«Haver que»

«Áqueas», disse?

      Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, ontem à noite no programa de entrevistas De Caras: «Porque estas reformas estão feitas. Agora há que as executar, há que as pôr no terreno.»
      Fica mal, soa mal, pode e deve evitar-se. Leiam aqui os Paralipómenos I e II de Montexto. (E sim, arejemos a palavrinha, «paralipómenos»: com minúscula, é o aditamento em qualquer obra literária.)

[Texto 2449]

Léxico: «lampa»

Feliz erro

      «Estando a embaixada num apartamento de rés do chão, Assange tem uma lampa solar no quarto para compensar a falta de luz natural» («Discurso de Assange com “música, comida e vinho”», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 19.12.2012, p. 25).
      Mais um erro a resgatar do olvido completo uma variante popular do vocábulo «lâmpada». Lampa, pois bem. Palavra com vários sentidos, e deste o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ainda não se esqueceu. Mais uma infausta vez, porém, claro que foi o inglês a ditar o erro, pois pode ler-se na imprensa inglesa que no quarto de Assange há «a solar lamp and a treadmill». Vá lá, não traduziram treadmill por «moinho». «Foi instalada uma passadeira para Assange fazer exercício físico.» Acepção, reparo agora, que o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora não regista.
[Texto 2448]

«Corrector/corretor»

Por mim

      José Rodrigues dos Santos, escritor e jornalista, no Telejornal de ontem (20h41): «As tentativas de manipulação da taxa Libor pelo UBS envolveram o pagamento de subornos a vários correctores e podem vir a provocar outros processos contra o banco, caso os clientes afectados reclamem.» Grafo assim, com c, a palavra para indicar a forma como o jornalista a pronunciou, mas a verdade é que, também na RTP, deceparam os cc e os pp, pelo que seja o operador na bolsa seja o que corrige, para eles é tudo igual. O Prontuário Sonoro, também da RTP, regista a pronúncia de «corretor» (/kurrétór/), um duplo disparate. Não serei eu, com toda a certeza, que lhes enviarei mais correcções ou sugestões, pois vai para um mês que lhes comuniquei o erro crassíssimo do «uxorcida» e até hoje não o corrigiram. Uma vergonha. Talvez aquilo melhore quando for comprado pela Newshold.
[Texto 2447]

Ortografia: «veado-lavrador»

Tudo pela metade

      «A partir de hoje poderá ver de perto esta cria de veado lavrador, nascida a 4 de novembro na maternidade do Jardim Zoológico da Maia, Porto» («Veado espera por visitantes na maternidade... e por nome», Diário de Notícias, 20.12.2012, p. 23).
      Ficamos assim a conhecer o nome comum, em português, do Muntiacus muntjak reevesi. Ficamos também a saber que no Diário de Notícias não sabem aplicar as regras do Acordo Ortográfico de 1990, que tão pressurosamente adoptaram. Nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, ligadas ou não por preposição ou outro elemento, usa-se o hífen. Logo, veado-lavrador. E, a propósito, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ainda não regista «feijão-mungo». Não estão a conseguir dar vazão às sugestões...
[Texto 2446]


«Accionista fiduciário»

Uma questão de confiança

      «Ter “fiduciários” em cargos de gestão – ou seja, alguém que aparece no papel em vez dos verdadeiros gestores – é uma prática comum em paraísos fiscais. No caso da Pineview Overseas a informação pública disponível é apenas sobre a composição da empresa e nada existe sobre os proprietários nos registos oficiais disponíveis no Panamá» («Administradores da dona da Newshold ocupam cargos iguais em milhares de empresas no Panamá», Joana Gorjão Henriques, Público, 19.12.2012, p. 2).
      Aqui está usado como se fosse substantivo (e por isso das aspas, mas desnecessárias), mas não é, como se comprova por um trecho mais à frente: «A SFM Corporate Services S.A, empresa com sede na Suíça, diz no seu site que o “accionista fiduciário é designado para impedir que o verdadeiro proprietário da empresa seja associado publicamente à propriedade da empresa”» (idem, p. 3).
      O adjectivo «fiduciário» está relacionado, como logo se percebe, com confiança — que depende de confiança, que revela confiança —, mas a acepção usada no contexto é outra: «que faz as vezes de outro».

[Texto 2445]

Aprender francês

Pelo preço de um jornal

      «O primeiro-ministro usou o termo “minable” (miserável, deplorável) para classificar a decisão de Depardieu. “Quem é o senhor para me julgar assim?”, responde o actor, lembrando que começou a trabalhar aos 14 anos e que toda a vida pagou os seus impostos» («Depardieu renuncia ao passaporte», Público, 17.12.2012, p. 39).
      O objectivo há-de ser que aprendamos francês, ou para comprovarmos como está bem traduzido. Pelo menos é francês e não inglês.
[Texto 2444]

Como se escreve nos jornais

Este é vicioso

      «Hélder Rodrigues encara de frente o título no Dakar», Nuno Sousa, Público, 18.12.2012, p. 42). Vê-se logo que é um título do Público, pois claro. É pleonasmo, a não ser que os títulos tenham a cara nas costas, para fazerem esgares trocistas àqueles que os perseguem e a que eles, lábeis, escapam.

[Texto 2443]

Léxico: «radioastrónomo»

Podem registar este

      «O satélite norte-coreano lançado na semana passada está sem controlo e provavelmente deixou de funcionar, disse ao New York Times um astrónomo que segue a actividade espacial mundial. “Anda aos trambolhões e não lhe detectámos actividade”, disse ao jornal de Nova Iorque Jonathan McDowell, da Universidade de Harvard, explicando que os radioastrónomos procuraram seguir os seus sinais no espaço» («Satélite da Coreia do Norte estará avariado», Público, 18.12.2012, p. 23).
      Nunca os dicionários, pela sua própria natureza, estarão completos. Se quase todos acolhem o vocábulo «radioastronomia», quase nenhum regista «radioastrónomo». Lacuna que, de qualquer maneira, não se compreende.
[Texto 2442]

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