Como se escreve nos jornais

Em japonês

      «É também o caso de Neymar, que anda de táxi de um lado para o outro sem que alguém lhe importune por uma fotografia ou um autógrafo» («Tóquio. Uma versão divertida do Lost in Translation», Rui Miguel Tovar, i, 17.12.2011, p. 61).
[Texto 847]

Como vai o ensino

A escola moderna

      Acabou há minutos o programa Em Nome do Ouvinte, na Antena 1, que teve como convidada a linguista Regina Rocha. A propósito de dúvidas, a linguista disse que ainda há pouco um colega, professor de Direito no ensino secundário, lhe tinha perguntado se se dizia /prolicho/ ou /prolicso/.
[Texto 846]

«Auditório/audiência/público»

Conjunto de ouvintes

      «Já não estamos na ilha de Santo Domingo de la Hispaniola, já não haverá colonos no auditório, mas frei Antón de Montesinos voltará a subir ao púlpito e a criticar os espanhóis pelas crueldades que infligem aos índios. No próximo dia 21, às 21h30, Luís Miguel Cintra será frei Montesinos. E repetirá, na Igreja do Convento de S. Domingos, em Lisboa, o sermão que aquele frade dominicano pregou, faz nesse dia precisamente 500 anos, condenando com veemência a forma como os espanhóis tratavam os índios na ilha de La Hispaniola» («Frei Montesinos vai voltar a pregar contra a exploração dos índios», António Marujo, «P2»/Público, 17.12.2011, p. 10).
      Muito bem, auditório, conjunto de ouvintes. Nos últimos anos, na imprensa e mesmo nos livros, tem-se vindo a impor o anglicismo semântico «audiência». Que, já li, há quem defenda ter não sei que matiz que o torna insubstituível com o significado de «conjunto de pessoas que, num dado momento, assistem a um programa de televisão ou ouvem uma emissão radiofónica». Em Espanha, por exemplo, só entrou na 20.ª edição do DRAE em 1984. Claro que, mesmo sem influxo estrangeiro, os vocábulos passam a significar algo diferente. Parlamento, por exemplo, que antes só significava «discurso» numa assembleia, hoje também significa a própria assembleia.
[Texto 845]

«E o de marechal tem de ser pequeno»

Com sessões e cartazes

      «Vejamos então o que se passa no 1.º ciclo. O Francisco tem nove anos e está no 4.º ano de uma escola pública de Lisboa. Já estão a escrever segundo o acordo ortográfico? Diz que sim, e descreve uma sessão em que lhes foi apresentado um powerpoint com várias imagens mostrando as alterações que o acordo introduz. Se ele sabe algum exemplo? Sabe um dos que lê todos os dias nos cartazes que a professora colou nas paredes da sala: “Em Avenida Marechal Gomes da Costa, o ‘a’ de Avenida pode ser grande ou pequeno, e o de marechal tem de ser pequeno”, explica» («Este ano ainda será lectivo ou já será letivo?», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 17.12.2011, p. 8).
      Dito assim, até parece que o miúdo estava a troçar da jornalista: «Em Avenida Marechal Gomes da Costa, o ‘a’ de Avenida pode ser grande ou pequeno, e o ‘a’ de marechal tem de ser pequeno.» Claro que a jornalista não tinha obrigação de elucidar o rapazinho, tanto mais que trabalha num jornal que (ainda) não aplica as novas regras. Ainda, sim, porque a prazo essa posição, já o escrevi uma vez e repito, é insustentável. «A professora decidiu entretanto tirar os cartazes da sala por achar que era demasiada informação para ser dada de uma vez só». Muita e, a fazer fé na memória do aluno, alguma errada. Não é como ele diz. Está a amalgamar duas regras, por acaso afins.
[Texto 844]

«Mas não em cor-de-laranja»

Ai, ai

      Ou melhor, quando leio ou ouço falar do Acordo Ortográfico, puxo logo da pistola. «Também Ana Soares [coordenadora do departamento de Português do Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa] diz que as dificuldades que têm surgido resultam de regras cuja lógica nem sempre é perceptível — por exemplo, o hífen, que deixa de existir em cor-de-rosa, mas não em cor-de-laranja. Curiosamente, é o mesmo exemplo que Fátima Gomes utiliza para lamentar que a questão da hifenização “tenha muitas excepções, e depois excepções dentro das excepções.”» («Este ano ainda será lectivo ou já será letivo?», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 17.12.2011, p. 9).
      Santo Deus, mas onde é que esta gente leu semelhante coisa? Há-de ser onde se ouve dizer que «se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’». Pessoas com responsabilidade — no caso, coordenadora do departamento de Português —, em circunstâncias formais, e fazem estas afirmações.
[Texto 843]

«Se disser Egipto escreve com ‘p’»

Estamos bem, estamos

      Quando se fala sobre o Acordo Ortográfico na imprensa, podemos esperar trapalhada. Vai um exemplo: «“Algumas bases são extremamente subjectivas”, diz [Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português (APP)]. “Sobretudo no que diz respeito ao uso do ‘p’ e do ‘c’, em que, em muitos casos, a pessoa pode escrever conforme lhe apetecer. Se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’» («Este ano ainda será lectivo ou já será letivo?», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 17.12.2011, p. 8).
      A sério? «O topónimo ‘Egipto’ não se encontra registado na MorDebe.» É isto que Edviges Ferreira, «que tem feito várias acções de formação sobre o AO», ensina?
[Texto 842]

«Levar a cabo»

Somos todos espanhóis

      Um castelhanismo já bem enraizado na nossa língua, com todo o ar castiço (com os castelhanismos, esse também é o problema: têm quase sempre, antigos ou recentes, ar de castiços — até «castiço» vem do castelhano castizo...), é a locução levar a cabo. Interessante é ver que, em Espanha, só no final do século XIX se passou a aceitar llevar a cabo, considerada forma espúria, a par de llevar al cabo, castiça (ou castiza, se quiserem...) dos quatro costados (ou por los cuatro costados, se lhes aprouver...).

[Texto 800]

«Colapso», de novo

Outros desmoronamentos

      «No centro, é o resultado recente do colapso do império soviético. Só no Norte e em franjas do Noroeste, ela faz parte de uma velha cultura nacional. Não admira que a prepotência de Sarkozy e Merkel não perturbe por aí além os 27. Estão habituados» («Democracia», Vasco Pulido Valente, Público, 11.12.2011, p. 56).
      Colapso é a queda, por exemplo, de um edifício ou de uma nação. Nesta acepção, é um anglicismo, como já vimos mais de uma vez. À semelhança de muitos outros estrangeirismos, e mormente anglicismos, o problema é o seu ar castiço ocultar, mascarar a origem. Veja-se, por exemplo, o vocábulo «recessão». A acepção descida do nível da actividade económica ou diminuição do seu crescimento é anglicismo semântico relativamente recente. Não há muito tempo, recessão era somente o afastamento progressivo das nebulosas extragalácticas.
[Texto 799]

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