«Para além»

Não interessa a explicação

      Ana Daniela Soares, no programa As Vozes Que Nos Escrevem, entrevistou hoje a escritora Patrícia Reis. Aqui fica um excerto: «E escrevo várias coisas em vários registos, o que quer dizer que sou capaz de escrever um texto para um presidente de uma grande empresa, para incorporar um relatório e contas, como sou capaz de escrever um livro em ghost writing, que é uma coisa que me dá imenso prazer, porque não sou eu, posso escrever à vontade, sem qualquer espécie de problema, escrever os disparates todos, com os erros todos, aqueles que me arrepiam, tipo os advérbios de modo em excesso, o “para além”, sabendo eu que “para além” é metafísica, que se uma coisa que está além não precisa de estar para além...»
      Quando regressar das férias, Montexto vai, tenho a certeza, apreciar muito esta explicação para lá da gramática.
[Texto 3113]

O AOLP mal sabido

Acordo Ortográfico, pois

      «Em bom rigor, Seguro não quer a troika. Quer, sim, a “troica”, segundo as boas regras do Novo Acordo Ortográfico, adoptado nos documentos oficiais do Partido Socialista. E deve ser porque a troika e a “troica” não são a mesma entidade que ele acha que se pode dirigir ao país anunciando orgulhosamente [...]» («A troika e a “troica”», João Miguel Tavares, Público, 23.07.2013, p. 48).
      Em bom rigor, nada disto faz muito sentido, ou está aqui uma boa mistificação. Na verdade, é «segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico» que se pode escrever com k, «troika» ou «troica», sem acento. E a troika difere tanto da tróica como a vodka da vodca.

[Texto 3112]

Um apóstrofo mal empregado

Aqui não há festa

      «Os discursos de Cavaco Silva à nação começam a ter uma certa lógica. Dividem-se em duas partes: antes do copo d’água (a.c) e depois do copo d’água (d.c.)» («a.C e d.C», Rui Tavares, Público, 22.07.2013, p. 40).
      Rui Tavares, adepto (e até parece mentira) da ortografia avariada do Acordo Ortográfico de 1990, usou neste caso um apóstrofo escusado, mas isso não explica o erro. À refeição oferecida nos casamentos ou baptizados ou outras ocasiões festivas é que se dá o nome (mas com hífen, sempre com hífen) copo-d’água.
[Texto 3111]

Rei dos Belgas

Rei dos Belgas

      «Este papel de índole política do rei dos belgas — o seu título é mesmo rei dos belgas e não da Bélgica, para sublinhar que são os belgas e não o rei que detém a soberania — constitui, aliás, um dos primeiros alvos da N-VA [Nieuw-Vlaamse Alliantie, Aliança Neoflamenga, o maior partido flamengo] na próxima reforma do Estado» («Bélgica tem um novo rei com a missão de preservar a coesão nacional», Isabel Arriaga e Cunha, Público, 22.07.2013, p. 20).
      Extraordinária subtileza semântica... Contudo, o título do artigo é «Bélgica tem um novo rei». Não devia então ser «Belgas têm novo rei»?
[Texto 3110]

Já agora, «Adli Mansur»

Vendo de novo

      «Enquanto a Irmandade rejeitou a oferta de lugares no novo Governo, o plano de transição anunciado pelo Presidente interino, Adly Mansour, está a ser criticado pelas forças liberais e seculares que compõem a Frente de Salvação nacional (FSN), que esteve na origem do golpe de Estado de 3 de Julho» («Lançado mandado de detenção contra o guia da Irmandade Muçulmana», Jorge Almeida Fernandes, Público, 11.07.2013, p. 25).
      No dia 11, elogiei aqui o título por ter sido usada a palavra «guia» e não aquela que já sabemos. Mas agora reparo melhor: e aquele «lançado»? Não será uma forma canhestra de traduzir alguma palavra inglesa? E agora no próprio artigo. Até o jornalista mais distraído há-de saber que o nome do presidente (عدلي منصو) é transcrito. Em português, será da seguinte forma: Adli Mansur. Tudo o resto são lamentáveis concessões.
[Texto 3109]

«Furgão», uma acepção

Parece outra coisa

      «Trago», escreve o autor, «a minha bicicleta, que viajou no furgão do comboio e me foi entregue na estação impecavelmente protegida por tiras de cartão canelado. Sou alojado num complexo.» Não conhecia — ou estava esquecido, o que acaba por ser o mesmo — esta acepção de «furgão»: «carruagem coberta e fechada do caminho-de-ferro destinada a transporte de bagagens, encomendas, etc.».

[Texto 3108]

«Ex ante» e «ex post»

Não se é latim

      «Esta análise», escreve o nosso autor, «deverá ser efectuada tanto ex-ante, ou seja, antes da adopção do projecto como condição necessária à sua adopção, como ex-post, quer dizer, depois da sua execução, com vista a determinar possíveis desvios e a actualizar a avaliação.»
      Nem é preciso ser economista para ver que devia ser assim — mas será que é assim? Bem, mas não estamos aqui para discutir as PPP, mas a ortografia. Trata-se de latinismos, e por isso não levam hífen: ex ante e ex post. O Dicionário Houaiss regista ambas as locuções adjectivas. Ex ante: «baseado em suposição e prognóstico, sendo fundamentalmente subjectivo e estimativo». Ex post: «baseado em conhecimento, observação, análise, sendo fundamentalmente objectivo e factual».
[Texto 3107]

Aquilino Ribeiro

Hoje e sempre

      «Diz-se que Aquilino Ribeiro é um escritor difícil. Há quem tenha começado um livro seu, resistido e desistido. Já não está nos programas de Português desde os anos 80 apesar de ter sido um dos escritores mais populares do seu tempo. Lê-lo, hoje, só acompanhado de dicionário para as “palavras difíceis”, tal a quantidade de regionalismos, léxico popular, linguajar e ladainhas da Beira, paisagem humana da sua literatura» («O mundo inteiro na sua aldeia. Aquilino Ribeiro», Raquel Ribeiro, Público, 21.07.2013, p. 16).
[Texto 3106]

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