«Reunir-se»

Conjugado reflexamente

      «Na próxima segunda-feira, a comissão de trabalhadores da FCV vai reunir, pelas 18h, com o vice-presidente da Câmara de Gaia, Firmino Pereira, que, em conjunto com o presidente da autarquia, Luís Filipe Menezes, já recebeu o conselho de administração da empresa, há cerca de quinze dias» («Cerâmica Valadares precisa de um milhão de euros mas não encontra crédito», Aníbal Rodrigues, Público, 31.12.2011, p. 16).
      De vez em quando, é conveniente voltarmos a tratar destes erros, não aconteça pensar-se que estão ultrapassados. Reunir é verbo transitivo, pelo que pede complemento directo. Onde está ele na frase acima?
[Texto 893]

Ortografia: «painho»

Câmara de maravilhas

      «Era um senhor alentejano que vinha trazer pão ao cozinheiro do restaurante onde eu ia almoçar. Este incitou-me a segui-lo até à carrinha, por “estar cheia de coisas boas”. Assim fiz e lá descobri um único balde cheio de azeitonas novas, pão, paios, paínhos e queijinhos de ovelha. Era um wunderkammer de entradinhas» («Olá e adeus», Miguel Esteves Cardoso, Público, 29.12.2011, p. 29).
      A palavra não é acentuada — como não são acentuadas as palavras «buinho», «cainho», «moinho», «rainho», por exemplo. Nestas e noutras, a semivogal i vem seguida do dígrafo nh da sílaba seguinte, que a anasala, levando-a a formar por si só uma sílaba: pa-i-nho.
[Texto 892]

Sobre «colmatar»

Outros riscos

      «O risco de escrever sobre este assunto, com um título destes, é sempre o risco de moralizar em excesso, de opinar em causa própria e de ficcionar um diálogo grandíloquo com um ausente. Vou procurar colmatá-los evitando um tom plástico e circunscrevendo a minha defesa» («Carta a um ex-leitor de jornais», Pedro Lomba, Público, 29.12.2011, p. 32).
      «Colmatar riscos». Chegará a extensão semântica a tanto? Não me parece.
[Texto 891]

Sobre «convocar»

Chamado a depor

      «Além de Iñaki Urdangarin, o juiz José Castro, titular do processo, imputou a prática dos crimes ao seu sócio Diego Torres e outros dirigentes do Instituto Nóos, chamados a testemunhar já no dia 5 de Janeiro. O ex-director-geral de Desportos do Governo das Ilhas Baleares, o ex-director da Fundação Illesport e o responsável pelo Instituto Balear de Turismo também foram convocados («Iñaki Urdangarin chamado a depor em tribunal», Rita Siza, Público, 30.12.2011, p. 30).
      Convocar é também solicitar a presença de alguém, geralmente de forma imperativa, mas não é o verbo habitualmente usado para exprimir a ordem com intimativa emitida por um tribunal. O monarca, antigamente, convocava as cortes. Convocava a palácio (como se dizia então) governadores e outros representantes da Coroa, etc.
[Texto 890]

O «Público» errou

Erro num caso, gralha no outro

      «Por uma necessidade de simplificação de linguagem na manchete da edição de ontem dizia-se que “Quem pedir isenção das taxas da Saúde vai ter de revelar dados fiscais”. De facto, trata-se não de “revelar”, mas de autorizar o acesso a esses dados. Face à eventual confusão que o título possa ter gerado nos leitores, aqui fica a explicação» («O Público errou», Público, 30.12.2011, p. 40). 
      Sim, é um pouco diferente... Imagino as reclamações que receberam dos leitores. E hoje, no «Sobe e desce», sobre a ministra da Justiça: «Ao enterrar os famosos Campus de Justiça, o Estado irá gastar menos 15 milhões de euros por ano em rendas».
[Texto 889]

Como falam os médicos

Eusébio fez levante!

      O Dr. José Roquette, director clínico do Hospital da Luz, veio, mais uma vez, falar do estado de saúde de Eusébio: «Passou muito bem a noite. Ahn... Fez... As análises estão muito... estão melhores. Do ponto de vista radiológico e clínico também. Ahn... Fez levante, sentou... está sentado num cadeirão.»

[Texto 888]

«Handcycle»

Vamos arranjar-lhe nome português?

      «O ex-piloto italiano compete em handcycle (bicicleta adaptada para a propulsão manual). Em 2011 conseguiu vários resultados assinaláveis, com destaque para a vitória na Maratona de Nova Iorque e o segundo lugar no contra-relógio nos Campeonatos do Mundo de estrada. “Foi uma temporada muito boa. Consegui ganhar várias maratonas, em Roma, em Milão, em Veneza. Mas a Maratona de Nova Iorque foi a que me deu mais satisfação”, apontou» («Dez anos depois de perder as duas pernas num acidente Alessandro Zanardi quer uma medalha em Londres», Tiago Pimentel, Público, 26.12.2011, p. 27).

[Texto 887]

Léxico: «canhangulo»

Espécie de trabuco

      «Traziam amuletos para que as balas dos brancos não lhes fizessem mal, atacavam com canhangulos e catanas, trepavam pelos muros e caíam ao pé do portão» (Jornada de África, Manuel Alegre. Lisboa: Visão/Dom Quixote, 2003, p. 29).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos que é o nome que, em Angola e Moçambique, tinha a espigarda antiga de carregar pela boca. Seria? «Os canhangulos eram armas feitas com canos rudimentares, onde os guerrilheiros colocam pólvora e pregos, bocados de ferro, etc. Através de uma cabeça de fósforo colocada num orifício, perto da pólvora, o gatilho, feito de madeira, agarrado ao fuste, fazia disparar a arma, a mais perigosa que “eles” tinham» (A Vida É Um Ensaio, Adriano Correia de Pinho. São Paulo: Biblioteca 24 Horas, 2010, p. 67).
[Texto 886]

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