Oh diabo!

Assim começamos


      «Mazouco é uma aldeia portuguesa, mas parece espanhola. O habitante liga para o 112 e atendem do país vizinho. O regulador diz que não há incumprimento das operadoras. Ó diabo...» («Sobe & Desce», Correio da Manhã, 21.04.2026, p. 3). 

      Falam muito, mas interjeccionam mal. Na verdade, e ao contrário do que se lê num dicionário de certa academia, é de uma locução que se trata — oh diabo —, ocorre mesmo esta fusão para a expressão de um significado único, usada perante um acto de certa gravidade, exprimindo espanto, censura, recordação súbita de um acto a realizar, etc. Logo, sem vírgula. A Porto Editora não se quis comprometer e nada diz sobre isto. «— Oh diabo! Ao futebol não costumo ir, não. Mas, se fazes muito empenho em ir, arranjo-te um bilhete, se me prometeres ir lá co’uma rapariga séria, claro» (Futebol, Hugo Rocha. Lello & Irmão Editores, 1957, pp. 245-46).

[Texto 22 857]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Poderão ser muito diferentes em tudo o resto, mas Andrea Neves, Eduarda Maio e José Carlos Trindade, da Antena 1, mostraram hoje de manhã ser exactamente iguais numa coisa: ignoram que nem todos os nomes de países são antecedidos de artigo, e entre estes está Chipre. Assim, Andrea Neves, Eduarda Maio e José Carlos Trindade, os chefes de Estado e de governo da União Europeia iniciam hoje em Chipre uma cimeira informal de dois dias, que dirigirá essencialmente a atenção para a guerra no Médio Oriente e incluirá um encontro com parceiros na região. Agora só para Eduarda Maio: não diga que a sua colega está a falar «a partir de Nicósia», mas «de Nicósia». Agora só para José Carlos Trindade: devia preferir, por vários motivos, «trovejar» a «trovoar».


Léxico: «emagrecedor»

Despeço-me com amizade até ao próximo programa


      «Anvisa restringe importação de emagrecedores do Paraguai em meio a pressão política», Mateus Vargas, Folha de S. Paulo, 21.04.2026, p. A28).

[Texto 22 856]

Sorbona, pois claro. Léxico: «igualizador»

Sejamos minoria


      Por vezes, o nome esconde a origem: estava escrito que um dia (que por acaso é hoje) saberiam que o nome Sorbonne (ou Sorbona, aportuguesado) para designar a célebre universidade de Paris era inicialmente o nome de um colégio (collegium) fundado em 1250 pelo teólogo Robert de Sorbon (1201-1274). Desde o século XIV este veio a ser a sede da faculdade de Teologia. Só no início do século XIX o nome se estendeu a toda a universidade. 

      Se puderem, se a mamã deixar, escrevam sempre Sorbona, só para contrariar a imparável vaga igualizadora: «Contra os ataques da Sorbona, Francisco I abriga os humanistas do Collége Royal, e a própria universidade é atingida pelo vírus: em 1533 o seu reitor Nicolau Cop, amigo de Calvino, pronuncia um discurso inaugural em que defende teses heterodoxas, com tal escândalo que teve de abandonar o cargo e refugiar-se em Basileia» (O Humanismo em Portugal, António José Saraiva. Lisboa: Edição do Jornal do Foro, 1954, p. 37).

[Texto 22 855]

Definição: «metabolito»

Não satisfaz ninguém


      «Segundo Jack Brand, da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, “foi realmente o metabolito, que sabemos ocorrer em concentrações mais elevadas na natureza, que teve um efeito muito mais profundo no comportamento e na movimentação dos peixes”, alertando que a ausência destes compostos nas avaliações de risco pode levar a uma subestimação significativa do impacto ambiental» («Cocaína nos rios está a deixar salmões mais ativos (e com comportamentos estranhos)», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 21.04.2026, 16h05). 

      Não bastavam os mocados que por aí vemos, agora também os salmões andam na ganza. Bem, olhemos ali para metabolito, que a Porto Editora define assim: «BIOQUÍMICA qualquer substância resultante do processo de metabolismo». Para o leigo, é potencialmente enganadora, porque sugere apenas o produto final. Para o especialista, é insatisfatória, porque omite aspectos estruturais do conceito (intermediários, vias metabólicas, actividade biológica). Não fiquem tristes: a definição do Houaiss, apesar de o dar como «qualquer composto intermediário das reações enzimáticas do metabolismo», está longe de ser perfeita, já que pode levar a entender-se que exclui os produtos finais, quando, em uso científico, estes também são metabolitos. Apenas a conjugação das duas resolve o problema, o que fazemos propondo ➜ metabolito BIOQUÍMICA molécula resultante da transformação de uma substância no metabolismo, incluindo produtos finais e compostos intermédios das vias metabólicas; pode conservar, alterar ou perder a actividade biológica da substância de origem.

