Como se escreve nos jornais

Pode parecer despropositado

      «A pergunta pode parecer despropositada, mas vem-me em boa hora. Permite-me, por exemplo, escrever uma crónica em que tenho matutado com certa frequência; uma crónica que recorde José Rodrigues Miguéis, o escritor português falecido em Nova Iorque, em 1980, com o qual a eternidade não tem sido benévola» («José Rodrigues Miguéis», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 20.12.2011, p. 3).
      A eternidade é muito tempo, caro Jorge Marmelo. Não chegava, mais modestamente, a posteridade?

[Texto 861]

Como se escreve nos jornais

Excessos natalícios

      «Sem dúvida que a magia do Natal invadiu a realeza do Mónaco. Para além do magnífico banho, há dias, Alberto II e a mulher Charlene haviam convidado várias crianças para festejarem com eles as festividades natalícias» («Mónaco. Príncipe Alberto II e o banho tradicional de Natal», «P2»/Público, 20.12.2011, p. 15).
[Texto 860]

«Porque», advérbio interrogativo

Sempre teremos a arteirice

      «Em Janeiro, as iranianas foram proibidas de assistir a jogos de futebol ao vivo. Mas não se preocupem, minhas senhoras: o prof. Freitas arranjará uma solução. Porque não desfiles de moda, com véu e tudo? Também por aí passou a diplomacia sino-americana. Na verdade, foi num desfile de moda jugoslava, em Varsóvia, que em 1969, com instruções de Nixon, o embaixador dos EUA abordou o encarregado de negócios chinês. Teríamos, então, o futebol para homens e, para senhoras, desfiles de moda. E por que não, professor, desfiles de moda euro-árabes? Em Paris. Poderia o professor rever amizades pretéritas. We will always have Paris, José» («Teremos sempre Paris, José», Pedro Lomba, Público, 20.12.2011, p. 32).
      Pedro Lomba ainda não se decidiu pela grafia definitiva do advérbio interrogativo. Anda a ensaiar nas crónicas.
[Texto 859]

Sobre «assunção»

É comum

      «A 17 de Dezembro, Lisboa avisa todas as suas missões diplomáticas que está iminente um ataque. “O Governo confia que todos saberão cumprir o seu dever.” Salazar enganava-se na assunção de que a luta seria até à última gota de sangue» («O dia em que a paciência da Índia chegou ao fim», Francisca Gorjão Henriques, Público, 18.12.2011, p. 6).
      Assunção é, nas palavras de Agenor Soares dos Santos, no Guia Prático de Tradução Inglesa (São Paulo: Editora Cultrix, 1983), «candidato a anglicismo nas acepções supor, pressupor, presumir; admitir, aceitar como hipótese, ter por certo ou por assentado». Assunção, para mim, tirando a das dívidas e a de Nossa Senhora, só a Cristas e a Esteves. (E pensar que o AOLP90 repristinou a grafia «assumpção» ainda nos deixa mais intranquilos.)
[Texto 858]

Léxico: «bólido»

É raro

      «A NASA está a desenvolver um arpão para recolher amostras nos cometas. Uma vez que aterrar na superfície destes bólidos é bastante arriscado – chegam a deslocar-se a 240 mil km por hora, cuspindo bocados de gelo, rocha e poeiras –, os cientistas estão a ponderar enviar uma nave espacial ao encontro dos cometas para os alvejar com um arpão» («Arpão apanha-cometas», Ana Gerschenfeld, «P2»/Público, 19.12.2011, p. 3).
      Conhecemo-lo melhor na grafia bólide e com a acepção, por extensão de sentido, de «carro de corrida; automóvel veloz».
[Texto 857]

Ortografia: «além-fronteiras»

Uma solução

      «E o deputado bloquista José Gusmão diz que a mensagem do primeiro-ministro é “o último a sair que apague a luz” e lembra que este conselho de Passos tem “precedentes”: o secretário de Estado da Juventude aconselhou os jovens desempregados a procurarem oportunidades “além fronteiras”» («Passos criticado por aconselhar professores a ensinar nos PALOP», Público, 19.12.2011, p. 11).
      Esperava, esperávamos todos, mais cuidado num jornal que luta — mas acordou demasiado tarde — contra o Acordo Ortográfico de 1990. É além-fronteiras que se escreve, e até está exemplificado no texto do AO45.
[Texto 856]

Como se escreve nos jornais

Ao menos aqui

      «Já sabíamos que o Governo quer castigar os pais pelo mau comportamento ou absentismo dos filhos. Agora, sabemos que tem o apoio dos directores escolares e que está pronto para avançar com a mudança, de modo a que entre em vigor no próximo ano lectivo» («Os 1,8% de alunos mal comportados», Público, 19.12.2011, p. 30).
      Nem por ser o editorial têm mais cuidado. «De modo a que» é expressão completamente espúria. «Mal comportados» é grafia incorrecta. É malcomportados que se escreve. (E porque é que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista este adjectivo?)
[Texto 855]

Como se escreve nos jornais

Pois, pois

      «Manuel Carvalho da Silva, Octávio Teixeira, Ana Benavente e Boaventura Sousa Santos são alguns dos 44 membros eleitos pela Convenção da Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública para constituírem uma comissão encarregue de colocar em prática esta análise às contas públicas» («Auditoria à dívida elege comissão de 44 membros», Público, 19.12.2011, p. 13).
      «Convenção da Iniciativa», «comissão encarregue», «colocar em prática» — mas quem é que escreve estas coisas?
[Texto 854]

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