Léxico: «peitada»

Boa, Zé

      José Rodrigues dos Santos no Telejornal de ontem: «O jogo do Benfica com o Fortuna Düsseldorf foi interrompido por uma peitada: quando o árbitro ia expulsar Javi García, Luisão interveio e fez um contacto com o peito.»
      Alguma imprensa falou, impropriamente, em «encosto», mas as palavras existem para serem usadas. Peitada, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o embate de um peito com outro e o empurrão dado com o peito.
[Texto 1965]

Ortografia: «agrissilvipastoril»

Ominoso silêncio

      «Terras improdutivas sem dono, correspondentes às fragas, taludes ou alcantis e outras áreas sem características produtivas para fins agro-silvo-pastoris, etc.» Pena é os dicionários serem omissos nestas questões. O primeiro elemento é propriamente agri-, que, em forma de prefixo, não precisa de hífen para se ligar ao elemento seguinte. O segundo elemento, por sua vez, também é mais propriamente silvi-, que também se solda com o elemento que se lhe segue. Logo, agrissilvipastoril.
[Texto 1964]

Definição de «cadastro»

Não só os rústicos

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define cadastro como o «registo público dos prédios rústicos de uma localidade ou região, com discriminação da sua extensão, qualidade e valor». Ora, parece-me que a definição está errada. Apelo para os leitores especialistas em Direito. O que eu leio no DL 172/95, de 18 de Julho, é que cadastro predial é «o conjunto dos dados que caracterizam e identificam os prédios existentes em território nacional». Todos, não somente os rústicos. É assim?
[Texto 1963]

Deduções & escalrachos

Impressões

      «Dou um exemplo que ainda trago fresco na memória, acontecido comigo duas semanas depois de entrar no DN: aconteceu a 19 de maio de 1982, notícia no dia seguinte. Álvaro Cunhal tinha falado na evocação da morte de Catarina Eufémia, em Baleizão e, do discurso que me chegou, uma frase saltou-me aos olhos: “Este governo é um escalracho do regime e tem de ser arrancado.” Saborosa frase para título. (Fui primeiro ver ao dicionário o que significa a palavra, que nunca a tinha ouvido, embora deduzisse. O leitor, se não sabe, também tem de lá ir: trabalho para casa – TPC...) Lá fiz o título: “Governo é escalracho do regime e tem de ser arrancado” e, em pós-título “– disse Álvaro Cunhal em Baleizão, etc.”» («Quando Chapalimaud ‘regressou’ do Brasil só com nove letras...», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 11.08.2012, p. 47).
      Com todo o respeito, salvanor, não me parece que se possa deduzir o que significa «escalracho». Depois de se saber o que significa é que, perante aquela frase, se acha que teria sido fácil deduzir. Antes de se saber, é mais propriamente um berbicacho a pedir desempacho instante.
[Texto 1962]

«Intersectar/interceptar»

Assim está correcto

      «O princípio é o mesmo que está por trás das escutas telefónicas. Baseia-se na triangulação, ou seja, determinar uma localização a partir da distância a que se encontra de três satélites. “O que acontece é que se desenham três circunferências que se intersetam num ponto, que é a origem.” O projeto já mereceu a atenção de uma revista da Sociedade Americana de Física, mas a equipa quer explorar outros caminhos na área do marketing viral e das redes sociais» («Investigador português descobriu algoritmo que identifica a origem de uma mensagem», A. R., Diário de Notícias, 11.08.2012, p. 20).
      Já aqui tínhamos visto esta questão. Desta vez está certo: intersectar é cortar. Intersetar na nova grafia, mas na última página do Diário de Notícias, em entrevista ao investigador (Pedro Pinto, do Instituto Politécnico de Lausana, na Suíça), lê-se «intersectam». É como calha.
[Texto 1961]

«Descrição/discrição»

Confusões de todos os tempos

      «Caso tenha a sorte de se tornar um euromilionário, além do Gabinete de Apoio ao Alto Premiado poderá contar com a ajuda do seu banco. O Santander Totta, por exemplo, encaminha o cliente para “um gestor financeiro individualizado com capacidades e ferramentas para definir e executar estratégias de gestão de património que otimizem a relação rentabilidade/risco”. O gestor – asseguram-nos – poderá, ainda, deslocar-se a casa ou ao local de trabalho do cliente, permitindo maior conforto, descrição e confidencialidade no processo» («Sete cruzes aumentam 21 vezes hipóteses», Joana Capucho, Diário de Notícias, 10.08.2012, p. 14).
      Para fazer uma descrição, é claro que se recomenda que o gestor vá a casa do cliente. Para discrição, um hotel seria melhor. Acho eu.
[Texto 1960]

«O que não falta é/são»

Elas gostam de apanhar

      Quem é que disse que não podíamos ir para trás? Para a frente é que não podemos, porque não sei que disparates os jornalistas vão escrever amanhã. Mas ia escapando um de lesa-sintaxe: «E se estiver na região e o tempo não for um problema, então mais vale levantar-se bem cedo e rumar até ao Luso, onde o que não faltam são espaços verdes e a água fresca jorra livremente nas bicas da fonte do centro da vila» («Levar o farnel na cesta e pôr a mesa ao ar livre», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 2.08.2012, p. 48).
      Então agora já não somos capazes de identificar o sujeito da frase, a isso chegámos ou nisso estamos?
      «— Mas claro! Na praia, o que não falta são rapazes bonitos, verdadeiros Tarzans. É ou não é? E quero saber o seguinte: quando você vê um, nessas condições, você não me compara com ele? Confessa! Sim ou não?» (Elas Gostam de Apanhar, Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Agir, 2007, p. 123).
[Texto 1959]

Margem Sul

Divergências de família?

      «Todas as ligações fluviais entre a Margem Sul e Lisboa voltaram a parar ontem em dois períodos parciais, de manhã e de tarde, devido a nova greve dos trabalhadores do Grupo Transtejo (que opera as ligações entre Cacilhas, Montijo, Seixal e a Trafaria e Lisboa) e da Soflusa (empresa responsável pela ligação entre o Barreiro e Lisboa)» («Barcos no Tejo voltaram a parar ontem durante três horas», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 19.06.2012, p. 48). «Um pouco mais à frente na mesma rua, a Casa da Sorte também tem bastante afluência. Manuela Agostinho vem da margem sul, Fernão Ferro[,] e está em Lisboa porque foi a uma consulta com o marido» («Os 14 ‘jackpots’ já custaram 1,241 mil milhões em apostas», Sara Moreira e Marina Almeida, Diário de Notícias, 9.08.2012, p. 14).
[Texto 1958]

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