Iniciativa legislativa de cidadãos

Contra o Acordo Ortográfico

      ... Quer dizer então que, se eu quiser subscrever a iniciativa legislativa de cidadãos contra o Acordo Ortográfico, tenho de ir a Carcavelos, porque é o mais perto da minha casa? (Não me ficava bem ir ao Restaurante Pinto’s, no Estoril...) Em Lisboa, não têm partidários... Ninguém se oferece? Um bar, uma barbearia, uma lavandaria, uma livraria... Perdem muito com isso, devem saber.
[Texto 1928]

Tradução: «leash»

Se não se ofender

      «Um kit de iniciação (prancha, pagaia, leash e fato) com material com uma qualidade aceitável ronda os 1200 euros, com a prancha a ser o mais dispendioso (cerca de 800 euros)» («Pegar na pagaia e... surfar», Elisabete Silva, Diário de Notícias, 5.08.2012, p. 47).
      Podemos chamar-lhe simplesmente cordão, ou a rainha Isabel II vai ofender-se? Não será crime of lese-majesty?
[Texto 1927]

«Filosofia Germânica»

Podia haver

      Lili Caneças vem hoje confessar no Diário de Notícias que aos 4 meses de idade já apanhava banhos de sol na praia. O texto foi escrito pela jornalista Filomena Araújo e é baseado nas declarações de Lili Caneças, de quem, numa coluna, está o perfil: «Frequentou durante três anos o curso de Filosofia Germânica da Faculdade de Letras de Lisboa e foi hospedeira da TAP, que deixou depois de se casar» (p. 48).
[Texto 1926]

Itens e lideranças

Preguiça

      «Outro dos exemplos é a Fundação Francisco Manuel dos Santos, liderada por António Barreto, que tem por objeto, entre outros itens, a elaboração de estudos em diversas áreas e criou a Pordata, um banco de dados estatísticos. A fundação mantinha ainda no ano passado uma parceria com a RTP, um projeto que resultou no programa Nós portugueses. O Governo atribui-lhe uma pontuação de 64,6, mas esta não recebeu verbas do Estado e funciona com 14 colaboradores» («Fundação sem utilidade pública recebeu 3 mil euros», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 5.08.2012, p. 11).
      Da «liderança» já não nos livramos tão depressa. O «entre outros itens», que em rigor não significa nada, só pode ser resultado da preguiça da jornalista.
[Texto 1925]

«Haveria de dar nisto»

Guardemo-la

      «Aquela coisa de nome que seria irónico se não fosse ignóbil, reality TV, TV-realidade, isto é, vida falsa apresentada como verdadeira, haveria de dar nisto: mostre-se o que dá mais jeito, apague-se o que incomoda» («Não dá jeito? Apague-se a notícia», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 4.08.2012, p. 48).
      Guardemos esta para Montexto comentar, porque ele vai com certeza gostar.
[Texto 1924]

«Luso-descendente/lusodescendente»

Não acertam o passo

      «A mulher de Carlos Américo Valente Martínez, um comerciante luso-descendente sequestrado há 18 dias na cidade de Maracaibo, Estado de Zúlia (750 quilómetros a oeste de Caracas), apelou na quinta-feira aos raptores para libertarem o marido, em conferência de imprensa. [...] Esta mulher precisou que não tem qualquer notícia do luso-descendente desde que foi sequestrado, que a família está preocupada com o seu estado de saúde, “porque [aquele] sofre de hipertensão há sete anos, tem de tomar todos os dias medicamentos e tinha uma operação agendada para 25 de julho”. A mãe do comerciante luso-descendente, Marina de Valente, enviou uma mensagem ao filho, pedindo-lhe para “não perder a calma, estar tranquilo e confiar muito em Deus”. [...] O luso-descendente, cujo paradeiro continua a ser desconhecido, foi sequestrado a 17 de julho na cidade de Maracaibo por quatro homens armados quando, depois de parar o carro, caminhava a pé para um ginásio, situado a escassos metros da sua padaria» («Luso-descendente está sequestrado há 18 dias», Diário de Notícias, 4.08.2012, p. 19).
      Antes, escreviam «lusodescendente», e estava incorrecto. Condenei várias vezes essa forma de grafar a palavra. Agora que adoptaram as novas regras ortográficas, passaram a escrever «luso-descendente»? Agora também está incorrecto. Estou para ver quando vão acertar o passo.
[Texto 1923]

«Ponto final, parágrafo»

Agora me lembro

      «Chegaram polícias, uns de farda, outros à paisana, e com eles uma ambulância. Os polícias inquiriram de quem vira e não vira os bandidos, e se sabiam dizer quantos tinham sido, se eram pretos, pretos retintos, mulatos ou brancos amulatados, e como trajavam eles e em que direcção tinham fugido depois de terem feito aquele lindo serviço. Ninguém soube dizer nada de concreto nem de aproveitável à Polícia. Ponto final, parágrafo» (As Coisas da Alma, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2003, p. 161).
      Agora mesmo vi outra variante: «ponto final, com parágrafo». Mas, em Novembro do ano passado, um leitor escrevia-me: «Meu caro Helder: “Ponto final parágrafo” não será uma contradição de termos? “Ponto parágrafo” faz mais sentido, não acha?»
[Texto 1922]

«Cara chapada»

Ora bem

      «— A cara chapada! É incrível! Inacreditável! Ele é a cara chapada...
O que dizem é “spitting image”, “imagem cuspida”» (Nem Pato, nem Cisne, Ana Saldanha. Lisboa: Editorial Caminho, 2008, 2.ª ed., p. 78).
      Mas não se diz também «escarrada e cuspida»? Bem, mas este é só o ponto de partida, o intróito. O que eu queria era um sinónimo elegante para «cara chapada». O «rosto, sem tirar nem pôr, de ***»? Que acham? Sugestões, aceitam-se.
[Texto 1921]

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