Sobre «cidadão» como adjectivo

Suspeitos do costume

      «De todas as vivências se encontram ecos no disco que publica nesse ano de 1974, Les amis de Georges, que será, com Le Métèque, talvez o mais explícito dos seus trabalhos “de intervenção” política e cidadã» («O vagabundo das canções de paz», Viriato Teles, «Q»/Diário de Notícias, 1.06.2013, p. 21).
      Para alguns dicionários, «cidadão» nem sequer é adjectivo; para outros, é sinónimo de «citadino». Está na moda e de certeza que vem de outra língua.

[Texto 2909]

Ortografia: «interétnico»

Com elementos de formação, cuidado

      «Em 1960 grava os primeiros discos de 45 rotações, sob o nome de Eddie Salem, uma vaga proposta inter-étnica que misturava sons do Mediterrâneo e que não chega para fazer história» («O vagabundo das canções de paz», Viriato Teles, «Q»/Diário de Notícias, 1.06.2013, p. 20).
      Só há uma maneira — seja lá qual for o acordo ortográfico — de escrever esta palavra, e não é desta.

[Texto 2908]

Léxico: «wagnerismo»

Ich denke nicht

      «Apoteose do romantismo alemão, Wagner é o único compositor cujo nome deu origem a um “ismo”. O autoproclamado deus da heilige deutsche Kunst — a “sagrada arte alemã” — teve uma influência ideológica comparável à de Marx e Darwin» («O problema de Wagner», Alexandre Delgado, «Q»/Diário de Notícias, 1.06.2013, p. 19).
      Há-de ser verdade, pois então. Pergunto a mim próprio se a definição de wagnerismo no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora será a melhor: «sistema musical de R. Wagner».
[Texto 2907]

Léxico: «arvorismo»

É no Alentejo

      «O sentido de turismo sustentável do Zmar não se esgota nas suas instalações e estruturas: a ideia aqui é levar toda esta filosofia aos utilizadores de uma maneira prática: há muitas actividades (percursos pedestres, bicicletas, ginásio, BTT e arvorismo são algumas das opções), há um centro de interpretação ambiental, onde são explicados a fauna, a flora e o clima da região, workshops didicados à consciencialização ambiental e ainda um programa para os mais pequenos, que são levados a alimentar os animais do parque, entre os quais as cabras, as ovelhas, os gansos, os patos, as araras e os burros» («Zmar/Que bem que se está no campo com todos estes luxos», «Liv»/i, 1.06.2013, p. 17).
      Está registada, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que remete para «arborismo»: «actividade que consiste em deslocar-se entre plataformas na copa das árvores, utilizando pontes de cordas, redes e cabos de aço e também técnicas como o rappel ou a tirolesa». Cá está «tirolesa», que há dois anos nenhum dicionário de língua portuguesa registava.
[Texto 2906]

Léxico: «carrocho»

Num covão da serra de S. Macário



      Apesar de ser a aldeia com mais cabras em todo o País (3000 cabras para 40 habitantes), Covas do Monte, no concelho de S. Pedro do Sul, tem um queijo tradicional, hoje quase desconhecido, feito de leite de vaca, chamado carrocho. No programa Portugal em Directo de ontem, ficámos a saber como se faz: «Deitava-se [o leite] dentro de uma panela, a ferver com uma pouca de água, e depois aquilo coalhava. Ficava da forma do tacho em que estivesse. Depois deitava-lhe um bocadinho de azeite. Saía, depois quando estivesse cozido, coalhava, tirava-o fora, punha num prato e cortava às fatiinhas» (José da Cruz, presidente da junta de freguesia). «Isso aqui atrasado», disse o Sr. José da Cruz, «essa gente utilizava muito isso.» «Aqui atrasado» — José Leite de Vasconcelos também recolheu esta expressão: «aqui há um tempo».
[Texto 2905]

Léxico: «caraquenho»

Isso está certo

      «Com as ossadas levadas para a salinha de estar, para a velha senhora continuar a ver a telenovela preferida, esta história sórdida ganharia a generosidade dos bandidos caraquenhos e bêbados baianos. Na despensa, é só uma história de netos rascas» («As ossadas da avó? Ao pé das cebolas...», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 30.05.2013, p. 56).
      Não há erro nenhum, pois não, caraquenho é o natural ou o habitante de Caracas.
[Texto 2904]

«Procureur de la République»

O Sr. Moulin é procurador

      «Alexandre D. também é francês e, ao ser apanhado pela polícia em casa de uma amiga, em la Verrière (Yvelines), “reconheceu logo os factos”, disse, em conferência de imprensa, o procurador, que referiu “uma vontade de matar muito evidente” da parte do suspeito» («Jovem que atacou soldado em Paris converteu-se há pouco ao islão», Albano Matos, Diário de Notícias, 30.05.2013, p. 31).
      «Procurador», vá lá. Claro que ajuda — ou é determinante? — que no original seja «procureur de la République».
      «Alexandre D., 22 ans, suspect de la tentative d’assassinat du militaire samedi à La Défense, a été arrêté ce mercredi à 6h10 devant le domicile de l’une de ses amies à La Verrière (Yvelines). Pour le procureur de la République de Paris, François Molins, ce jeune homme originaire de Trappes et converti à l’islam «à la fin de sa minorité», a «agi au nom de son idéologie religieuse contre un représentant de l’Etat», ce qui relève de l’incrimination terroriste» (in Libération).
      Mas agora reparem: no jornal português lê-se «la Verrière»; no francês, «La Défense». Tem de haver sempre qualquer erro ou gralha ou distracção.
[Texto 2903]

«Empregado/empregue»

É esse o escopo

      «De sorriso no rosto, CR7 dá mostras que não por [sic] mal empregue o tempo que esteve na sala de espectáculos de Lisboa, aproveitando o resto da folga concedida pelo Real Madrid. [...] Quanto a Rihanna também não desiludiu na hora de fazer pose e fez-se fotografar ao lado do internacional com a famosa duck face (forma dos lábios)» («Rihanna recebe Ronaldo nos bastidores do concerto em Lisboa», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 30.05.2013, p. 53).
      Empregue, diga-se lá o que se disser, não é particípio passado, mas apenas presente do conjuntivo. E o objectivo de nos fazer falar e escrever em inglês prossegue. Duck face é intraduzível, não querem ver?

[Texto 2902]

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