«Levar o nome»

Uma forma de contrabando

      «Existe ainda, em Espanha, um prémio que leva o nome de Elisa e Marcela, destinado a distinguir iniciativas que defendam os direitos dos homossexuais. E a Universidade da Corunha tem actualmente em exposição uma mostra dedicada ao tormentoso caso das duas mulheres» («Marcela e Elisa, um amor de contrabando», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 10.12.2011, p. 4).
      Mas esta não é forma de dizer inteiramente castelhana? «Muy semejante al libro que lleva el nombre de Juan Díaz Rengifo es el rarísimo Cisne de Apolo» (Historia de las ideas estéticas en España: Siglos XVI y XVII, Menéndez y Pelayo. Madrid: Imprenta de A. Pérez Dubrull, 1896, p. 321).
[Texto 796]

Ortografia: «regurgitar»

Já foi como escrevem

      «Quem viu a procissão de automóveis numa ordem impecável regorgitar à porta da Cimeira a enorme legião dos poderosos da “Europa” ficou provavelmente a pensar que lá dentro as coisas se passariam com a mesma eficiência e regularidade» («Uma cimeira», Vasco Pulido Valente, Público, 10.12.2011, p. 44).
      Já se escreveu assim, já, mas agora escreve-se «regurgitar». Quando se lêem muitas obras do século XIX, dá nisto. Igual desculpa não terá, decerto, Mário Zambujal, e no entanto: «Recomendei a Cacilda que desse uma boa volta, o Casino regorgitava de homens, alguns americanos fardados de branco» (Já não Se Escrevem Cartas de Amor. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed., p. 64).

[Texto 795]

«Você», de novo

Você, Judite

      Judite de Sousa, na TVI, entrevistou ontem Mira Amaral, o presidente do Banco BIC. Senhor engenheiro para aqui, senhor engenheiro para ali e ele — «Como é normal, quando você compra uma casa e faz o contrato-promessa de compra e venda, tem de pagar um sinal.» Só alguns professores universitários é que acham isto desrespeitoso, ou anormal, ou desnecessário.
[Texto 794]

«Pôr a hipótese»

Vem de todos os lados

      «A carta, manuscrita e em italiano, referia “três explosões contra bancos, banqueiros, carraças e sanguessugas”, o que leva a polícia a colocar a hipótese de duas outras cartas armadilhadas terem sido enviadas» («Carta armadilhada no Deutsche Bank», Diário de Notícias, 9.12.2011, p. 35).
      «Mas a professora, quando pus a hipótese de me aportuguesar, informou-me que havia vários professores que desejavam conhecer-me e eu teria portanto de me aperrear outra vez no colete» (Conta-Corrente, Nova Série, III, Virgílio Ferreira. Lisboa: Bertrand Editora, 1994, p. 213).
[Texto 793]

«De encontro a/ao encontro de»

A confusão continua

      «A escolha de Hugh Laurie, 52 anos, estrela da série televisiva Dr. House, para dar a cara pela nova campanha da marca de cosméticos L’Oréal não é inocente e vai de encontro ao novo homem com quem os homens se querem identificar (e que as mulheres querem ter)» («Retro, maduro, macho», Raquel Costa, Diário de Notícias, 9.12.2011, p. 28).
      A confusão continua. Cara Raquel Costa, se a escolha de Hugh Laurie fosse contra o «novo homem com quem os homens se querem identificar», o omnipotente marketing teria escolhido outra estrela. Neste caso, o sentido pedia a locução prepositiva ao encontro de, que se emprega para referir uma situação favorável.
[Texto 792]


«Desconcertar»

Língua desconcertada

      De muito e diverso se fala aqui no blogue, mas se parece que perdemos tempo quando tratamos de estrangeirismos e matéria afim, não é assim. Pretende-se tão-somente ter consciência da língua que se fala. Por exemplo, desconcertar, no sentido de causar perplexidade, que não é hoje em dia muito frequente, não é galicismo em estado puro?
      «Isto de certa maneira desconcerta. Desde o princípio do século XIX que Portugal, em mais de um sentido, foi um protectorado inglês. A Inglaterra provocou na prática a independência do Brasil. A Inglaterra armou e pagou o movimento liberal para invadir o iníquo reino do senhor D. Miguel» («A nova sessão de patriotismo», Vasco Pulido Valente, Público, 9.12.2011, p. 44).
      Vem do francês déconcerter: «Surprendre quelqu’un, lui faire perdre l’assurance de son jugement ou de la conduite à tenir.» No tempo de Bluteau, apenas se desconcertava um relógio, um pé, um acordo. Agora, o desconcerto é universal. E a língua evolui — pois claro. Espera: «evoluir» não foi acoimado de galicismo?! Evoluciona, então. Evolve, seja. Evolute, e não se fala mais nisso. Esta, outra variante, Camilo usou-a, e agora os dicionários não a registam.
[Texto 791]

Revisão

Para a próxima

      Ainda o livro de Mário Zambujal (Já não Se Escrevem Cartas de Amor. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed.), desta vez a propósito do uso destrambelhado do itálico e de alguma pontuação.
  1. (Ocorre-me: castanho e verde eram as cores daminha farda de lusito da Mocidade Portuguesa.)» (p. 10);
  2. «Resultado: onde ele estava era o ai-jesus. Inclusive as patroas, abundavam de salamaleques para tão gentil visitante» (p. 29);
  3. «O móbil do crime não foi o roubo. Nem carteira, nem anel com safira incrustada e fio grosso em ouro, tinham despertado a cobiça do criminoso» (pp. 29-30);
  4. «O próprio jornal se abalançava a afastar a hipótese de acidente, salientando que o local onde o corpo foi encontrado não tinha por perto, nem escadas nem relevo de pedra ou metal sobre os quais o infeliz pudesse ter tombado» (p. 47);
  5. «— Porra César, ao menos explica-te!» (p. 66);
  6. «Eu vi, uma mulher dos seus cinquenta, com o guarda-chuva feito lança, tentando subir ao ringue para trespassar o patife que saltou a pés juntos na barriguinha do preferido dela» (p. 69);
  7. «Tinham copos na mão e beberricavam o que me pareceu capilé» (p. 107);
  8. «Passo pela estante, retiro um policial de bolso, Maigret e o Caso Picpus, de Georgs Simenon» (p. 117);
  9. «Trouxe para esta casa um bom stock de livros que se amontoavam na residência de Lisboa e os policiais das colecções Xis e Vampiro, além de outros, vieram todos» (p. 117).
[Texto 790]

Verbo «colocar»

Uma batalha perdida

      «Foi com o livro seguinte, “Os Emigrantes”, quatro histórias de exílios, traduzido para inglês em 1996, que [W. G. Sebald] conquistou a crítica inglesa e americana. Quando “Austerlitz” – a história de um homem que vai lentamente recordando quem é e como chegou a Inglaterra, num dos comboios do Kindertransport que trazia crianças judias da Europa Central para as colocar a salvo do extermínio – saiu, pouco antes de Sebald morrer, o sucesso, com pedidos de entrevistas, convites para sessões literárias e festivais, e contratos para os próximos livros, já tinha invadido o seu mundo protegido em East Anglia» («Sob o signo de W. G. Sebald», Susana Moreira Marques, Ípsilon, 9.12.2011, p. 9) «A estação de Lowestoft está quase igual à imagem que Sebald colocou no seu livro, mas onde naquela imagem havia janelas agora há tábuas pretas. De um lado da estação, um restaurante de “fish and chips”, fechado há muito. Do outro lado, o McDonald’s e a High Street com mais e mais cadeias» (idem, p. 10).
[Texto 789]

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