«Promenades» na Madeira

Não resistem

      «Fonte ligada ao processo explicou à agência Lusa que a perseguição começou com a denúncia, na esquadra de Machico, de que um condutor “estaria a subir e a descer escadas na promenade” local» («Condutor em fuga destrói carros da PSP», Diário de Notícias, 9.08.2012, p. 16).
      Não sabia que na Madeira também havia promenades... Claro que o jornalistas não podia perder uma oportunidade de usar uma palavra estrangeira — sobretudo se desnecessária.
[Texto 1952]

Sobre «mandatório»

É indispensável?

      «É o procedimento mandatório, assegura o psiquiatra Daniel Sampaio» («Menino violado deve ter apoio por seis meses», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 9.08.2012, p. 16).
      Tem de ter sempre um pezinho no inglês. Qual a necessidade de usar a palavra «mandatório» quando temos outras que dizem o mesmo, mas em bom português? Uma aposta em como a mãe da criança não vai compreender quando ler a notícia? Não passava o exame Vieira — que devia ser mandatório obrigatório fazer em voz alta.
[Texto 1951]

Plural: «papos-secos»

É o que se ouve

      Em parte, temos de o admitir, a jornalista tem razão: o que ouvimos é «papo-secos». Mas é assim que se fala, a mascar e a engolir fonemas. No caso, o encontro de dois ss de sílabas diferentes tinha de dar nisto.
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora garante que «papo-seco» é popular. Amílcar Ferreira de Castro, em A Gíria dos Estudantes de Coimbra, afirma que «em Lisboa costuma chamar-se aos pães pequenos “papos-secos”. Esta designação é dada também aos janotas, pelo que pãozinho veio provàvelmente a ter o mesmo sentido» (p. 91). Até agora, quase só ouvi a palavra no Alentejo e muito pouco em Lisboa.
      «O Pedro continuava, mais mais, agora os poemas do novo livro, já em provas, poemas que estalavam, novinhos em folha, moletes, papos-secos, pães a quebrar a crosta, vivinhos da costa, polidos na teta da origem» (O Mundo à Minha Procura, vol. 3, Rúben A. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1968, p. 14).

[Texto 1950]

«Catequese» e «catequizar»

Saibam de cor

      Em parte, temos de o admitir, a jornalista tem razão: catequizar, a par de sintetizar e de sifilizar, é uma excepção, pois -izar só se usa nos verbos derivados de vocábulos sem s. Domício Proença Filho pergunta, com muita graça, se, no caso de «catequese» e «catequizar», estamos perante divergências de família. Não, responde, apenas tem que ver com caprichos da origem, grega, das palavras. Os Gregos só nos arranjam problemas. Ainda hoje.
[Texto 1949]

Sobre o cânone literário

Vamos ver se entendem

      «Nunca será demais insistir em que os estudantes, se tiverem um bom domínio da língua portuguesa, ficam preparados para ler tudo o mais: bulas de medicamentos, manuais de instruções, relatórios técnicos, notícias de jornais... Ao invés, se a sua preparação for circunscrita a este tipo de textos, nunca eles conseguirão ler capazmente um grande escritor. E se não forem capazes de ler capazmente um grande escritor, acabarão por não ser capazes de mais nada» («Sobre o cânone literário», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 8.08.2012, p. 54).
[Texto 1948]

Ortografia: «bloco-notas»

Procura-se

      «Leonor, de seis anos, e Jenifer, de nove, são clientes habituais do escorrega, dos baloiços e da estrutura de escalada do pequeno parque infantil do Jardim Constantino. E mal veem o bloco notas correm a contar a história-do-menino-que-foi-metido-por-um-homem-na-casa-de-banho, entre sorrisos e o inevitável “vamos aparecer?”» («Menino violado ainda sem apoio psicológico», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 8.08.2012, p. 12).
      Com tantos hífenes mais à frente, esqueceu-se de usar um onde devia: bloco-notas. O que é curioso é que a palavra, que eu conheço desde sempre, não está registada nos dicionários. Nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa o registam. Em nenhum, enfim.
      «Escreve muito rapidamente, com o pequeno bloco-notas apoiado na mão que tem o chapéu. Entre cada frase, olha a actriz que responde, e o olha, e responde, e o olha. As perguntas são breves, e sorriem, as respostas são breves, e riem» (A Guerra da Meseta, Artur Portela. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 80).
[Texto 1947]

Última página do «Público»

Antológica, sem dúvida

      Já ao fim da noite, avisaram-me que a última página da edição de hoje do Público é antológica. Não me enganaram, posso comprová-lo agora. Assim, temos: título ao canto superior esquerdo: «Deputada britânica escolhe a família ao lugar de deputada». Eles sabem que há um verbo qualquer com esta regência — por azar, não é este. No canto superior direito, para estabelecer o equilíbrio possível: «Euromilhões» — e é o número (50289) e o valor do prémio (600 000 euros) da Lotaria Clássica. Mas isto era pouco, pelo menos para os nossos padrões, e por isso no lead da notícia principal («Chineses exigem 2,4 mil milhões de indemnização devido à falência da Saab») podemos ler: «A General Motors está em tribunal porque autorizou a venda. O mercado chinês é aposta forte da GM, que temia a concorrência da GM». No corpo da notícia, lemos também que «a empresa holandesa Spyker colocou ontem uma acção nos tribunais». E mais: «Perante a impossibilidade de a Spyker poder construir automóveis...» Ficamos ainda a conhecer, na rubrica «Sobe e desce», «uma das bandeiras de Rui Rio — a guerra aos graffitis».
[Texto 1946]

Sobre «assistente»

Não vos arreceeis

      ... Não digo que não, mas «assistente» também é substantivo e uma das acepções é docente adjunto do professor catedrático, encarregado das aulas práticas ou teórico-práticas. Não precisamos obrigatoriamente de dizer «professor assistente»: o contexto esclarecerá o leitor. Ou receiam que se confunda com assistente de bordo, assistente social, médico assistente?... Também há revisores da CP e da Carris... (E ultimamente, dizem, que eu nunca vi, corretores na Bolsa e nas editoras.)
[Texto 1945]

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