«Transplante capital»

Há quem precise

      «E não se pense que os homens ficam de fora nestas coisas. “Fiz uma lipoaspiração para tirar a gordura localizada da barriga, que não saia [sic] por mais ginásio que fizesse. Não gostava de me ver na TV com um pneu na barriga”, recorda ao DN o ator Heitor Lourenço, 45 anos, que também já se submeteu a “um transplante capital”» («Recorrem à medicina estética para enfrentar o espelho», Filomena Araújo e Nuno Pinto Martins, Diário de Notícias, 11.12.2012, p. 53).
      É uma brincadeira, um jogo verbal, evidentemente, mas sabe-se lá se os jornalistas o perceberam. Só pelo uso das aspas não podemos concluir nada, pois usam-nas muitas vezes de forma completamente irracional. E os leitores?
[Texto 2417]

«Mesoplastia»?

Mas existe mesmo?

      «A mesoplastia a que se submeteu em fevereiro – método de rejuvenescimento gradual, através da aplicação de agulhas – foi apenas um dos vários tratamentos estéticos a que Alexandra [Lencastre] já recorreu para melhorar a autoestima e se sentir melhor consigo própria. E a atriz não é caso único. Cada vez mais, quem vive da imagem recorre a ajuda especializada para encarar melhor o espelho e, sobretudo, as câmaras» («Recorrem à medicina estética para enfrentar o espelho», Filomena Araújo e Nuno Pinto Martins, Diário de Notícias, 11.12.2012, p. 53).
      Será mesmo «mesoplastia»? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista «meloplastia»: «cirurgia plástica da face». Já o Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora alarga a definição: «cirurgia plástica das bochechas ou cirurgia plástica dos membros». Este dicionário também regista o termo «metoplastia», «cirurgia plástica da fronte», que o Dicionário da Língua Portuguesa não regista. De «mesoplastia», nada.
[Texto 2416]

Tradução: «sinon»

Ora essa

      «Un nombre consideráble de tableaux, sinon tous, etc.», podia ler-se no original, e o tradutor verteu assim: «Um número considerável de quadros, se não todos, etc.» Neste caso, nem sequer basta pensar; não: basta copiar. A conjunção francesa sinon só pode traduzir-se, acho eu, por senão ou excepto. Já mais de uma vez tratámos aqui desta matéria.
[Texto 2415]

Tradução: «zombi(e)»

Semelhante e melhor

      «Douze ans d’une vie de zombi», lê-se no original, e o tradutor verteu «zombi» por... «zumbi». Nunca, confesso, tinha visto, ou já tinha e esqueci-me, o que é mais ou menos o mesmo. A crer no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é brasileirismo: «ente fantástico que, segundo a imaginação popular, vagueia pelas casas, a horas mortas». Do quimbundo nzúmbi, «espectro». Até agora, evitava sempre a palavra, substituindo-a por «morto-vivo».
[Texto 2414]

Léxico: «centão»

Melhorável

      Tudo é passível de melhorar. Por exemplo: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que centão é a «poesia feita de versos de diferentes autores», e não é. É a obra em verso ou prosa — e, por extensão, a obra musical — composta por excertos de um ou de vários autores. Este dicionário regista outrossim que o vocábulo vem do latim centōne, «manta de retalhos», o que não deixa de ser verdade, mas chegou-nos através do francês, quase de certeza.
[Texto 2413]

Léxico: «indigenização»

Se não existe, inventa-se

      «No primeiro dia do congresso do seu partido, a ZANU-PF, em Gweru, no centro, Robert Mugabe, de 88 anos, defendeu a “indigenização” total do capital estrangeiro, isto é, 100% devem estar nas mãos de naturais do país negros [sic]. Esta medida é fonte de desentendimento com o Governo de Morgan Tsvangirai. O país vota nova Constituição em 2013» («Capital estrangeiro será “indigenizado”», Diário de Notícias, 8.12.2012, p. 28).
[Texto 2412]

«Ribaldaria/rebaldaria»

Devia lá estar

      «“O PREC (Período Revolucionário em Curso) na Justiça tem de acabar. Não podemos estar sujeitos a esta rebaldaria.” Num tom crítico, o presidente do Conselho Distrital de Lisboa (CDL) da Ordem dos Advogados, Vasco Marques Correia, condenou a forma como estão a ser conduzidas vários processos judiciais, entre eles o que envolve Medina Carreira» («Ordem dos Advogados apresenta queixa na PGR», Sílvia Freches, Diário de Notícias, 8.12.2012, p. 5).
      Até o dicionário de Morais em «ribaldaria» remete para «rebaldaria», mas não, estranhamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que não regista este último.

[Texto 2411]

Como se escreve nos jornais

Há sempre pior

      «O nome Medina Carreira será, de acordo com fontes judiciais, um código criado por Francisco Canas, um dos arguidos do processo e que seria o angariador em Portugal de dinheiro para colocar na Suíça, que se encontra em prisão preventiva, para identificar outro cliente. Já Manuel Vilarinho, ex-presidente do Benfica, teve, de facto, uma ligação ao esquema. Mas antecipou-se e aderiu ao Regime Especial de Regularização Tributária (RERT), evitando qualquer tipo de acusação. Conclusão: nenhum dos buscados foi constituído arguido» («Buscas a casas de Medina Carreira e Vilarinho foram dois “tiros no escuro”», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 8.12.2012, p. 4).
      Então agora as pessoas alvo de buscas por parte das autoridades são «buscados»? Muito me conta, Carlos Rodrigues Lima. E não encontrou melhor redacção do que «colocar» dinheiro?
[Texto 2410]

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