Escrito na pedra, por vezes

Mais paráfrase

      A citação de domingo do «Escrito na pedra», no Público, era uma frase do filósofo, ensaísta e político inglês Francis Bacon (1561-1626). «Todo o acesso a uma alta função se serve de uma escada tortuosa», lê-se. É mais uma paráfrase do que uma tradução da frase original: «We rise to great heights by a winding staircase.»
[Texto 3105]

Tradução: «copygirl»

Ora esta

      «Filha de imigrantes libaneses, Helen Thomas nasceu no Kentucky e cresceu em Detroit, numa família de nove filhos. No fim dos estudos, em 1942, mudou-se para Washington, onde arranjou emprego como copygirl no defunto Washington Daily News» («Morreu aos 92 anos a jornalista americana Helen Thomas», Rita Siza, Público, 21.07.2013, p. 56).
      Ora querem lá ver que não tem correspondência em português? Nada de remotamente parecido?

[Texto 3104]

«Réu/arguido»

Não queremos saber

      «Os réus fizeram um acordo para não cumprirem tempo de prisão e terem sentenças moderadas, reconhecendo pelo menos em parte a sua culpa, conhecido como pattegiamento [sic]» («Cinco condenações pelo Costa Concordia», Público, 21.07.2013, p. 29).
      Réu, em processo penal? Senhor jornalista, vá estudar um pouco. Vá lá, nós esperamos. Em contrapartida, quis brindar-nos com uma palavra italiana — escusadamente. Que interessa ao leitor que acordo ou transacção penal seja patteggiamento em italiano? Ainda por cima, como o comum dos mortais me avisa, escreveram incorrectamente a palavra, falta um g.
[Texto 3103]

Ponto de abreviatura

Está mal, José

      «É verdade: esse trabalho torna-os úteis para os estudiosos, como fontes para muitas áreas da história que se desenvolveu nas últimas décadas, histórias do quotidiano, de género, mesmo histórias do consumo, das mentalidades, etc..» («Restos e rastros», José Pacheco Pereira, Público, 20.07.2013, p. 46).
      Pode ser uma nuga de ortografia, mas, porque é ignorada de tantos — mesmo de revisores ­e quem leu milhares de livros —, aqui fica: sempre que uma abreviatura, neste caso, a abreviatura etc., coincide com o final de frase, não precisa de outro ponto além do ponto de abreviatura.
[Texto 3102]

Sobre «efémera»

Dura só um dia

      «Passei a última semana a ver essas caixas de vidas inteiras, todas demasiado iguais no seu conteúdo, mesmo que retratando vidas muito diferentes. Os amadores de velharias e de efémera, dizem os manuais, dão valor a todos esses papéis pelo trabalho de os classificar e organizar» («Restos e rastros», José Pacheco Pereira, Público, 20.07.2013, p. 46).
      Como no caso de «etilista», o leitor médio vai pensar que falta ali um s, «efémeras», os insectos da família dos Efemerídeos. Claro que, interpretado dessa forma, o texto não faz sentido, mas o leitor médio também está habituado a não perceber tudo.
      Trata-se de um anglicismo: «ephemera (plural): paper items (as posters, broadsides, and tickets) that were originally meant to be discarded after use but have since become collectibles».
[Texto 3101]

Escrito na pedra

E o senso comum?

      A citação de hoje do «Escrito na pedra», no Público, é uma frase do Rev. Sydney Smith (1771-1845), uma espécie de Swift ou, em certa perspectiva, de Oscar Wilde. «A melhor maneira de responder a um mau argumento é deixá-lo continuar», lê-se. A frase original tem um final que não devia ter sido omitido: «The best way of answering a bad argument is not to stop it, but to let it go on in its course till it leaps over the common sense.»
[Texto 3100]

«Barreiro», «balado»...

Abalado fico eu

      «O promotor da quinta de resgate de animais SOS Equinos, na Palhaça (Oliveira do Bairro), aponta para amanhã uma batida, com envolvimento de voluntários que pretendam colaborar, nos pinhais e nos barreiros da região, em busca do Marreta» («Encontrar ‘Marreta’ pode valer recompensa», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 19.07.2013, p. 20).
      Terreno argiloso ou terra alta e seca? Bem, não sei. Na mesma página, a notícia de mais uma morte causada pelo despiste de um tractor. «“O condutor ficou por baixo do trator, após uma queda de dois a três metros, num balado”, informaram os bombeiros [de Valença].» (Só agora é que vi, nesta troca de vv por bb, o comentário da leitora Patrícia. Francamente...)
[Texto 3099]

Sobre «tríade»

Chamem um sinólogo

      «Wan Kuok Koi, mais conhecido por “Dente Partido”, e líder da tríade 14 Quilates (14K), que controlava o jogo em Macau, revelou ter dado mais de 9,5 milhões de euros a políticos portugueses» («Mafioso macaense financiou políticos», Diário de Notícias, 19.07.2013, p. 11).
      Muito me surpreende que não figure já em algum dicionário da língua portuguesa. Está nos de língua inglesa: «any of several Chinese secret societies, esp one involved in criminal activities, such as drug trafficking». Bem, não está nos de língua portuguesa, mas usa-se. Já o Sr. Dente Partido, o seu nome escreve-se Wan Kuok-koi.
[Texto 3098]

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