«Tipóia/charpa/“sling”»

Com que então, sling...

      Percebe tanto de inglês como eu de chinês, mas de manhã apareceu com um braço ao pescoço. «Uma luxação», tenta o marido adivinhar. «Foi no hospital que lhe puseram o sling.» «O quê?» «O sling.» Em português, à tira de pano onde se apoia o braço doente dá-se o nome de charpa. No Brasil, como vimos aqui, o nome de tipóia — que, neste caso, não tem nada que ver com o carro puxado a cavalos, mas sim com a rede em que as índias do Brasil transportavam os filhos pequenos. Afinal, também uma das acepções de sling. Charpa vem do francês écharpe, é verdade. Mas, como está aportuguesado, é sempre preferível. Em castelhano também se diz charpa e, inteiramente vernáculo e analógico, cabrestillo.

[Texto 2810]

Léxico: «ultramaratona»

Para prevenir

      «Entre eles há um convidado especial. Márcio Villar vem do Brasil e traz um currículo onde cabem as ultramaratonas mais duras do mundo — como a Jungle Marathon (na Amazónia), a Arrowhead (no Minnesota, nos EUA), a Badwater (no Vale da Morte, na Califórnia) ou a Brasil 135» («Oh meu Deus Covilhã. O nome diz tudo», Rui Catalão, i, 4.05.2013, p. 50).
      Continua a não aparecer em todos os dicionários, e convinha, pois nem sempre os escrevinhadores acertam na ortografia.
[Texto 2809]

Ortografia: «biossensor»

Escrever mal é com eles

      Na Covilhã, foi inaugurado um novo centro de investigação em saúde — o UBI Medical. Tinha de ser em inglês, ou não seria eficaz. Na reportagem do Jornal da Tarde de ontem, pudemos ver as instalações. Numa das paredes, lia-se numa placa de aço escovado: «Laboratório Biosensores». Solta, ó Jove, os teus raios sobre o ímpio que assim escreveu. Então não se tem de dobrar o s, «biossensor»? Já nem digo nada da falta de preposição.
[Texto 2808]

Ortografia: «chili»

Ora repare

      «Treinado no Norte do continente, com mais de 20 anos de residência em Portugal, o chefe [Dieter Koschina] aplica-se num menu que faz jus aos motivos náuticos, dentro do espírito da região, como uns lagostins com um molho vinagrete de papaia e chilli» («El Celler de Can Roca. Tradição catalã em dose tripla», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 4.05.2013, p. 16).
      Maria Ramos Silva, ora deite lá uma olhadela ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: é chili que se escreve, apenas com um l.
[Texto 2807]

«Calcorrear (por)»

Vendo bem...

        «Domingos Flores ainda se lembra de calcorrear por estes caminhos» («Rota da transumância começou em Idanha», Sandra Salvado, Jornal da Tarde, 3.05.2013).
      Estava convencido de que o verbo «calcorrear» não pede a preposição «por», mas, como diz, avisadamente, Montexto, as regências são mais lábeis do que se pensa.
      «Já te deste ao trabalho de calcorrear por essas aldeias afora? Não, eu sei. E sobretudo sei que és mulher! E uma mulher não calcorreia as aldeias do País» (Novas Peregrinações, Manuel Rodrigues. Lisboa: A Regra do Jogo, 1981, p. 37).
[Texto 2806]

«Ridicularizar/ridiculizar»

É por isso

      Quantas vezes Montexto já aqui nos disse que não escreve ridicularizar, mas ridiculizar? Muitas. Num dicionário antigo de francês que estou aqui a ver (Dictionnaire Critique et Raisonné du Langage Vicieux ou Réputé Vicieux), recomenda-se ridiculiser, pois «ridiculariser est un barbarisme». Bem, certo é que «ridicularizar» não soa tão bem e atenta claramente contra o princípio — incompreensivelmente postergado — do menor esforço.
[Texto 2805]

«Pôr/colocar»

Agora já não

      Agora, porém, já não se segue cegamente o que diz a língua francesa. Não, nada disso: temos os nossos próprios modismos. «Poser le problème en ces termes, etc.» «Colocar o problema nestes termos, etc.»
[Texto 2804]

«Une autre»

Virá daqui?

      «A cette question, il faut opposer une autre, etc.» E por isso traduzem assim: «A esta questão torna-se necessário opor uma outra, etc.» Não apenas traduzem: escrevem sempre assim. Ora, o artigo indefinido é usado (ou deve ser, lembrem-se da suinização) com muita contenção na nossa língua. O abuso é claramente galicismo. E não deve ser usado antes de outros qualificativos como outro, certo, etc.

[Texto 2803]

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