Léxico: «némesis»

Finalmente

      «De novo, o entusiasmo é crescente. Aproxima-se da ilha que será sua némesis mas por enquanto conhece só como seu destino» (A Condição Humana em Ruy Cinatti, Peter Stilwell. Lisboa: Editorial Presença, 1995, p. 172).
      Andava há anos a ler a palavra e já tinha proposto a sua dicionarização. Hoje, chegou a sua vez de ser entesourada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3065]

Léxico: «sinedrita»

Falta em quase todos

      «Sobre as escadas arrimadas aos braços da cruz, José de Arimateia, o judeu de coração sensível, e Nicodemus, outro sinedrita dissidente, entregam-se à tarefa de desprender sem molestações o corpo divino» (Sevilha, Noiva de Portugal, António de Cértima. Lisboa: SIT, 1963, p. 276). 
      Claro que é o membro do sinédrio ou sinedrim, mas não se encontra em quase nenhum dicionário. Vão ficando pelo caminho.
[Texto 3064]

Ortografia: «metainformação»

Depende do dia

      «Mais uma vez, e à semelhança do que acontece na Alemanha, de acordo com a notícia publicada na semana passada pela revista Der Spiegel, não se trata de ouvir as conversas telefónicas ou de ler as mensagens trocadas nas redes sociais, mas sim de registar a metainformação das comunicações de todas as pessoas — os dados que indicam o número de telefone, a localização dos intervenientes numa conversa ou a data e a hora dessas comunicações, por exemplo» («Cidadãos brasileiros espiados “em grande escala” pelos serviços secretos dos EUA», Alexandre Martins, Público, 8.07.2013, p. 23).
      Isto foi hoje, porque na sexta-feira o jornalista achou, mal, que devia ter hífen: «À semelhança dos programas de espionagem norte-americano e britânico — expostos pelo antigo analista informático Edward Snowden —, também as autoridades francesas estarão a interceptar e a guardar a meta-informação das comunicações, segundo o Le Monde» («Secreta francesa também sabe “quem fala com quem”», Alexandre Martins, Público, 5.07.2013, p. 25).
[Texto 3063]

«Haveria de»

Soa a «avaria»

      «Parece que Ferreira de Castro na selva “se fez homem” e à “selva”, como húmus, haveria de voltar. [...] Levou tempo a escrever sobre a selva. Sabia que ela estava dentro de si e que haveria de contar a exploração dos homens, o horror da solidão da Amazónia, verdejante de excesso de calor, os urros como entidade viva, o pesadelo do coração das trevas, que Joseph Conrad também descreveu» («Casas-museu. Dois lugares para a memória de Ferreira de Castro», Raquel Ribeiro, Público, 7.07.2013, pp. 16-17).

[Texto 3062]

«Auto não sei quê»

Modo automático

      Agora: «Com a estabilidade governativa escaqueirada, Portugal ficou à mercê da perplexidade dos mercados. Precisamente, [sic] o que se queria evitar, e que levou às condecorações que o Governo se autoconcedeu» («Insólitos portugueses», Nuno Ribeiro, Público, 6.07.2013, p. 14).
      Dantes: «Júlio olhou a manhã translúcida, por debaixo da qual a neblina, agachada sobre as faldas da montanha, ia sendo varrida. E, antes de fazer perguntas, concedeu a si próprio um pouco de tempo para reter esse poderoso instante de calma» (Fogo na Noite Escura, Fernando Namora. Lisboa: Publicações Europa-América, 1988, p. 445).
[Texto 3061]

«Indecoris causa»

Tem graça, mas o título?

      «Há algumas dúvidas sobre a origem deste pensamento. Provou-se que não é nem de Miguel Relvas (doutorado “indecoris causa” por várias academias) nem de Milton Friedman, o papa dos mercados, nem sequer dos dois alunos de Excel e estatísticas falsas Rogoff e Reinhart (não confundir com o inventor das pílulas de alho que te ajudam a respirar melhor, só não respires para cima de mim)» («Irrevogável principiante velho», Rui Cardoso Martins, «2»/Público, 7.07.2013, p. 33).
[Texto 3060]

De vela e à vela

Porque este é diferente

      Lá fora, 40 ºC, e aqui em casa acabei de ler a «Ode Marítima», de Fernando Pessoa, disfarçado de Álvaro de Campos. Ando farto de engenheiros, mas como este é só a fingir, cá vai: «Ah, os paquetes, os navios-carvoeiros, os navios de vela!/Vão rareando — ai de mim! — os navios de vela nos mares!» Um dia destes, ainda vão transformar aqueles navios de vela em navios à vela. Para não confundir as cabecinhas.
[Texto 3059]

Quando calha, latim

Metades

     «Se esta tragédia fosse ficção — e parece que é — eu escrevia-lhe um final trágico como é norma das tragédias. Um suicídio, político ou literal (tanto faz), mas heróico e cheio de dignidade. Como o de Brutus, quando se retirou para a montanha depois de ser derrotado pelas legiões de Octávio e Marco António. Ou como o de Cato, que preferiu morrer a ser perdoado por César» («Um fim trágico como nas tragédias», Pedro Bidarra, «Dinheiro Vivo»/Diário de Notícias, 6.07.2013, p. 17).
      Dois nomes em latim, dois em português. Nada mal, equidade absoluta. Só um génio como Camilo é que podia escrever inteiramente em português: «Os vocábulos liberdade, virtude, ciência e progresso das luzes, felicidade do género humano, saem-lhe continuamente da boca, mas um tal Bruto é um abjecto adulador; paixões, vergonhas devoram um tal Catão; tal apóstolo da tolerância é o mais intolerante dos mortais, e tal adorador da humanidade é um sanguinário perseguidor» (Os Mártires, Chateaubriand. Tradução de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1979, p. 113).
[Texto 3058]

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