Tradução: «courtier»

Por aí

      Andava de terra em terra, nas tabernas, nas estalagens, nas quintas, a vender debulhadoras. Era, lê-se no original, courtier. «Mediador», verteu o tradutor. (E já antes, para outra personagem com a mesma profissão, traduzira por «corretor».) Intermediário não seria mais adequado? Ou mesmo, ocorre-me agora, angariador. (Quanto a «corretor». Edite Estrela, na obra Dúvidas do Falar Português, escreveu: «Das várias hipóteses surgidas, a mais credível parece-me a que remete para o latim curatorem, com influência do francês courtier.»)
[Texto 940]

Sobre «bazófia»

Être bouché à l’émeri

      A moçoila tinha vindo de um «bourgade cupide et bouchée à l’émeri». «Ganancioso e pitosga», verteu o tradutor... Mas não era sobre nada disto que eu queria escrever. No verbete «bazófia» (e não corrigi eu aqui, recentemente, alguém que escrevera «basófia»?), Rebelo Gonçalves, na página 156 do monumental Vocabulário da Língua Portuguesa, anota: «Em Camilo, Bruxa do Monte Córdova, cap. IV (p. 30 da 4.ª ed.), basofeia (com s em vez de z), 3.ª pess. sing.». Num vocabulário, estranhei. Desviando-me um pouco: «bazófia» vem mesmo do italiano bazzoffia, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, ou terá vindo antes do castelhano?
[Texto 939]

Léxico: «bariátrico»

Muito poucos

      «A velocidade com que ingerimos os alimentos tem influência no peso corporal e comer devagar tem resultados equiparáveis aos de uma cirurgia bariátrica, revela um estudo realizado por uma investigadora portuguesa [Júlia Galhardo] que ganhou um prémio internacional» («Investigadora portuguesa provou que comer devagar emagrece», Público, 2.01.2012, p. 32).
      São poucos os dicionários que registam o adjectivo bariátrico (relativo a bariatria e a bariatra), assim como o substantivo bariatria, que é o ramo da medicina que estuda as causas e as consequências da obesidade e o seu tratamento.
[Texto 899]

Infinitivo

A lição dos mestres

      Aprendamos com os mestres: «As perdizes erguiam estrepitosos voos quando os atiradores faziam equilíbrios acrobáticos para se manter no cume dos fraguedos» («Perdão” in Contos e Novelas, vol. 1, João de Araújo Correia. Lisboa: INCM, 2007).
      A falta de tempo não explica tudo:

1. «No entanto, recusarmos em absoluto deixarmo-nos maravilhar pode ser, no fundo, apenas outro tipo de tolice» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 17);

2. «Nesse caso, como é estranho e aterrador o facto de levarmos para o céu a nossa fruta e os nossos vegetais, quando costumávamos sentarmo-nos mais humildemente aos pés da natureza, fazendo festivais em prol das colheitas e sacrificando animais, para garantirmos a contínua fecundidade da terra» (idem, ibidem, p. 93);

3. «Por outro lado, enquanto nos esforçamos por nos mantermos civilizados sob as implacáveis luzes fluorescentes, poderemos lembrar-nos de uma das razões que nos levaram a viajar: garantirmos que estaremos mais bem equipados para resistir aos estados de espírito mundanos e zangados em que o quotidiano tantas vezes nos enreda» (idem, ibidem, p. 131).
[Texto 898]

«Com certeza»

Sem certezas

      «É concerteza um exemplar de estimação, está assinado pelo próprio António Sérgio» (Jornada de África, Manuel Alegre. Lisboa: Visão/Dom Quixote, 2003, p. 49).
      É, sem sombra de dúvida, tal como de certeza, uma locução e não uma só palavra: com certeza. Só causa algum espanto que o erro passe pelo crivo de uma edição. Ora, Manuel Alegre nasceu em 1936, e a ortografia em que a obra foi escrita é de 1945, quando já se escrevia «com certeza». É assim que se lê na página 239 do Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves. Também causa espanto que o gramático Celso Cunha tenha escrito isto: «Com certeza [=provavelmente] ele virá.» Com certeza não significa, como leio num Boletim da Sociedade de Língua Portuguesa datado de 1965, «certamente, efectivamente, na verdade, coisa certa, convicta»?
[Texto 897]

«Engsoc»

Se não for crimideia

      «Tudo isto é perigoso para a democracia porque esconde uma realidade básica: o economês-tecnocratês é um politiquês, uma linguagem abastardada da má política. Mistura eufemismos, duplicidades, dolo, “engsoc” no sentido orwelliano e faz circular a pior das ilusões: a de que as soluções para os problemas nacionais e europeus dependem da actuação de técnicos e sábios, desempecilhados da “tralha” da política» («Palavras de 2011», José Pacheco Pereira, Público, 31.12.2011, p. 32).
      Há um engsoc que não seja no sentido orwelliano? Que o diga o Ministério da Verdade.
[Texto 896]

«Por forma a»

Não nos lêem

      «A Confraria do Príapo quer certificar o principal símbolo da loiça erótica caldense – o falo em cerâmica ou “garrafa das Caldas” – por forma a valorizar um produto que tem um grande potencial comercial. Edgar Ximenes, presidente da confraria, diz que vai precisar do apoio da autarquia, porque a certificação é um processo caro» («Caldas da Rainha pretende certificar a garrafa-falo», Carlos Cipriano, Público, 31.12.2011, p. 24).
      Confraria do Príapo! Garrafa-falo! E lá está a forma espúria por forma a, em vez de de modo que.

[Texto 895]

«Anestesista/anestesiologista»

Mais fácil

      «Desalentado com a experiência em Portugal, João Marques Vinagre, que completou o curso na Hungria e voltou para Viana do Castelo (onde está a fazer a especialidade de medicina geral e familiar), já pensa abalar de novo porque o que quer mesmo ser é anestesiologista» («Já há muitos estudantes de Medicina no estrangeiro que pensam não regressar», Alexandra Campos, Público, 29.12.2011, p. 10).
      Anestesista é mais fácil de pronunciar e significa o mesmo. Ou não? Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, anestesista é o médico que aplica anestesia, o especialista em anestesia, e anestesiologista é a pessoa especializada em anestesiologia.
[Texto 894]

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