[Texto 22 854]

Duala, Camarões

Parece mentira


      Então, c’um caraças, até no portal da Air France aparece Duala e os nossos jornalistas, apesar de advertidos mais de uma vez, insistem em escrever Douala?!

[Texto 22 853]

Tradução: «guardien de la paix»

Espetanços contra o espectador


      No filme Os Novos Vizinhos (Les Gens d’à côté, André Téchiné, 2024), Lucie (Isabelle Huppert) resume assim a Yann (Nahuel Pérez Biscayart) o seu percurso inicial na polícia: «Comecei como guardien de la paix aos 24 anos. Depois estive 3 anos na polícia administrativa e depois trabalhei com sem-abrigo, nas estações da Gare du Nord e da Gare de L’Est.» Isto, claro, nas legendas, et le spectateur qui ne comprend pas le français, tant pis pour lui. Não é isso, não é SÓ por estar ali aquele pedacinho em francês: está mal traduzido. Mas o que é isso de «polícia administrativa»? Bem, terão de perguntar à tradutora, Cláudia Brito. Vamos ao que a personagem diz, vamos ao áudio: «J’ai commencé gardien de la paix à 24 ans. Plus tard, j’ai fait police-secours à Paris pendant trois ans, puis je me suis occupée des sans-abris dans les gares. Gare du Nord, gare de l’Est.» Transpondo — não é o que se deve fazer na tradução? —, tanto quanto possível, para a realidade portuguesa, seria mais ou menos assim: «Comecei como polícia aos 24 anos. Mais tarde, estive três anos na intervenção rápida em Paris e, depois, ocupei-me de sem-abrigo nas estações: Gare du Nord e Gare de l’Est.»

[Texto 22 852]

Definição: «caça-gralhas»

Não me revejo


      Pois bem, «caça-gralhas» já está onde deve estar: no dicionário. Não sei é se deve ficar com a definição actual. É coloquial, isso de certeza, mas, como eu a vejo ser usada, pelas pessoas do meio, não é o revisor pleno, que mexe, altera, sugere (por vezes fazendo as vezes do editor, ora pois). Não: o caça-gralhas é isso, e dentro da sua limitada competência (já conheci telefonistas que, nos intervalos, tinham de fazer revisão), um caça-gralhas, alguém alfabetizado que apanha gralhas, no que até pode ser proficientíssimo. Quanto ao que as pessoas fora do meio entendem, pouco importa: bem sei que, para algumas, é tudo o mesmo. Em apoio do meu entendimento, cito a seguinte carta que Luiz Pacheco mandou, a acolitar umas provas, a Luís Amaro, poeta, jornalista, revisor, editor, crítico literário, fundador da revista Árvore e colaborador durante mais de cinquenta anos em iniciativas de âmbito literário: «Creio ter cumprido, para além da função caça-gralhas, e o melhor possível, a minha tarefa de revisor: esta terceira versão (mantendo os erros de estrutura que, a emendarem-se, obrigavam a um livro novo) está quase decente. B. B. é inteligente e tem talento: o que é, é precipitado, um tudo-nada alifante num jardim...» Estoutra citação vai no mesmo sentido: «Tarquínio tinha o culto do belo curvo e modelado apolíneo e, vindo de um publicismo nocturno e caça-gralhas, revisor embora não geral, incomodou-se com as brutalidades marujas da revolução» (A Manobra de Valsalva, Artur Portela. Lisboa: Quetzal Editores, 2002, p. 59).

[Texto 22 851]

Pero se entiende, ¿no?

Tudo na mesma


      «“Pero se entiende, ¿no?”, suelen alegar los sorprendidos en pecado que creen que el contexto resuelve cualquier desaguisado. Ya Sancho le pedía a don Quijote que no le enmendase los vocablos si entendía lo que quería decir. Seguimos en las mismas» («Hablar con propiedad», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 18.04.2026, p. 12). Pascácios da Península Ibérica, uni-vos e dizei sempre isto, que o que interessa é que se perceba.

[Texto 22 850]

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