Léxico: «dropar»

É melhor duas

      «“Este fato foi idealizado pela SURFaddict e a Janga fê-lo. É o primeiro fato adaptado do mundo, tem velcros em baixo para permitir vesti-lo como um calção”, explica à Lusa Nuno Vitorino, acrescentando: “Tem também um velcro que permite segurar as pernas, para que quando vamos a dropar a onda as pernas não abram e não criem um foco de desequilíbrio”» («Primeiro fato de ‘surf’ adaptado é português», Diário de Notícias, 11.06.2013, p. 15).
      Está no Aulete e no Houaiss. Deste lado do Atlântico, ainda não chegou aos dicionários. E aquele «calção» está mesmo a pedir outro, gémeo, para se poderem vestir — calções. É o que em latim se chamava pluralia tantum e os Brasileiros adaptaram para «pluralício», termos que só ocorrem no plural. Na página na Internet da SURFaddict, Associação Portuguesa de Surf Adaptado, lá está, para os interessados, o «contato».
[Texto 2957]

«Caubói»?

Agora eu era o herói

      «Caubói»? «Ao ministro Vítor Gaspar, que mencionou as “condições meteorológicas” como uma das causas do pouco investimento na construção civil e do permanente atraso da recuperação económica, quem deu a melhor resposta foi Clint Eastwood, num velho filme de caubóis chamado O Rebelde do Kansas: “Não me mijem pelas costas abaixo para depois me dizerem que está a chover.”» («O preço da chuva mijona», Rui Tavares, Público, 10.06.2013, p. 48).
      Os Brasileiros é que aportuguesaram cowboy em caubói; nós é cobói que usamos. Já tinha lido numa obra de José Eduardo Agualusa, mas este escritor é angolano. E Rui Tavares não tem a escapatória de dizer que estava a escrever para os Brasileiros, porque, no Brasil, o filme tem o título Josey Wales — O Fora-da-Lei.
[Texto 2956]

«Autodesignar-se», de novo

Quase português

      «Num dos discursos recentes, Erdogan chegou mesmo a clarificar: “Esses que se autodesignam como jornalistas, ou artistas...”. Essa gente. Os çapulcu» («A força dos çapulcu é combaterem Erdogan no seu território», Paulo Moura, Público, 10.06.2013, p. 20).

[Texto 2955]

Léxico: «pantógrafo»

Não só para cópias

      «Esta é a história de um eléctrico chamado futuro. Ou de muitos. Um eléctrico chama-se assim porque é alimentado pela energia eléctrica que recebe da catenária (cabo de alta tensão) ao qual está ligado através de um pantógrafo» («Eléctricos e comboios do futuro podem prescindir da catenária», Carlos Cipriano, Público, 10.06.2013, p. 25).
      Há dicionários, com o citado mais abaixo pelo leitor Mário Azevedo, que desconhecem esta acepção de pantógrafo: «dispositivo articulado que recebe a corrente eléctrica da catenária e que se encontra colocado no tejadilho da locomotiva» (como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

[Texto 2954]

«Double-entendre»!

Simples e em português

      «E a vedeta da Broadway Fanny Brice lançou uma frase cujo double-entendre ficou célebre: “Wet, she’s a star; dry, she ain’t” (literalmente: “Molhada ela é uma estrela, mas seca nem pensar”)» («Mais de metade de Portugal é área árida ou seca», Jorge Mourinha, Público, 10.06.2013, p. 29).
      Uma boa parte — metade? — do que se pretende exprimir é agora indizível em português. Há-de ser defeito meu, mas só vejo ali um sentido.

[Texto 2953]

«Pinheiro-manso»

De vez em quando

      «A azinheira e o sobreiro dominam a ocupação nas zonas mais susceptíveis à desertificação, onde existem também alguns pinheiros-mansos» («Mais de metade de Portugal é área árida ou seca», A. P. C., Público, 9.06.2013, p. 11).
      É mesmo tocante, este levíssimo toque de Acordo Ortográfico de 1990 no antiacordista Público, não acham? Isto não vai lá só com conversa.

[Texto 2952]

Era uma vez o verbo «pôr»

Pobre verbo «pôr»

      O leitor afirma que é um livro belíssimo. O título é Irmão Lobo, e foi publicado em Março passado na editora Planeta Tangerina. No resumo biográfico da autora, Carla Maia de Almeida, lê-se: «Ainda não colocou de parte a ideia de viver na Nova Zelândia, país onde não se importaria de ter nascido.»

[Texto 2951]

«Manbo jambo»?

Mais ou menos isso

      «Em 1984, os cidadãos de uma ditadura ultravigiada são bombardeados com palavras de duplo sentido, o doubletalk, um obscuro manbo jambo semântico» («O abruptamontes social-democrata», Rui Cardoso Martins, «2»/Público, 9.06.2013, p. 41).
      Ou será mambo jambo? Ou mumbo jumbo? É semântico, mas não nos interessa. Doubletalk pode ser o nosso falar trocado, de que Gil Vicente era especialista.

[Texto 2950]

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