Léxico contrastivo: «surtar»

Surtos

      «Começou ontem o julgamento de Juarez José de Souza, acusado de matar e esquartejar, em agosto do ano passado, a empresária Edna Tosta Gadelha, 52, em uma clínica veterinária em Botafogo. Se condenado pelo homicídio triplamente qualificado com ocultação de cadáver, ele pode pegar até 33 anos de prisão. […] Alegou ter surtado na hora do assassinato e disse ter dividido o corpo de Edna em apenas dois sacos, e não em seis como constava na denúncia do Ministério Público» («Ao júri, esquartejador de Botafogo diz que “surtou”», Jornal do Brasil, 28.11.2007, p. A12). Surtar é termo familiar recente (foi registado na língua já na década de 1990) e significa entrar em surto psicótico ou em crise psicológica. Tem como étimo o substantivo «surto», na acepção médica de «crise psicótica caracterizada por maior ou menor grau de desintegração da personalidade e incapacidade de avaliar a realidade externa», na definição do Dicionário Houaiss.

O moral e a moral

Outra triste vez

      Estive tentado a não referir este erro, tanto mais que já falei dele aqui. Contudo, o facto de ter sido, mais uma vez, uma jornalista a dá-lo e ser, vendo bem, imperdoável persuadiram-me do contrário. A cobrir o jogo Boavista-V. Guimarães, na segunda, dia 26, a jornalista da Antena 1 Cláudia Martins, no noticiário, às 20.12, disse que uma das equipas estava a «levantar a moral». Na acepção de «estado de espírito, ânimo», deviam sabê-lo, este substantivo é do género masculino: o moral.

Responsabilidade social

Aprender a dizer não

      Depois de ter encontrado o jogo Aprender a Lêr, nova incursão a um hipermercado Feira Nova revelou mais jogos com erros da mesma empresa. Desta vez, o jogo — todos, num excesso imaginativo, são da marca «Toi» — chama-se Apanha Côcos. Dois erros: não apenas o vocábulo «coco» não tem acento circunflexo, como faz falta um hífen a ligar as duas palavras: apanha-cocos. Agora, a reclamação deve seguir não somente para a provedora do hipermercado Feira Nova, mas também para a própria empresa, a Pinto Guimarães & Barros, Lda.: jogostoipintogb@mail.telepac.pt. Queremos dar aos nossos filhos jogos, vendidos como didácticos, com erros?

Responsabilidade social

Aprender a denunciar

      Na secção de brinquedos de um hipermercado, e concretamente nas prateleiras dos jogos didácticos, encontrei, oh horror!, um jogo com o nome, escrito em várias partes da caixa, Aprender a Lêr. A empresa fabricante do jogo é a Pinto Guimarães & Barros, Lda., que não se envergonha de comercializar um produto com tão grave defeito. Como também não se envergonha o hipermercado, o Feira Nova. Ainda têm a pretensão de nos ensinarem a ler. É, não tenho dúvidas em dizê-lo, um caso de grave irresponsabilidade social. É pena que entre as atribuições da ASAE não esteja a fiscalização destes casos. Denunciemo-lo, ao menos, à provedora deste hipermercado, pedindo que mande retirar das prateleiras aquele produto.
      Contacto da provedora: provedoradocliente@jeronimo-martins.pt.

Léxico contrastivo: «malsucedido»

Tristes sucessos

      Cá, temos muito receio de escrever «bem-sucedido», sentindo-nos, e com razão, à deriva, pois os dicionários ou são omissos em relação a este termo ou indiciam ter adoptado critérios crípticos. Já no Brasil, escrever «bem-sucedido» e «malsucedido» é corrente, já que ambos os adjectivos estão sancionados pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras. «Um criminoso tentou roubar um carro onde estava uma família, obrigou o pai a sair do veículo, tentou fugir, perdeu o controle, capotou e caiu em um canal no Recife. O ladrão acabou sendo preso em flagrante após a fuga malsucedida» («Roubou carro e capotou», Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. A6).

Léxico contrastivo: «Bálcãs»

Pois é

      «Ao mesmo tempo em que a conflituosa província do Kosovo nunca esteve tão perto de conquistar a independência, a tensão na região dos Bálcãs cresce e a possibilidade de mais guerras é iminente. Com a vitória do ex-líder guerrilheiro albano-kosovar Hashem Thaci, pelo Partido Democrático do Kosovo (PDK), como primeiro-ministro no dia 17 ­ apesar da abstenção sérvia ­ o Kosovo anunciou que não aceitará nada menos do que independência» («Independência amedronta os Bálcãs», Marsílea Gombata, Jornal do Brasil, 25.11.2007, p. A28). 
      Para os Brasileiros, o vocábulo é grave. Para nós, isso é grave, pois Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista-o como agudo. A grafia brasileira autoriza uma pronúncia que se aproxima da de um anglo-saxónico. Da forma como, erroneamente, Nuno Rogeiro o pronuncia.

Léxico contrastivo: «gangorra»

Imagem: http://www.aqioestou.blogger.com.br/
Agora já sabem

      «E que, como Poder Moderador, teve habilidade para imperar sobre a gangorra entre liberais e conservadores, dos gabinetes parlamentaristas. Durante quase cinco décadas de ambicionadas paixões políticas, ele manteve sempre um distanciamento que não estimulava intimidades ou camaradagens. Foi muito criticado pelo excesso de liberdade que garantia aos jornalistas. Era um sedento de afeição, solitário e introvertido, que se escondia atrás do cetro e das pompas» («Pedro II, monarca republicano», Murilo Melo Filho, Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. B3). 
      Uma gangorra é, na definição do dicionário Aulete Digital, um «brinquedo constituído de uma prancha firmada numa base central de ajustamento oscilante, de modo que duas pessoas, geralmente crianças, podem sentar-se em cada uma das extremidades e lhe imprimir movimentos alternados de baixo para cima e vice-versa». Claro que no texto citado o vocábulo é usado em sentido figurado. Entre nós, chama-se sobe-e-desce ou cavalinho. Estranhamente, algumas pessoas a quem perguntei apenas conheciam o nome em inglês: see-saw ou teeter-totter.

Léxico contrastivo: «fumacê»

Ah, é isso?

      «Idolatrado pela população, o fumacê enfrenta resistência cada vez maior de especialistas e da prefeitura. A Secretaria Municipal de Saúde já transferiu 18 veículos com inseticidas ao Estado. Agora, os carros, que haviam sido doados pelo Ministério da Saúde, só entram em ação nos bairros em que a doença registra índices mais críticos. E, mesmo tendo mudado de mãos, agem apenas depois que os casos são notificados pelo município. […] O fumacê é uma bomba ambiental, porque agride idosos, alérgicos e crianças com asma, além de não combater os criadouros do mosquito. […] Os órfãos dos fumacês freqüentemente recorrem a dedetizadoras, mas a iniciativa privada também condena o impacto ambiental causado pelos veículos com inseticida» («Eficácia do fumacê no centro de polêmica», Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. A7). 
      Na definição do Aulete Digital, «fumacê» é o vocábulo, redução de «fumaceira», da gíria para o «veículo dotado de aparelho que lança no ar fumaça de substância que mata mosquitos, especialmente os da dengue». Quanto a «dedetizadoras», é óbvio: de DDT.

Arquivo do blogue