Tradução: «miscarriage»

Ganha a maioria?

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, podemos ler no verbete «desmancho» que é o termo popular para «aborto». Todos os abortos? No volume 2 da Biblioteca de Formação Popular (1968), leio: «O aborto pode ser espontâneo ou provocado; o espontâneo, que ocorre no início da gravidez, é denominado vulgarmente de “desmancho”» (p. 209). O Houaiss em linha e a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, porém, afirmam (no caso desta, deduz-se) o contrário: desmancho é a interrupção voluntária da gravidez. Nos Estudos de Lexicologia do Português (Coimbra: Livraria Almedina, 1994, p. 55), Mário Vilela também afirma que «desmancho» é o aborto provocado. Que é a ideia que eu sempre tive. Cheguei aqui por causa da tradução do vocábulo inglês miscarriage, que o tradutor verteu por «desmancho», e, a avaliar pelo que vimos acima, mal, pois «when the interruption occurs spontaneously, it is clearer to refer to it as a miscarriage» (Maternal and Child Health Nursing: Care of the Childbearing and Childbearing Family, Adele Pillitteri. Filadélfia: Lippincott Williams & Wilkins, 2009, 6.ª ed., p. 555). Há-de haver, aposto, dicionários e outras obras que afirmarão que desmancho tanto designa o aborto espontâneo como o provocado.
[Texto 2249]

Vocativo e formas de tratamento

Então não acho

      «‘Avoid vocatives,’ thought Franz quickly.» Ora aqui está um bom conselho desta personagem de um romance (King, Queen, Knave) de Nabokov para quem não domina as formas de tratamento. E para quem não se quer mostrar inferior.
[Texto 2248]

Como se escreve nos jornais

Haja saúde

      «Por razões de saúde, Francisco José Viegas prepara-se para deixar nos próximos dias o cargo de secretário de Estado da Saúde. Segundo noticiou ontem a edição online do Expresso, citando um assessor de imprensa do governante, a sua substituição terá lugar na próxima semana» («Viegas deixa Secretaria de Estado», Diário de Notícias, 25.10.2012, p. 12). 
      Erro de simpatia, claro, mas antipático para nós, leitores. Mas não revêem mesmo nada, nenhum texto?
[Texto 2247]

«Sarjeta/sumidouro»

Senhores ladrões

      «Uma, duas, três, quatro. No espaço de 500 metros, treze sarjetas sem tampa. [...] A história passa-se na Avenida Rio de Janeiro, em plena capital portuguesa» (jornalista Sandra Claudino, no Telejornal de ontem). Contudo, o que aparece nas imagens é o que eu conheço por sumidouros. Sim, um sumidouro é uma sarjeta; uma sarjeta é que não é um sumidouro. Este é a sarjeta cuja boca se ajusta à superfície a drenar, o que confirmo no Vocabulário de Estradas e Aeródromos, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, publicado em 1962.
      Os senhores ladrões, como diz a outra, ao que parece vendem cada grade aos sucateiros por cerca de 3,5 euros, ou seja, a 19 cêntimos o quilo, porque têm cerca de 20 quilos. Se só não conseguem furtar as que estão presas com dobradiças, porque não são paulatinamente substituídas por grades com estas características?
[Texto 2246]

«Ilharga da cama»

Levo o aparador Henrique II

     À ilharga de no sentido de ao lado, ao pé já eu conhecia. «Fazia o mesmo no guarda-roupa; e, fechadas as portas e janellas, se deitava com uma espada ou montante á ilharga da cama» (Memoria Historica da Villa de Barcellos, Barcelinhos e Villa Nova de Famalicão, Domingos Joaquim Pereira. Viana: Tipografia de André J. Pereira & Filho, 1864, p. 30). Ontem, contudo, o antiquário referiu-se à barra da cama dessa forma. «Um recadinho, vinha por um recadinho, um pedido. Acabou por entrar, encostou-se à barra da cama que era de ferro» (Nocturno em Macau, Maria Ondina Braga. Lisboa: Editorial Caminho, 1991, p. 12). No Brasil, ao que parece, ao lado oposto à cabeceira dão o nome, que não vejo dicionarizado, de peseira.
[Texto 2245]

«Tarolo de borracha»

Vamos ouvindo

      Ontem, o engenheiro, não o queimado por mil sóis africanos, mas o outro mais novo, a quem eu chamo Tuck por causa do corte de cabelo, disse que a tubagem de ventilação nas coberturas superiores tinha de estar apoiada em «tarolos de borracha». Catacrese. Tarolo é o pequeno toro de lenha, o carolo da espiga do milho e a porção de terra ou outro material obtido por perfuração com sonda rotativa. É verdade que, momentos antes, só na minha presença, tinha sugerido sinoblocos para o mesmo fim, palavra que analisámos aqui.
[Texto 2244]

«Em linha»

Do economês

      Imaginemos esta frase: «Os dados, em linha com outras estimativas independentes, exibem um retrato dramático do estado das empresas gregas.» Isto não é economês puro? (Ah, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe o termo «economês»...) Se alguém do século XIX, para não recuarmos mais, ressuscitasse, entenderia o que significa? Será, por outras palavras, «em sintonia»?

[Texto 2243]

«Casamansa»

Eu lembro-me

      «O MNE da Guiné, Faustino Fuduti Imbali, disse entretanto que a ação dos homens vindos de Casamança não visava só atacar os Paracomandos, mas também as residências dos membros do Governo e das chefias militares para provar que as tropas dos países da Comunidade Económica dos Estados de África Ocidental (CEDEAO) não estão a fazer nada em Bissau e que é necessário a ONU autorizar a vinda das tropas da CPLP, fazendo regressar o contingente militar angolano que fora expulso de Bissau» («Bissau acusa Portugal por ataque a quartel», António Nhaga, Diário de Notícias, 23.10.2012, p. 24).
      Mas não escreviam «Casamansa»? Escreviam pois, que eu lembro-me: «Aquele local — próximo da vila de São Domingos, no Noroeste da Guiné-Bissau e junto à fronteira com o Senegal — está cercado há vários dias pelas forças militares de Bissau» («Bombas contra os rebeldes de Casamansa», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 14.4.2006, p. 14). O Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, é Casamansa que regista, na página 223.
[Texto 2242]

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