Demasiadas singularidades

Lusofonês personalizado

      «Por um lado, estou esclarecida. José Mário Costa não precisa da minha “Contribuição para uma errata”, como a designei na ignorância de que não utiliza o nosso português mas sim, mais propriamente, um género de lusofonês personalizado.
      Veio munido de bibliografia brasileira reiterar um “inerente nele”, com o à-vontade de quem vai na lanchonete. Chega a atribuir foros de figura de estilo (uma ênfase nada menos que camoniana!) ao seu peculiar “ruído de fundo à volta”. Lança-me a par e passo o Dicionário Houaiss, muito útil noutros aspectos, pouco ciente quiçá dessa notável síntese do humorista brasileiro Millôr Fernandes: “O Houaiss conhece todas as palavras da língua portuguesa; ele só não sabe juntá-las!”» («‘Agramatical’ lusofonia», Madalena Homem Cardoso, Público, 2.05.2013, p. 47).
      Já aqui tínhamos identificado um inédito «ater-se em», que ninguém se atreveu, é verdade, a condenar, porque a língua é vasta e tudo é possível. Só estranhámos. Mas vão-me parecendo demasiadas singularidades.
[Texto 2802]

Tradução: «industrial-strength lye»

Por oposição a caseira?

      «Carmen Tarleton foi atacada há seis anos pelo marido com lixívia industrial. Sofreu queimaduras em 80 % do corpo» («Hospital de Boston implanta novo rosto a mulher desfigurada com lixívia», Paula Rebelo, Jornal da Tarde, 2.05.2013).
      Lixívia industrial, dizem?... Hum... Os meios de comunicação norte-americanos falam em industrial-strength lye. Não será antes soda cáustica?

[Texto 2801]

Léxico: «tambuladeira»

Cavaleiros e infanções...

      «Nesta cerimónia vão ser entronizados 30 novos cavaleiros e um infanção. O infanção recebe o chapéu, inspirado no infante D. Henrique, a capa e a tambuladeira. Quanto aos cavaleiros, recebem só esta peça, que serve para provar o vinho. Pode ser de porcelana branca, que é melhor até para mostrar a cor do produto» («Confraria do Vinho do Porto faz entronização no Brasil», João Pacheco Miranda, Jornal da Tarde, 2.05.2013).
      «Copo ou utensílio de prata em forma de disco, com que se avalia o corpo e a cor do vinho e se lhe aprecia o aroma», na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. «De origem obscura», acrescenta, mas eu pergunto a mim próprio se não vem directamente do castelhano tembladera: «vasija ancha de forma redonda, hecha de una capa muy delgada de plata, oro o vidrio, con asas a los lados y un pequeño asiento».
[Texto 2800]

Léxico: «narsa»

Com que então falam assim

      «“A lei muda hoje? ‘Tamos feitos, temos de apanhar uma ganda narsa.” A reacção é imediata. Concha, Mar e Sebastião têm 16 anos e costumam sair entre uma vez por mês e sempre que não há aulas no dia seguinte, a regra de quase todos» («Nova lei do álcool. “Muda hoje? ‘Tamos feitos. Vamos apanhar uma ganda narsa”», Marta F. Reis, i, 2.05.2013, p. 26).
      Narsa ou nassa — ou moca. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o: «entorpecimento ou euforia induzido por drogas ou álcool; pedrada, ganza».
[Texto 2799]

Já há chefes

Até que enfim

      «No novo artigo, o cerco aperta: dado que a maioria dos chefes não cumpre, deverá haver maior colaboração com nutricionistas: “Uma vez que o público os valoriza como fonte de conhecimento, é essencial e uma responsabilidade profissional melhorarem as receitas”» («Chefes famosos. E se os pratos deles fizerem mal à saúde?», Marta F. Reis, i, 30.04.2013, p. 29).
      Vá lá, já vai havendo jornalistas que compreendem que não têm de usar o termo francês chef para se referirem aos cozinheiros profissionais. Nem tenho bem a certeza, mas creio que foi por sugestão minha que «chefe» (sim, o mesmo termo, mas aportuguesado), nesta acepção, passou a figurar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 2798]

Léxico: «bicho-de-prata»

Insecto tisanuro!

      O pintor diz que guarda tudo em caixinhas, e que embrulha todos os trabalhos em plástico para não lhes dar o bicho-da-prata. Não conhecia a palavra. Agora já sei que são os bichinhos que vejo aqui por casa de vez em quando. Nojentos, como quase toda a bicharada. Também conhecidos por lepisma ou peixinho-de-prata, únicos que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista. E não será antes «bicho-de-prata»?
[Texto 2797]

«Dissecação/dissecção»

Isto é que é fascismo

      O poeta-cantor, muito conhecido, escreveu «mesa de dissecção». Pré-acordo. O revisor, destes novos, alterou para «dissecação». Normalizou o texto. Isto é que é fascismo.
[Texto 2796]

Pronúncia de «intoxicação»

Pronúncia intoxicada

      «O restaurante espanhol El Celler de Can Roca, de Girona, foi eleito o melhor do mundo. O restaurante catalão é gerido na sala e na cozinha por três irmãos e tem três estrelas no Guia Michelin. Foi premiado numa selecção dos 50 melhores restaurantes a nível internacional realizada pela conceituada revista britânica Restaurant. Nos últimos dois anos, ocupou a segunda posição. O restaurante Noma, da Dinamarca, que liderou a classificação nos últimos três anos, perdeu o lugar em Fevereiro quando 63 clientes sofreram uma intoxicação alimentar» (Carla Trafaria, Bom Dia Portugal, 30.04.2013).
      Já todos ouvimos a palavra «intoxicação» ser erradamente pronunciada, como se o x valesse ch e não ks (como em anexo, crucifixo, maxilar, prolixo...). Ora, desta vez, a jornalista optou por uma terceira forma: /intossicação/. Se a conhecerem pessoalmente, digam-lhe.
[Texto 2795]

Arquivo do blogue