De «hoarding» a «abandónico»

Comprem um manual de Psiquiatria

      «O distúrbio de “hoarding” afecta cerca de 3 por cento dos Portugueses. Caracteriza-se pela acumulação compulsiva de produtos e pela incapacidade de se desfazer de objectos, mesmo que sejam lixo. Em casos extremos, as casas dessas pessoas transformam-se em autênticos depósitos de lixo» («O distúrbio de “hoarding” afecta cerca de 3 por cento dos Portugueses», João Tomé de Carvalho, Bom Dia Portugal, 18.06.2013).
      Em estúdio estava o psiquiatra António Sampaio, que disse que «isto emana de uma patologia abandónica». Vem do francês, pois claro, mas mesmo nesta língua é neologismo para designar a criança ou o adulto que vivem dominados pelo receio neurótico de ser abandonados, de perder o amor dos pais ou dos próximos. Claro que o psiquiatra não explicou nada disto.
[Texto 2990]

Tradução: «recipient»

Mais simples

      Quarenta e cinco descendentes de refugiados judeus salvos por Aristides de Sousa Mendes chegaram a Portugal para homenagear a memória do diplomata. Lee Sterling, antigo refugiado de Bruxelas, foi um deles. «Sou um dos recipientes dos vistos de Aristides de Sousa Mendes. Tinha quatro anos, a minha irmã sete, e viemos para cá com os meus pais e a minha avó» (Jorge Esteves, Jornal da Tarde, 18.06.2013, 14h09).
      Sim, é verdade, «recipiente» também é, em português, o que recebe, mas quem fala assim, hein? Experimente consultar, caro Jorge Esteves, um dicionário de inglês-português, é muito mais despretensioso do que isso.
[Texto 2989]

Tradução: «peer review»

Merece pois

      «Porn Studies é a primeira revista académica com revisão pelos pares dedicada ao estudo da pornografia, e as directoras são as professoras em instituições britânicas Clarissa Smith (Sunderland University) e Feona Attwood (Middlesex University)» («Petição contra revista sobre pornografia», Joana Gorjão Henriques, Público, 18.06.2013, p. 31).
      Devia ser o normal, mas, como não é, é preciso elogiar que a jornalista não use a expressão inglesa correspondente, peer review ou refereeing.
[Texto 2988]

Mais inglês

Fica demonstrado

      «É mais um episódio das revelações feitas por Edward Snowden, o whistleblower que passou documentos internos da Agência de Segurança Interna dos EUA ao jornal britânico Guardian. Desta vez, os documentos secretos mostram que políticos e outros responsáveis que participaram em 2009 na cimeira do G20 em Londres foram espiados por agentes britânicos» («Londres terá “espiado” reunião do G20 em 2009», Público, 18.06.2013, p. 25).
      Eu não disse ainda hoje? Se puderem, enfiam uma palavra inglesa. Whistleblower significa simplesmente informador, delator, bufo. Com o seu uso, o jornalista demonstra que sabe copiar as palavras que encontra na imprensa anglo-saxónica. Algo que a minha filha, graças a Deus pré-escolarizada, também sabe fazer. E as aspas em «espiado», no título, deixam-nos a pensar.
[Texto 2987]

Léxico: «redução»

Algo novo

      «A par da crescente adesão ao novo sistema, rapidamente se comprovou também que não seria adaptável aos vinhos de qualidade, sobretudo aos que se destinam ao envelhecimento em garrafa. Além de que mesmo os vinhos mais simples destinados ao consumo imediato apresentavam desagradáveis aromas de redução» («Amorim cria rolha com rosca para ganhar mercado às tampas metálicas», José Augusto Moreira, Público, 18.06.2013, p. 21).
      «Trata-se», pode ler-se aqui, «do fenômeno inverso ao da oxidação. São reações químicas que se desenvolvem em ambientes livres de oxigênio. No caso do vinho, quando se aponta que está “reduzido”, ou com “aroma de redução”, significa que compostos sulfúricos indesejáveis foram produzidos.» Parece ser a 14.ª acepção do verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «(química) processo químico em que o oxigénio é eliminado de um composto».
[Texto 2986]

Inglês, sempre que podem

Já a minha avó dizia

 

      «A Corticeira Amorim e a vidreira americana Owens-Illinois (O-I), líderes mundiais nos respectivos sectores, acabam de apresentar ao mercado global uma solução com a qual pensam acabar com a discussão entre a utilização da tradicional rolha de cortiça ou, em alternativa, das modernas tampas de rosca metálicas (popularizadas pelo termo inglês screwcap) no engarrafamento de vinhos» («Amorim cria rolha com rosca para ganhar mercado às tampas metálicas», José Augusto Moreira, Público, 18.06.2013, p. 21).
      A propósito ou a despropósito, os jornalistas gostam de enfiar um ou dois termos ingleses no meio da prosa que vão produzindo. Salvo melhor opinião, ao leitor não interessa que tampa de rosca se diga screwcap em inglês. Ou é só porque está envolvida uma empresa norte-americana, a Owens-Illinois, aliás, a O-I? Popularizadas, francamente.

[Texto 2985]

Léxico: «cadouço»

Desta vez, foram às origens

      
      Este fim-de-semana, um adolescente de 15 anos morreu afogado na ribeira do Cadouço, no concelho de Loulé. Repórter Helena Figueiras no Telejornal de ontem: «A ribeira do Cadouço nasce a norte de Loulé e passa debaixo da cidade através de um túnel. Com o Verão, o mais certo é secar, mas percebe-se o nome. “Cadouço” quer dizer esconderijo de peixes grande e profundo, uma cavidade no rochedo.»

      Exactamente. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que cadouço é um regionalismo e significa «escondeijo (de peixes) grande e profundo». Para o dicionário de Cândido de Figueiredo, é o «aloque vasto e fundo». (E «aloque» o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista.) Em castelhano existe cadozo, remoinho que fazem as águas, considerado por alguns autores o étimo do nosso «cadouço».

[Texto 2984]

Tradução: «release»

É deles que tenho pena

      Miguel Soares, jornalista da Antena 1: «Esta notícia [de os serviços de informação britânicos terem espiado os trabalhos da Cimeira do G20 em 2009, realizada em Londres] é libertada, ainda por cima, a poucas horas de o Reino Unido acolher a Cimeira do G8.»
      Como nos dicionários bilingues «soltar, libertar, largar» costuma ser a primeira acepção de to release, vá de largar a asneira. Pobres ouvintes, vão desaprender o pouco que aprenderam.
[Texto 2983]

Arquivo do blogue