Léxico: «extrema»

Autênticos funis

      Ninguém se lembra de Pinheiro Chagas, mas aqui vai: «Aqui na extrema do Occidente houve um povo pequeno, que praticou grandes feitos, cujo nome encheu o mundo, cujas bandeiras tremularam em todos os mares, porque tinha um grande elemento de vida — o patriotismo!» (Ensaios Críticos, Pinheiro Chagas. Porto: Em Casa da Viúva Moré, 1866, p. 121).
      Apenas para dizer isto: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o substantivo «extrema». Impressionante! Para o Dicionário Houaiss, é «o ponto mais distante que se pode alcançar com a vista».
[Texto 3149]

«Comprar mercearia»

Um caso singular

      «No regresso do passeio, e depois de se despedir da imprensa presente, o líder do Executivo afirmou ainda que era necessário “ir às compras”, provavelmente referindo [sic] às mercearias necessárias para duas semanas de descanso maioritariamente caseiro» («“Estamos a precisar de tirar uns dias de descanso”, confessa Passos», Raquel Costa e Lília Bernardes, Diário de Notícias, 3.08.2013, p. 11).
      Nesta acepção — conjunto de géneros alimentícios —, sempre o tenho visto ser usado no singular. «O pobre labrego do tempo do senhor D. Carlos — eu fartei-me de vê-lo a migar a malga do caldo, meia entalada entre os joelhos, com pão centeio de oito dias, e limpar as ventas ao canhão da véstia — comia da leira e da horta visto não ter posses para comprar mercearia» (Um Escritor Confessa-se, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 216).
[Texto 3148]

«A páginas tantas»

É uma condição

      O escritor Manuel Jorge Marmelo tem dois novos livros, ambos vendidos somente através da Internet. Porquê? O escritor explicou no Bom Dia Portugal de ontem: «Primeiro, por uma tentativa de chegar a novos públicos, uma vez que o livro, estando na Amazon, pode ser comprado por pessoas em qualquer parte do mundo, desde que falem português e leiam português.» E se só falarem e só lerem tagalo, por exemplo, não podem comprá-los? Claro, não era isto que queria dizer.
      A entrevistadora, que confunde escritor com narrador, perguntou-lhe: «Às páginas tantas, tu dizes que “ser um zero à esquerda, ter disso consciência, viver plenamente com essa circunstância é decerto o mais venturoso dos estados de alma”. Porquê?» Prefiro a páginas tantas, até porque também não digo «às páginas vinte e uma».
[Texto 3147]

«Implantação/implementação»

Francamente...

      A propósito da China e de disparates, este de alto coturno. Jornalista Carlos Daniel, no Jornal da Tarde de ontem: «A China está a ser atingida por uma de onda de calor como não se sentia no país há 140 anos. As temperaturas estão acima dos 40 graus em várias províncias das zonas leste e sul do país. Há 35 dias que não chove. A economia local já está a sofrer as consequências. Numa zona de forte implementação agrícola, muitas colheitas estão já condenadas.»
      «Implementação agrícola»... Isto é que é conhecer bem a língua. O jornalista devia deitar uma olhadela ao Boletim Colonial. E se fosse apenas isto, mas não: o texto da notícia, que continua, não tem articuladores. São frases a seguir a frases, nada mais.
[Texto 3146]

Plural de nome de povos

Ora, tão simples

      «Consolidado o irreversível processo que, em 1965, criou a Região Autônoma do Tibete e concluídas a reforma agrária e outras reformas democráticas radicais, sepultou-se de vez a ordem servil tibetana. O princípio de autodeterminação das minorias étnicas é garantido pela Constituição Chinesa no Artigo 14, aos mongóis, huis, tibetanos, miaos, lis e korais» (Relações Internacionais: Visões do Brasil e da América Latina, Estêvão Chaves de Rezende Martins. Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, 2003, p. 461).
      E também os sanyis, os yis, os hans, os naxis, os mosuos, os uigures, os manchus, os yaos, os dongs, os zhuangs... É assim, pois claro, mas parece que é preciso atravessar o Atlântico para se saber. Cá é tudo no singular — porque a ciência manda.
[Texto 3145]

Relidos, não ficavam assim

Era só mudar

      «A em»? Era só mudar «em 1994» para outra parte da frase. «Há mesmo quem avente que não foi Pissarreira a, em 1994, na primeira fuga da prisão, matar uma septuagenária, o filho desta e uma criança de nove anos que chegava da escola e assistiu aos crimes» («“Tem uma falha na cabeça e anda por aí cheio de fome”», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 3.08.2013, p. 19).
      O advogado, russo, de Snowden não sabe falar russo? Era só mudar «apesar de não falar russo» para outra parte da frase. «Apesar de não falar russo, o advogado garante que Snowden se irá “adaptar facilmente” ao país que lhe deu asilo temporário, desafiando o pedido de extradição dos Estados Unidos» («Snowden em casa de amigos e à espera do pai e da namorada», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 3.08.2013, p. 21).
[Texto 3144]

Tradução: «spinoff»

Em inglês, mas explicado

      «Na Sonae, esta fusão também fecha um ciclo de sete anos para Paulo Azevedo, que em 2006 tentou expandir o universo da Sonae lançando uma OPA sobre a Portugal Telecom. A oferta foi chumbada pelos acionistas, mas desse processo acabaria por nascer a Zon (ex-PT Multimedia), fruto do spinoff (separação) de operações que a Autoridade da Concorrência impôs à PT» («Zon e Sonae só esperam pela AdC para atacar mercado», Miguel Pacheco, «Dinheiro Vivo»/Diário de Notícias, 3.08.2013, p. 11).
[Texto 3143]

Tradução: «buy-back»

Ah, mas em inglês...

      «Refira-se a propósito que as empresas de rent a car compram os carros em dois sistemas principais: ou ficam com eles como ativos (normalmente três anos), ou fazem os chamados contratos buy-back, em que o vendedor volta a receber a viatura passado um determinado prazo que, explicou Robalo de Almeida[,] “varia entre sete meses e dois anos e meio”» («Rent a car salva vendas de carros, mas enfrenta custo do investimento», Armando Fonseca Júnior, «Dinheiro Vivo»/Diário de Notícias, 3.08.2013, p. 13).
      E não podemos dizer isto em português? Porque não contrato de retrovenda, se retrovender é vender com a condição de desfazer o contrato de venda?
[Texto 3142]

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