Como se escreve nos jornais

Não era necessário

      «Já o juiz presidente tentou, sem sucesso, que Anabela Moreira fizesse um esforço de memória ao listar algumas das célebres prendas enviadas por Manuel Godinho por alturas do Natal apreendidas pela PJ na residência de José Penedos» («MP passou rasteira a ex-secretária de José Penedos», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 12).
      Listar é, mais propriamente, pôr em lista, inscrever, alistar; catalogar. Creio que nenhuma se adequa ao contexto. Não seria melhor «enumerar» ou «mencionar»? E, se escrevem «juiz-conselheiro», não deviam escrever «juiz-presidente»?
[Texto 2374]

Léxico: «grife»

Como tantas outras

      «Miranda Kerr pode deixar de ser um dos ‘anjos’ da Victoria’s Secret. A notícia caiu como uma bomba uma vez que a australiana é uma das manequins preferidas da marca, mas a justificação é simples: foi noticiado que a conhecida grife de lingerie usava produtos tóxicos na sua confeção, segundo o The Daily Telegraph» («Miranda Kerr quer deixar de ser ‘anjo’», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 28.11.2012, p. 53).
      Parece que já é portuguesa... No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o verbete remete para «griffe». A acepção é a primeira: «empresa produtora e/ou distribuidora de artigos de vestuário e acessórios de luxo».
[Texto 2373]

Sobre «operacional»

Então está errado

      «Em junho de 2011, Nuno Pereira, inspetor-chefe da Polícia Judiciária (PJ) na reforma, matou a empregada que fazia a limpeza em sua casa com um tiro na cabeça, alegadamente por motivos passionais. O crime ocorreu no escritório da sua casa e pensa-se que foi motivado pela recusa da vítima, uma ucraniana de 45 anos, em iniciar um relação amorosa com o ex-operacional» («Homicídio passional», Diário de Notícias, 28.11.2012, p. 18).
      Mas «operacional» não se aplica apenas a militares? É o que se pode comprovar nos dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só está registado como adjectivo. Se, em vez da Polícia Judiciária, se tratasse da GNR, que é uma força de segurança de natureza militar, talvez se adequasse.

[Texto 2372]

Pronúncia de «cônjuge»

Impressionante!

      E no mesmo Jornal das 8 da TVI, a jornalista Judite de Sousa contribuiu activamente para divulgar entre as massas uma calinada das grandes: «Uma marcha que acontece no dia em que as Mulheres Socialistas apelaram à mudança da lei que permite ao assassino de um cônjugue ser herdeiro da vítima e ter direito a pensão de sobrevivência.» Tão experiente, e sai-nos com uma destas. Saiba a jornalista que essa palavra não existe. Existe «cônjuge», que só tem uma forma de ser pronunciada: /côn–ju–je/. Um conselho: consulte o Prontuário Sonoro da RTP.
      Aproveitemos também para lembrar que «cônjuge» é um substantivo sobrecomum, isto é, tem um género determinado e invariável, masculino, neste caso, para designar as pessoas de um ou outro sexo: seja homem ou mulher, diz-se sempre «o cônjuge».
[Texto 2371]

«Terá abrido fogo»

Mas estava assustado

      Tiroteio em São Miguel d’Acha. Anteontem, no Jornal das 8 da TVI, o alferes da GNR Tiago Delgado, ainda com ar assustado, afirmou: «Um dos indivíduos que tinha fugido terá regressado numa moto. Os militares, ao avistarem a moto, estranharam porque o indivíduo até estaria sem capacete. Ao tentarem abordá-lo, o indivíduo imediatamente sacou de uma caçadeira e terá abrido fogo sobre os militares.» É o particípio passado regular do verbo «abrir» — mas caiu em desuso. O alferes Delgado, com vinte e tal anos, devia saber isto.
[Texto 2370]

Conjunção subordinativa causal

Pois

      «A conjunção pois não tem sido classificada como conjunção [subordinativa] causal», escreveu o consultor do Ciberdúvidas numa consulta datada de 6 de Março deste ano. Tem a certeza? Veja lá, é que eu tenho a certeza do contrário — e provo-o já: Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo. Lisboa: Edições Sá da Costa, 1984, pp. 381-82) integram-na entre as conjunções subordinativas causais, o que abonam com uma frase de Érico Veríssimo de Um Lugar ao Sol: «Tio Couto estava sombrio, pois aparecera um investigador da polícia perguntando por Gervásio.» Lá está a iniciar oração subordinada denotadora de causa.
[Texto 2369]

Ortografia: «alto-mar»

Como neste caso

      «A EDP, que tem a única eólica de alto mar em operação em Portugal, quer instalar mais cinco novas torres de produção de energia, desta vez no mar perto da Nazaré. “Com grande probabilidade será desenvolvido na zona-piloto [de energia das ondas] em São Pedro de Moel”, referiu ao DN/Dinheiro Vivo fonte da empresa» («EDP quer cinco eólicas de alto mar perto da Nazaré», Ana Baptista, Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 30).
[Texto 2368]

Ortografia: «borboleta-do-mar»

Espécime dos pterópodes

      «O animal em causa, Limacina helicina antarctica, é uma espécie de caracol marinho, conhecido popularmente como borboleta dos mares. Num artigo publicado na revista Nature Geoscience, uma equipa de investigadores da British Antartic Survey, coordenada por Nina Bednarsek, confirmou que esta espécie já revela enfraquecimento ou mesmo dissolução de duas estruturas laterais duras, que caracterizam esta espécie» («Borboleta dos mares afetada por maior acidez do oceano austral», Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 30).
      E os hífenes? E não apenas isso: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora grafa-o assim: borboleta-do-mar.
      (O apelido da investigadora na verdade é Bednaršek, mas isso talvez não tenha qualquer importância.)

[Texto 2367]

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