Usar o dicionário

Celebrar a palavra

      «Dada a riquíssima complexidade lexical da sua obra, de há muito que ela, só por si, teria justificado fosse introduzida nos programas de português uma utilização eficaz do dicionário, em que tirar significados constituísse uma obrigação corrente na prática escolar. Isto sem falar na questão do estabelecimento de um cânone mínimo, de que já tive ocasião de falar aqui e que também não pode existir sem a reabilitação do dicionário...» («Celebrar Aquilino», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 15.05.2013, p. 54).
[Texto 2853]

«Informação-exame»?

Está tudo ligado

      Agora lê-se por aí, em todas as escolas e na Internet, «informação-exame de equivalência à frequência» desta e daquela disciplina. É o Despacho Normativo n.º 6/2012 («despacho-normativo», lia-se aqui, escrito por algum maluquinho do hífen): «Ao departamento curricular compete propor ao conselho pedagógico a Informação-Exame de equivalência à frequência de cada disciplina no ensino básico ou a Informação-Prova de equivalência à frequência de cada disciplina no ensino secundário, cuja estrutura deve ser análoga à informação-prova final ou à informação-exame elaborada pelo GAVE para as provas finais de ciclo e para os exames finais nacionais, respetivamente, da qual devem constar os seguintes aspetos: objeto de avaliação, características e estrutura, critérios gerais de classificação, material e duração».
      A dúvida é sobre aquele hífen a ligar «informação» e «exame». Faz algum sentido estar ali?

[Texto 2852]

Tradução: «prosecutor»

Peter Zinner é...

      «“Este não foi um roubo de sorte. Existem fortes indícios de que Jamie Filan sabia que o senhor Mourinho e a sua família estavam hospedados no quarto e que estes foram o seu alvo por saber que faria uma ‘bela colheita’”, declarou o promotor de justiça, Peter Zinner, no tribunal de Southwark Crown, revelando que o treinador ficou extremamente “angustiado” com o sucedido» («Assaltante de Mourinho leva 31 meses de prisão», Marlene Rendeiro, Diário de Notícias, 15.05.2013, p. 53).
      Peter Zinner é prosecutor ou, como se lê em alguns sítios, «London Crown Advocate». Isto traduz-se por «promotor de justiça»? Não será antes «procurador da Coroa» ou «advogado da Coroa»?
[Texto 2851]

Como se escreve nos jornais

Nem um duende

      «Pedro Lourenço escondera-se no meio das ervas. A movimentação de um arbusto fez desconfiar os guardas, que, usando as pistolas Uzi 9 mm, alvejaram o recluso foragido numa perna» («Guardas travam a tiro fuga de dois reclusos algemados», Luís Fontes e Rute Coelho, Diário de Notícias, 15.05.2013, p. 22).
      Há quem não saiba distinguir um arbusto de uma árvore, nem um camelo de um dromedário, mas confundir ervas com arbustos há-de ser mais raro.
[Texto 2850]

Léxico: «gicleur»

Anglicizado

      «“Aos 16 anos, a meias com o meu irmão, comprámos uma motorizada a cair de madura. O meu irmão desistiu logo porque aquilo dava muitas dores de cabeça. Eu andava com um alicate no bolso de trás dos calções porque como havia pouco dinheiro para a gasolina o gigler do carburador passava a vida a entupir. Sacava do alicate[,] desapertava o gigler, chupava, voltava a pôr e siga”, recorda [Pedro Branco]» («“Ainda estou aí para as curvas”», Maria Assunção Oliveira, Jornal Sénior, 9.05.2013, p. 22).
      Talvez a jornalista ouça mal, ou então não sabe que há uns livros em que se encontram, por ordem alfabética, palavras de uma língua. Parece, assim deturpado, inglês, mas é francês: gicleur, que é, lê-se no Dicionário Francês-Português da Porto Editora, o «pulverizador do carburador; injector». Se, juntamente com o injector e outras peças, faz parte, pelo que vi, do carburador, não devia usar-se ali a palavra «injector». Os Brasileiros, práticos e com aquela relação leve com a língua, aportuguesaram para «giclê». Cá, só com autorização do papa ou referendo nacional. Talvez doseador, pulverizador ou calibrador fossem formas acertadas de nos referirmos a esta peça.
      «Ali, naquela aquática vastidão deserta, sem remos, sem vela, sem probabilidades de auxílio externo, o maquinista desmontou o carburador, soprou no “gicleur” sobre a água do mar (e se ele lhe caía das mãos?) e, tornando a montar as peças, pôs a manivela em movimento» (Uma Jornada Científica na Guiné Portuguesa, António Augusto Mendes Corrêa. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1947, p. 57).

[Texto 2849]

Léxico: «biomarcador»

Marcador biológico

      «Uma equipa internacional que integra o português Pedro Castelo-Branco descobriu um novo biomarcador, testado com sucesso em tumores cerebrais pediátricos, seguindo-se os estudos com outros tipos de cancro» («Português descobre novo biomarcador para o cancro», Diário de Notícias, 9.05.2013, p. 27).
      Este já está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «substância que pode ser medida e indica a ocorrência de processos biológicos (normais ou patológicos) ou respostas farmacológicas a intervenções terapêuticas».
[Texto 2848]

Sobre «aparatoso»

Como se fosse um espectáculo

      «Depois da sua queda aparatosa durante um comício na terça-feira, Imran Khan foi aconselhado a ficar acamado. Ferido na cabeça, o antigo campeão de críquete transformado em estrela em ascensão da política paquistanesa está a ser alvo de uma vaga de simpatia que, a três dias das eleições, lhe podem valer votos nas urnas» («Queda deixa Imran Khan fora da campanha mas pode render votos», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 9.05.2013, p. 25).
[Texto 2847]

«Perdiz-vermelha»

Ou sim ou sopas

      «Em causa está o facto de estar a decorrer a época de nidificação da perdiz vermelha, uma espécie endémica da Península Ibérica e que tem, “naquela zona do Parque Florestal de Monsanto, nesta altura do ano, um ‘oásis’ para a sua reprodução”. “Quantos países não quereriam ter uma espécie endémica?”, questiona João Pinto Soares, acusando a autarquia de ter “duas caras” relativamente a questões ambientais» («“Câmara está a tentar justificar o injustificável”», Inês Banha, Diário de Notícias, 9.05.2013, p. 20).
      A jornalista trabalha num jornal que adoptou o Acordo Ortográfico de 1990, e por isso tem obrigação de saber que nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas se emprega o hífen. Logo, perdiz-vermelha.
[Texto 2846]

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