Conjunção «nem»

Mas repare

      «A disciplina do governo económico significará, para nós, uma dieta compulsiva e continuada. Queiramos ou não, acabará por vir à força. É por isso risível escutar aqueles, como António José Seguro, ou como outros socialistas do presente e do passado, que para exibirem o seu imaculado federalismo afirmam que sempre defenderam um governo económico como solução redentora. Como eles se convenceram de que este novo federalismo fiscal será indolor nem implicará austeridade, ninguém percebe» («A austeridade política», Pedro Lomba, Público, 6.12.2011, p. 40).
      Nem é, na frase, conjunção coordenativa aditiva? Então onde está, perguntar-se-á o leitor benévolo, a outra oração negativa? Tem, antes, o sentido de e não, mas, por não ser de uso comum e estar a ligar orações de natureza diferente, não será compreendido por todos os leitores.
[Texto 774]

Merkozy é/Merkozy são

Ser híbrido

      «Mesmo aceitando que é indispensável “reforçar e harmonizar” a integração fiscal e orçamental da zona euro, as exigências do par Merkozy fazem lembrar uma reparação de guerra», lê-se no editorial do Público de hoje. Ora, é incongruente falar-se em «par Merkozy». A graça de tudo isto é supor que é um ser híbrido, como afirmou há dias Freitas do Amaral, que condenou as «intervenções de Bruxelas» e de «um ser híbrido a que chamam “Merkozy”» nos orçamentos e na condução das políticas nacionais, afirmando que isso «não é federalismo, nem democrático». Mesmo as aspas e o itálico são dispensáveis.
[Texto 773]

Como se escreve nos jornais

Dantes eram só os prédios

      «Recorde-se que no último fim-de-semana de Outubro, Horta Osório colapsou e foi internado em Londres numa clínica de recuperação do sono. A 2 de Novembro, o banco anunciou que o seu CEO estaria fora durante oito semanas para recuperar de um esgotamento» («Lloyds negoceia regresso de Horta Osório com estatuto e remuneração diferente», Cristina Ferreira, Público, 6.12.2011, p. 17).
      Mal vai isto quando um jornalista não encontra melhor verbo do que «colapsar». Quanto a «CEO», apesar de tudo, parece estar menos na moda.
[Texto 772]

Léxico: «assilvestrado»

Por mim, abro-lhe os braços

      Já aqui tinha estranhado o adjectivo «assilvestrado», que li na revista Notícias Magazine. Hoje, uma bióloga, R. P., diz-me que viu usarem a palavra numa reportagem no programa Portugal em Directo. Entre aspas, acrescenta. «Cães “assilvestrados” da Arrábida atacam rebanhos», lia-se em rodapé. Diz-me ainda que, como bióloga, já teve necessidade de usar uma palavra portuguesa equivalente à inglesa feral, mas até agora desconhecia-a. «Será um neologismo ou os dicionários em que procurei simplesmente não o registam?» Ocasionalmente embora, é usada em português há algum tempo. Está bem formada, é necessária, é expressiva e substitui vantajosamente um termo inglês — verificam-se todos os requisitos, creio, para incentivar o seu uso. Tanto mais que, como agora é moda, se se usar o termo inglês e não se grafar em itálico ou entre aspas, alguém ainda pode pensar, legitimamente, que é o português «feral» — funéreo, fúnebre, lúgubre. E, para terminar, a origem do termo? Bem, provavelmente o catalão assilvestrat, da: «ZOOL Dit de l’animal domèstic que ha fugit i s’ha tornat salvatge».
[Texto 771]

Outra vez «sanduíche»

Sandes e francesinhas

      «Portugal também está lá, claro. Heloísa fala do Porto, da sua “cor de ouro” e do “cheiro das especiarias”, mas também de um episódio embaraçante: quando Bianca, filha de Ruy [Castro], que vive em Lisboa, o encontrou no Porto e lhe perguntou: “Papai, você já comeu uma francesinha?” Um susto: ele ainda não sabia que se tratava de uma sanduíche» («Sexo e estripadores», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 5.12.2011, p. 3).
      Uma questão de gosto. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a francesinha é um «prato composto por uma sande feita com duas fatias de pão de forma, bife, fiambre, linguiça e mortadela ou salsicha, coberta por fatias de queijo e por um molho picante». Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é a «sandes feita de carnes variadas (fiambre, linguiça, salsicha fresca, etc.) entre fatias de pão de forma, queijo no topo e molho especial, gratinada no forno».
[Texto 770]

Como se escreve nos jornais

Pouco abonatório

      «Um documentário exibido na televisão pública belga veio revelar aspectos pouco abonatórios da personalidade do príncipe Lourenço da Bélgica, filho mais novo do actual monarca Alberto II. A reportagem, transmitida no programa Questions à la Une, mostra um Lourenço mulherengo, violento e ávaro» («Bélgica. Documentário revela lado negro do príncipe», «P2»/Público, 5.12.2011, p. 15).
      Afinal, o príncipe Lourenço (cá está mais um exemplo de um nome da realeza europeia — Laurent Benoît Baudouin Marie — traduzido) é belga ou ávaro?
[Texto 769]

Capela Sistina

Aqui perto

      E o autor escreveu, a propósito da reportagem da revista Sábado sobre a ignorância dos nossos universitários, «Capela Sixtina». Até está no texto do Acordo Ortográfico de 1990 (e já estava no de 1945): «Em final de sílaba que não seja final de palavra, o x = s muda para s sempre que está precedido de i ou u: justapor, justalinear, misto, sistino (cf. Capela Sistina), Sisto, em vez de juxtapor, juxtalinear, mixto, sixtina, Sixto.» É inegável que, se tivesse escrito Sextina, seria muito pior: «O extremado lorpa escreveria Sixtina, Sistina ou Xistina se soubesse que foi Sixto ou Xisto IV o fundador da capela», escreveu Camilo na Boémia do Espírito sobre Alexandre da Conceição, o «snr. Conceição», o «furúnculo anónimo».
[Texto 768]

Linguagem

Lá longe, nas Sorlingas

      Pareço aquelas autoras norte-americanas (quem sabe se condiscípulas desse grande ignorante, que finalmente se enxergou e desistiu da candidatura à presidência dos EUA, Herman Cain: «Quando me perguntarem quem é o presidente do Ubequi-bequi-bequi-bequi-stão-stão, a minha resposta vai ser: “Não sei. Você sabe?”») que recebem cartas de leitores de países tão pequenos, dizem, que têm de ir ver no mapa. No meu caso, nunca antes tinha ouvido falar das ilhas Scilly, ou Sorlingas, um arquipélago ao sul da península da Cornualha, na Inglaterra. Doravante, só tenho desculpa de não me lembrar do nome em córnico.
[Texto 767]

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