Ortografia: «chichi»

Pois é

      «E se tivermos vontade de fazer chi-chi, não podemos?» («Exames do 4.º ano: educar para a perversão», Leonor Arroio Malik, Público, 19.07.2013, p. 49).
      Senhora pedagoga, tenha paciência, mas é «chichi» que se escreve. Só me dou ao trabalho de o dizer porque não é raro ver a palavra incorrectamente escrita. Ah, e vejo aqui que a 50.ª edição do Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergström e Neves Reis, continua a advertir que «chichi» é diferente de «xixi».
[Texto 3097]

Pior do que o AO

Por variadas razões

      «A petição Pela Desvinculação de Portugal ao ‘Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa’ de 1990, com 6212 assinaturas, vai ser discutida em plenário na Assembleia da República. No relatório que dá provimento à petição, aprovado dia 16 na comissão parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, o deputado relator, Michael Seufert, escreve (pág. 18) que “é um facto objectivo que, tirando os académicos envolvidos na elaboração do próprio Acordo, é difícil encontrar uma opinião da academia portuguesa favorável ao acordo – por razões variadas”. Na próxima semana, terça ou quarta-feira, será divulgado o relatório final do grupo de trabalho sobre o Acordo Ortográfico (AO) daquela comissão parlamentar» («Petição contra AO vai ser discutida no plenário de São Bento», Público, 18.07.2013, p. 34).
       Desta é que vai ser. Espera aí, mas não se diz «desvinculação de»? Adeus, minhas encomendas. «Que ensinamentos auferem d’essas duas palavras, a um tempo substanciosas e vans, aquelles que sobre ellas archttectaram edifício onde se acolheram a gozar o pensamento desvinculado do preceito religioso?» (Cousas Leves e Pesadas, Camilo Castelo Branco. Porto: Em Casa de Luiz José D’Oliveira, 1867, p. 206).

[Texto 3096]

São gralhas, senhores

Esta mata

      «Luís de Magalhães, poeta, editor, político, que conheceu Antero no Verão de 1881, escreveu que, em Vila do Conde, o poeta “estava nos seus dias joviais e de belo e fascinante humor”. “Chamei a Vila do Conde o seu ascetério, — e era de facto. O seu quarto, despido de todo o conforto, era como a cela de um monge, como os quatro muros nus em que se enclausurava um emparedado, como a coluna de um etilista. Ali vivia, concentrado em si mesmo, levado no turbilhão dos seus sonhos”, escreveu Magalhães» («Antero de Quental. Anos felizes em Vila do Conde», Raquel Ribeiro, Público, 18.07.2013, p. 37).
       «Etilista», o leitor desprevenido mas expedito sabe logo o que é quando pesquisar no Google: «alcoólatra, o que tem o vício do uso de bebidas alcoólicas». Já a coluna estraga tudo, não é?

[Texto 3095]

Léxico: «subarquipélago»

Outra nova

      «Hoje, Cavaco Silva será o primeiro Presidente a pernoitar neste subarquipélago e talvez o uso do equipamento tecnológico montado na Selvagem Grande venha a ter utilidade, uma vez que PS e PSD reúnem esta noite as suas respectivas comissões políticas, de onde poderá sair fumo branco ou negro ao dito acordo de “salvação nacional”» («Presidente chega às Selvagens com os olhos no subarquipélago e os ouvidos em Lisboa», Luciano Alvarez, Público, 18.07.2013, p. 10).
[Texto 3094]

Léxico: «confusionista»

Atitudes e tendências

      Curioso que a palavra «confusionista», tantas vezes aqui usada por Montexto (alguns dirão que é por mim e não por Montexto, mas nada de confusões), não esteja em muitos dicionários. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que o mais parecido que regista é «confucionista» (e «confucianista», porque o português é pelo menos duplo — Agostinho da Silva citado por Montexto). «Interessava acima de tudo lançar dúvidas, despejar propaganda confusionista e manter “a rede de cumplicidades” que permitira executar o crime» (Memórias de Humberto Delgado, Iva Delgado. Lisboa: Leya, 2009, p. 290).
[Texto 3093]

«Envolto num líquido»?

Tudo trocado

       «O coração [de D. Pedro IV] foi doado à cidade do Porto em gratidão pela vitória liberal. Os anos passaram e o seu coração, envolto num líquido e encerrado num escrínio de vidro, precisa de repouso absoluto e ausência total de luz para ser preservado» («Coração de D. Pedro IV não sairá para o Brasil», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 17.07.2013, p. 21).
       «Envolto num líquido»? E se fosse num pano, estaria imerso? Numa caixa de texto ao lado, lê-se que o coração está num sarcófago, cuja chave está no gabinete do próprio presidente da Câmara Municipal do Porto. Escrínio, sarcófago...
[Texto 3092]

«País a quem»?

Assim vai a língua

      «O rei português D. Pedro IV morreu há 168 anos no Brasil, país a quem deu a independência e onde se tornou imperador» («Coração de D. Pedro IV não sairá para o Brasil», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 17.07.2013, p. 21).
      Dantes sabia-se que o pronome relativo (ou interrogativo) «quem» só se aplica a pessoas ou a alguma coisa personificada. Agora, é o que se vê. E isto com jornalistas, imagino com a maioria da população.

[Texto 3091]

Léxico: «incendiarismo»

Olha, não conhecia

      Nunca tinha lido nem ouvido: incendiarismo. É o acto de destruir algum objecto pelo fogo. Nada de modernices, já tinha aparecido num número de 1832 da Gazeta de Lisboa. Aparece também a traduzir o termo inglês «arson», «the willful or malicious burning of property (as a building) especially with criminal or fraudulent intent» (segundo o Merriam-Webster).
[Texto 3090]

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