2002, p. 60).
      É a primeira vez que vejo assim. A medida tradicional é onze: camisa-de-onze-varas, hifenizado, como aparece, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. A alva dos condenados a autos-de-fé era feita de pano de varas, um tecido antigo de lã, áspero. Talvez haja aqui relação com o termo «vara» no sentido de circunscrição judicial. Quanto a serem sete ou onze varas, e vara aqui é uma antiga medida de comprimento, talvez seja, como alguns aventam, indiferente, pois são ambos números meramente simbólicos.
[Texto 2968]

Léxico: «alumbramento» e «alumbrado»

Sopro criador, revelação, inspiração

      Outras duas ausências de vulto no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: alumbrado e alumbramento. Quando Bárbara Guimarães recebeu, no programa Páginas Soltas, em 16 de Novembro de 2006, José Saramago, perguntou ao escritor a que chamava alumbramento. «Alumbramento? Não é uma palavra que eu use muito...» Mas de certeza que era, pois noutra resposta usou-a desenvoltamente duas vezes. Ainda assim, mais falta faz o termo «alumbrado» na acepção de membro da seita surgida no século XVI em Espanha. Porque ainda hoje há muitos alumbrados, muitos hereges...

[Texto 2967]

«Malícia» e «milícia», de novo

Bem me parecia

      «Parece que, no caso de “Aquele único exemplar”, a variante mais significativa se encontra no verso 10 da ode: em grafia actualizada, “No soberbo exercício da malícia”, onde, nas versões conhecidas, se pode ler “No soberbo exercício da milícia”. E vejo surgir uma proposta de leitura no sentido de que a versão agora revelada quereria dizer “no soberbo exercício da medicina ou do tratamento do mal”.
      Não me parece que se possa ir por aí. Camões refere-se a Aquiles, ensinado pelo centauro Quíron (a quem o poeta mais adiante chama “semiviro”) tanto nas artes da medicina como nas artes da guerra. Aquiles (sempre actualizando a grafia) “Não menos ensinado/ Foi nas ervas, e médica notícia,/ Que destro e costumado/ No soberbo exercício da milícia./ Assi que as mãos, que a tantos morte deram/ Também a muitos vida dar puderam”.
      A estrutura da caracterização da aprendizagem de Aquiles é dupla e como tal explorada em paralelo. O sentido da comparação desaparecia se lêssemos “malícia” como correspondendo a medicina ou tratamento do mal. Aquiles teria então sido ensinado tanto nas ervas e médica notícia como no exercício da medicina... E a estética do poema ficaria coxa de todo em passagem de tão inábil redundância...» («O soberbo exercício da malícia?», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 12.06.2013, p. 54).

[Texto 2966]

Como se fosse regra do AO

Hífenes, já eram

      Com a adopção das regras do Acordo Ortográfico de 1990, não foram apenas os cc e os pp que passaram a ser ceifados indiscriminadamente, mas também — é especialmente visível no DN —, como já tenho dito, os hífenes. Já hoje tratei do caso de «primeira-bailarina». Ei-lo agora sem hífen no Diário de Notícias: «No ano seguinte, foi convidada por Madalena Perdigão para regressar ao Ballet Gulbenkian, onde permaneceu como primeira bailarina até julho de 1994» («Bailarina teve uma vida dedicada à dança em Portugal», Helder Robalo, Diário de Notícias, 12.06.2013, p. 43).

[Texto 2965]

O AO, em definitivo

Coitados

      «A dois anos da entrada em vigor, em definitivo, do novo Acordo Ortográfico, a Associação de Professores de Português (APP) lamenta que nem todos os professores estejam já a usar a nova ortografia nas provas escritas, algo que, defende a presidente da APP, “penaliza os alunos”, É que a partir do ano letivo de 2014/2015 as provas nacionais já penalizarão o uso incorreto do novo Acordo» («Nem todos os professores de Português usam o novo Acordo», Helder Robalo, Diário de Notícias, 12.06.2013, p. 15).
      É pena não estar previsto penalizar os professores pelo uso incorrecto das novas regras ortográficas. Se até alguns professores de Português não as conhecem, imagine-se o que se passa com os professores de outras disciplinas. Pobres alunos, não queria estar-lhes na pele.

[Texto 2964]

Ortografia: «primeira-bailarina»

Podia estar

      «Em 1974, Madalena Perdigão convida-a a voltar, como primeira-bailarina, ao Ballet Gulbenkian. Pertenceu durante mais de 25 anos a esta companhia, que deixa em 1994. Foi também professora de dança» («Morreu Graça Barroso, “bailarina completa e muito rara”», Joana Amaral Cardoso, Público, 12.06.2013, p. 30).
      Esta ainda não está nos dicionários, onde encontramos primeira-dama, primeiro-cabo, primeiro-grumete, primeiro-marinheiro, primeiro-tenente; segundo-cabo, segundo-furriel, segundo-grumete, segundo-marinheiro, segundo-sargento, segundo-subsargento... E, por isso, por vezes vemo-la sem hífen.

[Texto 2963]

Léxico: «tumorigénico»

Anda lá perto

      «A experiência dos investigadores portugueses, relatado [sic] num artigo publicado recentemente no Journal Cell Biology, atribui ao Bub3 mais importância ainda: de acordo com os resultados obtidos em moscas Drosophila, este gene também representa uma proteína supressora de tumores e “é essencial ao controlo da proliferação tumorogénicas invasivas [sic]”» («O “silêncio” de um gene chamado Bub3 pode dar força a um tumor», Andrea Cunha Freitas, Público, 12.06.2013, p. 27).
      O artigo, em inglês, de certeza que usa a palavra «tumorigenic», que, evidentemente, não se pode aportuguesar como a jornalista fez. Será, como se lê no Dicionário Aulete, tumorigénico. Se optarmos por aportuguesar a palavra francesa («tumorigène»), temos tumorígeno.

[Texto 2962]

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