Não a etrusca

44º 30' N 11º 21' E

      João Adelino Faria, no Telejornal de ontem: «Uma britânica morreu quando tentava atravessar a nado o canal da Mancha, para conseguir fundos para ajudar crianças e diabéticos. Susan Taylor, de 34 anos, entrou em colapso já na fase final da travessia, cerca de 34 quilómetros, já próximo do litoral francês. A jovem ainda foi transferida de emergência para um hospital de Bolonha, onde os médicos não a conseguiram reanimar» (20h35).
      Quê, do canal da Mancha para a capital da Emília-Romanha!? Tinha fatalmente de morrer. Ah, Bolonha, em França! Perto do bosque, talvez? Longe. Ah, no litoral, perto de Calais... Mas aí é Boulogne-sur-Mer, ou, como se lê logo na Crónica de D. Manuel, Bolonha sobre o Mar. «Um acto de solidariedade», rematou João Adelino Faria, «que acabou na tragédia.»
      Lido à pressa na imprensa inglesa, a redacção tinha de ser aquela. Na BBC, pode ler-se: «Susan Taylor, 34, from Barwell, Leicestershire, died in Boulogne on Sunday after she “suddenly collapsed” on the final part of the challenge. [...] Susan Taylor’s Channel swim attempt very sadly ended in tragedy.»

[Texto 3089]

Tradução: «sobresueldo»

É o que me parece

      Numa notícia do Telejornal de ontem sobre a troca de SMS entre Rajoy e Bárcenas, o ex-tesoureiro do Partido Popular agora preso, apareceu Pedro Ramírez, do jornal El Mundo, a afirmar que se se demonstrasse que «el recibió sobresueldos en metálico», a situação política de Rajoy seria muito delicada. Nas legendas, sobresueldos foi traduzido por «abonos», mas tenho as minhas dúvidas. Sobresueldo é, segundo o DRAE, a «retribución o consignación que se añade al sueldo fijo». Para o Dicionário Espanhol-Português da Porto Editora, traduz-se por «gratificação, prémio, bónus».
[Texto 3088]

Léxico: «ângelus»

Já devia lá estar

      «O Papa», lê-se na página na internet da Rádio Renascença, «falava na oração do Ângelus, que proferiu na residência de Castel Gandolfo. “Está prestes a começar a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. Partirei dentro de oito dias, mas muitos jovens vão partir mais cedo para o Brasil”, começou por dizer.»
       Com maiúscula ou com minúscula — Ângelus ou ângelus —, é uma oração da manhã, do meio-dia e da tarde. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a encontramos.
      «O estafeta voltou ao conde de Linhares com a informação de que Sir Sidney Smith o receberia em sua residência às seis da tarde daquela segunda-feira. Faltava pouco para a hora do ângelus, mas Linhares ainda teve tempo de, a caminho de São Bento, estacionar sua sege ao arco do Telles e bater na porta do Calvoso» (Era no Tempo do Rei, Ruy Castro. Alfragide: Edições Asa, 2008, pp. 137-38).
[Texto 3087]

Sobre «orangista»

E a Ordem de Orange?

      Nigel Dodds, deputado da Irlanda do Norte e chefe de um partido protestante, o Partido Unionista Democrático, foi atingido na cabeça por um tijolo durante a marcha anual dos orangistas, na sexta-feira, em Belfast. (Na notícia no Expresso, no primeiro parágrafo diz-se que foi uma pedra, no segundo parágrafo, que foi um tijolo.)
      Só temos aqui um problema: para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, orangista é apenas o «relativo ou pertencente a Orange, província da África do Sul, ou que é seu natural ou habitante», ou o «natural ou habitante de Orange». Não chega: faltam pelo menos três sentidos, e entre eles o que está ali atrás.
[Texto 3086]

Falar por enigmas

Contos de raiva, diz ela

      Mónica Baldaque, pintora e escritora, foi ao Bom Dia Portugal falar do seu novo livro de contos, Vinte Anos na Província, sobre as famílias tradicionais do Douro. Não sibila, mas sibilina: «Muitas [casas no Douro] estão vazias, ou bastantes estão vazias, outras estão entregues a... enfim, a todo um formulário completamente diferente, que tem outras intenções e outras... Tudo é desenvolvido noutros processos... e noutras...» Basta, estou cansado.
[Texto 3085]

Tradução: «zizi»

Nem é mais bonito

      «E não tinha qualquer ideia sobre o aspecto de um homem. As estátuas de homens, que víamos em Versalhes, têm o zizi partido. Como eu não tinha irmãos e o meu pai não se mostrava, nunca soube como era um homem. Nos quadros, viam-se mais mulheres, nunca se viam homens» («Yvette Kapferer. Mais vale viver», Anabela Mota Ribeiro, «2»/Público, 14.07.2013, p. 22).
      Cara Anabela Mota Ribeiro, ora conte-nos lá, acha mesmo que zizi é português ou que não tem tradução? Já experimentou algo radical, sei lá, consultar um dicionário?
[Texto 3084]

Agulha é agulha

Qual vulgo

      «Segundo o jornal La Tribune, uma peça de metal dessoldada no aparelho de mudança de via (vulgo “agulha”) terá estado na origem do descarrilamento» («Falha numa agulha fez descarrilar comboio», Carlos Cipriano, Público, 14.07.2013, p. 29).
      Nada de «vulgo»: até nos glossários de termos ferroviários «agulha» é o termo que se usa. Naquele jornal francês, pode ler-se: «La SNCF, contactée par Le Parisien, évoque la piste d’un problème d’aiguillage.»
[Texto 3083]

Proficientíssimos tradutores

Muito me contam

      Nicolás Maduro, que acaba de assumir a presidência pro tempore (tomai lá latim) do Mercosul, recordou, vi no Bom Dia Portugal de hoje, que este caso (o de Snowden) de espionagem mundial «ha sacudido la conciencia pública de los EE.UU., del mundo entero y que plantea temas claves de la ética política del mundo que queremos construir». Na RTP, acharam que plantear se podia traduzir perfeitamente por «minar»: «e mina temas cruciais da ética política». Quem traduziu? Só pode ter sido um factótum, como esses seguranças que vemos nos serviços da Segurança Social, por exemplo.

[Texto 3082]

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