47 finais alternativos

Eh pá, tantos

     «Adeus às Armas, o romance de Hemingway publicado em 1929, conta a história de um tenente norte-americano, Frederic Henry, que serve o exército italiano durante a I Guerra Mundial, como condutor de ambulâncias, cujo desfecho é fatalmente trágico. Porém, antes da sua publicação o escritor idealizara 47 finais alternativos para o romance, que serão publicados esta semana nos Estados Unidos» («Editados 47 finais de ‘Adeus às Armas’», Diário de Notícias, 11.07.2012, p. 49).
[Texto 1806]

«Haveriam de passar»

Não me consumas

      «Um dia, Luís Vita apareceu no estúdio do programa Meia de Rock da Rádio Renascença com uma novidade: havia um barbeiro na Calçada do Combro que fazia uma música diferente. “Claro que foi violentamente gozado”, recorda Rui Pêgo, que com António Duarte completava a equipa do programa. “Mas o Vita tinha razão.” Rendidos a António Variações, foram gravar um programa em casa dele. “Era tudo verde. Ele tinha uma camisola de gola alta verde, as paredes eram verdes. E ele estava nervosíssimo.” Gravaram duas músicas – O Comprimido e Não Me Consumas – que haveriam de passar “até à exaustão” no Meia de Rock» («O barbeiro que fazia umas canções em casa», M. J. C., Diário de Notícias, 11.07.2012, p. 29).
[Texto 1805]

«Após OK do ministro»!

Como se fosse no café

      «Após mais de uma semana de “caso”, o processo foi ontem aberto à consulta pública após OK do ministro» («Cargo de Relvas em associação de folclore ajudou a equivalência», Miguel Marujo, Diário de Notícias, 10.07.2012, p. 11).
      Só com demoradas elucubrações o jornalista chegaria a uma redacção da frase que soasse e fosse portuguesa.
[Texto 1804]

Como se escreve nos jornais

Se acham que sim

      «Os números do Ministério da Educação e Ciência mostram ainda que nenhum aluno conseguiu tirar 20 no exame de Português. O facto de a prova feita por 78 845 estudantes ser uma das que permitem respostas mais ambíguas é uma das justificações para que ninguém tenha conseguido acertar em tudo. Ainda assim, existem 15 que ficaram com 20 por arredondamento, ou seja, tiveram classificação acima dos 19,5 valores, numa escala de zero a 20» («35 alunos conseguiram 20 no exame de Matemática», Ana Bela Ferreira e Joana Capucho, Diário de Notícias, 10.07.2012, p. 14).
      Ainda tiveram a ajuda de outros dois jornalistas, mas saiu assim. Agora a frio, acham mesmo que a justificação é essa, as respostas poderem ser mais ambíguas?
[Texto 1803]

«Sortir/surtir»

Uma investida

      «Although her gentle insistence about this has sometimes had no effect.» «Embora a sua suave insistência quanto a este assunto nem sempre sortisse efeito.» E na semana passada li que «as gaivotas faziam sortidas no mar». Sortir, entre outras coisas, é prover(-se), abastecer(-se). Surtir é ter como consequência; dar origem a; obter resultado. De vez em vez, é recomendável que quem vive da escrita perca uns minutos a consultar um dicionário. E, para surtir efeito, reflectir um pouco.
[Texto 1802]

«Xeque/xeique»

Chefe de tribo africana

      Xeique? «Em português, porém, em prosa de clássicos, escreveu-se sempre xeque», lê-se na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. No Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves, entre os topónimos Xefina e Xeldém, também só irão encontrar o vazio, uma entrelinha, pois não regista «xeique». Como também o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o não regista. Ainda assim, há quem se ache no direito de «corrigir» quem escreve «xeque». Impressionante.
[Texto 1801]

«Catástrofe humanitária»!

Isto ainda não acabou

      «Segundo os habitantes de Krimsky, a cidade foi arrasada por uma onda de sete metros que pode ter sido provocada por chuvas ou por descargas de uma barragem situada na parte alta da cidade, revela a AFP. Este facto foi desmentido pelas autoridades locais, porém Vadim Nikanorov, dirigente da Agência Federal para os Recursos Híbridos, reconheceu que houve descargas, mas rejeita que possam ter sido a causa da catástrofe humanitária» («Rússia cumpre luto em dia de demissão de dirigente», Diário de Notícias, 10.07.2012, p. 27).
[Texto 1800]

Quantos continentes

Sabe-se lá

      Ontem, às 14h30, um Boeing 777 da Emirates aterrou em Portugal, «com direito a baptismo de voo», ouvi no Telejornal. Tiago Simões, antigo piloto da TAP e agora naquela companhia aérea, declarou à chegada (no português possível, digamos): «É um desafio bastante grande e bastante interessante de poder voar para seis continentes e para uma quantidade de destinos e com uma diversidade de nacionalidades no cockpit e na cabine.»
      Não sei se foi a minha professora da escola primária que nos poupou a esta controvérsia frustrante sobre o número de continentes ou se, como é mais provável, ela a desconhecia. É impressionante como até sobre esta questão há opiniões desencontradas. São cinco, propugnam uns; são seis, afirmam outros; nada disso, são sete, defendem outros. Da mesma forma, temos de estar atentos à despromoção de planetas.
      E quanto ao «baptismo de voo», o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece o que seja. Regista, isso sim, «baptismo do ar»: primeira viagem aérea de uma pessoa. De uma pessoa, não do próprio avião.
[Texto 1799]

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