Sobre «réstia»

Sempre a piorar

      O nosso sistema tributário, afirma o autor e com verdade, «não tem réstia de racionalidade». Ora cá está mais uma falha de todos os dicionários actuais. Réstia, neste sentido, é o mesmo que resto ou resquício. Mas já esteve nos dicionários antigos. Será que do feixe de luz que passa através de orifício ou abertura estreita os falantes chegam lá?
      «Vasco hesitou, mas os anos e as traições sucessivas tinham-lhe retirado aos poucos qualquer réstia de pudor. Por isso, levou consigo a paulista embaraçada mas muito direita, a provar que há sempre um recomeço» (Rio da Glória, Possidónio Cachapa. Lisboa: Oficina do Livro, 2006, p. 264).

[Texto 3166]

«Amor a...»

Sintaxe histórica

      «Ainda naquele dia [Urbano Tavares Rodrigues] falou também do amor por Ana Maria, a actual mulher. E de um ou outro amuo com Cunhal, da desilusão com o actual estado do país, do desprezo aos políticos, da noção de que esta esquerda pode pouco. Cruzou o presente com o passado» («O homem que via os deuses ao lado», Isabel Lucas, Público, 10.08.2013, p. 3).
      Bom e mau em duas curtíssimas frases, e tudo, estranhamente, sobre a mesma questão: regências, e a mesma regência, aliás, sobre disposições de ânimo. O § 206 (p. 158, ou 157 na 2.ª ed.) da Sintaxe Histórica Portuguesa, de Epifânio da Silva Dias, diz tudo.
[Texto 3165]

Outro Chagas

Também para ler

      «O Diário de João Chagas, publicado postumamente depois do “28 de Maio”, é um dos melhores livros de memórias políticas de uma literatura que não se distingue no género. Chagas tinha sido um dos participantes na tentativa de revolução em 1891, degredado para África, exilado e revolucionário do “5 de Outubro”, além de ser também, e até ao fim, um admirável escritor (que hoje, evidentemente, ninguém lê)» («A desilusão», Vasco Pulido Valente, Público, 9.08.2013, p. 52).
      Ainda no dia 5 eu aqui escrevia que ninguém se lembrava de Pinheiro Chagas, mas afinal há uma ou duas pessoas que lêem a sua obra. Agora vem outro membro da família, também, é dos genes, um admirável escritor. Difícil é encontrar os quatro volumes do Diário.
[Texto 3164]

Léxico: «subletrado»

Básico incompleto

      Nunca a tinha lido ou ouvido: subletrado. Parece que são os que têm entre 15 e 64 anos e não têm mais do que o diploma do 2.º ciclo do ensino básico (seis anos de escolaridade). Em Portugal, são qualquer coisa como 40 por cento.
[Texto 3163]

«Mineradora»?

Na falta de outra

      «Um dos sete filhos da alemã Jutte Fuhrken e do brasileiro Eliezer Batista da Silva, que foi presidente da Companhia Vale do Rio Doce, a maior mineradora do mundo, e ministro das Minas e Energia durante o regime militar, a ascensão de Eike não é exactamente uma história de um self-made man que passa da pobreza à riqueza, mas ainda assim o seu percurso corresponde a uma espécie de “sonho brasileiro”» («O sonho brasileiro de Eike Batista transformou-se num pesadelo», Rita Siza, Público, 9.08.2013, p. 22).
      Não é nossa, é verdade que não, e nem sequer se encontra em todos os dicionários brasileiros, mas não vamos rejeitá-la sem mais nem menos.
[Texto 3162]

«Arma de arremesso político»?

Em francês não sei

      A Justiça francesa libertou três delinquentes por já não haver espaço nas cadeias. «O caso está a tornar-se uma arma de arremesso político entre a esquerda e a direita, mas há um facto incontornável: há cerca de 58 mil lugares nos estabelecimentos prisionais franceses, e os que já lá estão ultrapassam em muito esse número, há 20 % a mais» (Paulo Dentinho, Jornal da Tarde, 8.08.2013).
      O que é político: a arma ou o arremesso? Sim, já uma vez tratámos desta questão, mas é necessário voltar a ela.
      «A alegada incapacidade dos governos republicanos para administrarem as finanças do Estado ressurge como arma política de arremesso e reforça a instabilidade» (História Económica de Portugal, 1700-2000: o Século XX, Pedro Lains e Álvaro Ferreira da Silva. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2005, p. 455).

[Texto 3161]

«Falsear»/«falsificar»

Não esperava

      Para mim, foi o caso do dia: «O Ministério das Finanças diz que o documento em que consta o nome de Joaquim Pais Jorge foi falseado» (José Rodrigues dos Santos, Telejornal, 7.08.2013).
      Os dicionários dão falsear e falsificar como sinónimos, pelos menos parcialmente, mas eu esperava ali o segundo, não o primeiro. Para mim, a ideia de fraude é transmitida por falsificar. Vejo, contudo, que não é assim tão claro. «Não creio que valha a pena, eu mesmo invento uma assinatura, Ao menos, que se pareça um pouco com a minha, Nunca tive jeito para imitar caligrafias, mas farei o melhor que puder, Tem cuidado, vigia-te, quando uma pessoa começa a falsear nunca se sabe até onde chegará, Falsear não seria o termo exacto, falsificar era o que deves ter querido dizer, Obrigado pela rectificação, meu querido Máximo, o que eu estava era a manifestar apenas o desejo de que houvesse uma palavra capaz de exprimir, por si só, o sentido daquelas duas» (O Homem Duplicado, José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 2002).
[Texto 3160]

«Circuncisar»/«circuncidar»

Sem ponta

      Ora, é claro que *circuncisar não tem fundamentação etimológica, e talvez só se explique por analogia, mas ei-lo por aí na boca e na pena de muitos: «Ao mesmo tempo não posso deixar de confessar que me rói o feio bicho da inveja quando, depois de um lauto jantar, vejo alguém puxar de um belo charuto, circuncisar-lhe a ponta e puxar longas fumaças de prazer [...]» (Sobre a Mão e Outros Ensaios, João Lobo Antunes. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 69). Seja que ponta for, devemos é circuncidá-la.

[Texto 3159]

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