Como escrevem os professores

Assim tão más?

      «Desde a crónica da semana passada, recebi por vias diversas algumas cartas de pessoas que se intitulam professores a insultar-me com toda a consideração. As minhas dúvidas sobre a real profissão dessa gente prendem-se com o domínio da língua portuguesa evidenciado nas ditas cartas, manifestamente incompatível com a sabedoria de quem, nos dias em que não faz greve, assegura a prodigiosa educação das crianças deste país» («Ordem, mentiras e progresso», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 23.06.2013, p. 55).
[Texto 3012]

«Por arrasto»

Acho eu

      «Na altura, falou-se da necessidade de não aceitar um “estado de chantagem assumida” e temeu-se que a Rússia se aproveitasse da inércia dos EUA e, por arrastamento, dos seus aliados. Foi neste contexto que Kennedy, a 26 de Junho de 1963, disse em alemão que também ele era um cidadão de Berlim. Porque, quando a liberdade é ameaçada nalgum lugar do globo, é-o também em todo o mundo e, por isso, ninguém está salvo» («“Ich bin ein berliner”», Gonçalo Portocarrero de Almada, Público, 22.06.2013, p. 54).
      Só conheço e apenas vejo dicionarizada a expressão «por arrasto», que, aliás, não deve ser muito antiga. E não seria melhor escrever-se «ninguém está a salvo»?
      «Carlota estava a salvo da perseguição; sozinha com o seu amor, que ninguém lhe impugnava; nutrindo-o com saudades na solidão do claustro» (Carlota Ângela, Camilo Castelo Branco, 1858).

[Texto 3008]

«Porque/por que»

Isto é grave

      «“O melhor é pedir a Deus que lhe explique, porque nós não temos explicação”, responde, num impulso, a cirurgiã pediátrica quando questionada sobre como Gilberto Kássimo Silva, 13 anos, sobreviveu com um tiro na cabeça, no dia 1 de janeiro. “Bartolo”, nome porque é conhecido no bairro da Quinta da Fonte (Sacavém), vive já há mais de seis meses com a bala, que lhe entrou pela boca, alojada no tecido muscular encostado às vértebras que ditam a mobilidade dos membros inferiores e superiores» («‘Bartolo’, o ‘imortal’, vive com uma bala na cabeça», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 12).
      Valentina Marcelino, Valentina Marcelino, então agora é assim que se escreve? Ora veja: «Também nas imediações do Rato (que, ao que se sabe, tirou o nome por que é conhecido não de nenhuma praga de roedores que o tivesse afectado, mas sim de um tal Luís Gomes de Sá e Menezes, por alcunha o Rato, fundador do convento das religiosas da Trindade — as Trinas, como normalmente eram referidas — que se encontrava onde actualmente se ergue a Igreja de N.ª S.ª da Conceição) surgiu o primeiro bairro industrial» (Esta Lisboa, Alice Vieira. Lisboa: Editorial Caminho, 1993, p. 52).
[Texto 2999]

«Hidroponia/aeroponia»

Enxada, já era

      «E, durante as pesquisas sobre as técnicas de produção (“não tínhamos qualquer experiência nesta área agrícola”), descobriu em Espanha o método ideal: a hidroponia (ou aeroponia)» («Quando os morangos crescem suspensos no ar», R. M. S., Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 33).
      Pode, creio, ficar-se com a ideia de que são sinónimos, mas não são: a hidroponia, conforme se pode ler no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «sistema de cultivo, sem uso de solo, em que as plantas recebem uma solução nutritiva constituída por água pura e nutrientes inorgânicos dissolvidos», e a aeroponia é a «sistema de cultivo com plantas suspensas no ar».
[Texto 2998]

E não «liderou»

Bons e maus exemplos

      Bom: «A professora Patrícia Pina [docente na Escola Profissional de Hotelaria e Turismo de Lisboa], que coordenou uma equipa com mais três pessoas, venceu as Olimpíadas da Criatividade nos Estados Unidos, dedicadas ao estatuto social da mulher» («Portuguesa ganha Olimpíadas da Criatividade nos EUA», Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 35).
      Mau: «É motivo de orgulho esta gesta dos portugueses de há quinhentos anos. Mas mais do que nos orgulhar, esse passado deve também inspirar o Portugal do futuro. Não há desafio que um povo determinado, liderado por gente esclarecida, não seja capaz de ultrapassar» (editorial de hoje do Diário de Notícias, p. 6).
[Texto 2997]

Em que se explica o que é «spin-off»

Quem explica?

      «A tecnologia foi divulgada ontem pela QualityPlant, a mais recente spin-off [empresa que resulta de um grupo de investigação] da UC» («Vinhas clonadas: não há desculpa para os “anos maus”», Joana Capucho, Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 35).
      Lá explicaram desta vez o termo estrangeiro. Estão no bom caminho. (Joana Capucho, os parênteses rectos são seus? Se é assim, estão errados.)
[Texto 2996]

Léxico: «germoplasma»

À frente dos dicionários

      Então funciona assim: «“O produtor contacta-nos, nós recolhemos as amostras, ficam guardadas num banco de germoplasma, que permite a conservação do património genético das plantas, e, se as plantações forem destruídas por alguma razão, ele recorre ao nosso serviço para replantarmos a área”, explica Elisa Figueiredo, que fundou a empresa QualityPlant com Mónica Zuzarte» («Vinhas clonadas: não há desculpa para os “anos maus”», Joana Capucho, Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 35).
      O germoplasma é o conjunto de genótipos de uma espécie vegetal, considerada como um todo. Ainda não está nos dicionários.
[Texto 2995]

Confusões dos jornalistas

Só visto

      «[O padre Lancelote Rodrigues] Estudou Filosofia e Teologia e, após [sic] concluir os estudos, decidiu ser padre aos 22 anos. Foi enviado para Canídrome para cuidar dos refugiados, após o bispo de Macau ter duvidado da sua vocação» («Dedicou a sua vida à missão de ajudar os refugiados em Macau», Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 45).
      É só mais uma escorregadela dos jornalistas. Mais ridícula do que outras, porventura. Quando li o necrológio, pensei que fosse um topónimo, até pela ausência de artigo, alguma localidade chinesa. Soou-me bem, assim, de recorte clássico. Na verdade, trata-se do Macau (Yat Yuen) Canidrome Co. Ltd., do Canídromo de Macau! Sim, canídromo, o recinto onde se realizam corridas de cães.
[Texto 2994]

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