Definição: «colisionador | colisor»

Mais uma partícula


      Notícias do Grande Colisionador de Hadrões: descoberta uma nova partícula. «The new particle has been named “Xi-cc-plus”. Scientists have expressed hope that the particle – which is similar to a proton but four times heavier – will reveal more about the strange behaviour of quantum mechanics» («Large Hadron Collider discovers a new particle», The Hindu, 19.03.2026, p. II). 

      Como tu defines colisionador/colisor, Porto Editora («FÍSICA acelerador em que dois feixes de partículas, movendo-se em direcções opostas, se interceptam em vários pontos, provocando colisões a cada passagem»), mais parece uma brincadeira inconsequente dos cientistas. Então a natureza do dispositivo, a finalidade científica, o contexto técnico, a precisão terminológica? Mantendo ainda a brevidade, proponho ➜ colisionador/colisor FÍSICA tipo de acelerador de partículas em que dois feixes são acelerados em sentidos opostos e feitos colidir em pontos de interacção definidos, permitindo, por meio da análise dos produtos dessas colisões, detectar e estudar partículas elementares, incluindo partículas até então não observadas, e testar modelos fundamentais da física.

[Texto 22 662]


Léxico: «go | circunflexo»

Falta sempre qualquer coisa


      «Vinte anos depois, veio o algoritmo AlphaGo Zero, da Google DeepMind. Ele aprendeu o jogo oriental go sozinho, jogando contra si mesmo sem intervenção humana, e em poucos dias se tornou o jogador mais forte do mundo. O go é extremamente complexo, profundamente estratégico e com um número (10.170) quase inimaginável de posições possíveis. Mas ainda pudemos dizer que não passava de um jogo, muito longe do grau de sofisticação e profundidade de um grande teorema matemático» («IA chega à pesquisa matemática», Marcelo Viana [director-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, Prémio Louis D., do Institut de France], Folha de S. Paulo, 18.03.2026, p. A44).

      Não acredito, obviamente, que tenha sido lapso do autor. Apostava que foi, por descuido ou ignorância, na paginação ou na edição do jornal. Se o número de posições fosse apenas de 10 170, estaria muito longe de inimaginável. Não é impossível que o autor tenha optado pela notação 10^170, e com isso lixou-se. Só que isso proporciona-nos outra acepção de «circunflexo» que falta nos dicionários. Não o vejo no dicionário da Porto Editora, e por isso proponho ➜ circunflexo 3. MATEMÁTICA símbolo (^) usado para representar a operação de potenciação em notação linear, como em «10^170» («10 elevado a 170», isto é, 10 multiplicado por si próprio 170 vezes). 

      Mas voltando ao jogo: na realidade, esta informação deve servir — com tal objectivo a trouxe aqui — para densificar a definição de ➜ go jogo de tabuleiro de estratégia abstracto, de origem chinesa e particularmente popular no Japão, em que dois jogadores colocam alternadamente pedras pretas e brancas nas intersecções de uma grelha de 19×19 linhas, procurando conquistar território e capturar grupos de pedras do adversário; caracteriza-se por uma enorme complexidade estratégica, com um número extremamente elevado de posições possíveis (estimado na ordem de 10^170). 

      Portanto, sim, o go é muito mais complexo do que o xadrez, por várias ordens de grandeza. O número de Shannon mostra-o bem, mas claro que o revisor (e o editor) da Folha de S. Paulo não saberão nada disso. Talvez hoje o fiquem a saber.

[Texto 22 661]

Definição: «estradivário»

Mais uma afinação 


      «Nos séculos 17 e 18, Stradivari produziu mais de 800 instrumentos. A maioria deles são violinos, mas também há violoncelos, violões e uma harpa. [...] Curiosamente, esses violinos tendiam a ter sido produzidos durante a chamada Era de Ouro de Stradivari, aproximadamente de 1700 a 1725, período conhecido por instrumentos Stradivarius de qualidade particularmente alta» («Anéis de árvores revelam as origens dos célebres violinos Stradivarius dos séculos 17 e 18», Katherine Kornei, Folha de S. Paulo, 18.03.2026, p. A44). 

      Todo o artigo, e não somente o excerto, traz excelentes dados que permitem, e até convidam, a enriquecer a definição de ➜ estradivário MÚSICA instrumento de cordas (sobretudo violino, mas também viola, violoncelo ou harpa) construído por Antonio Stradivari (1644-1737) ou na sua oficina; caracteriza-se pela excepcional qualidade sonora e elevado valor histórico e comercial, sendo especialmente valorizados os exemplares da chamada «Era de Ouro» (c. 1700-1725), associados ao uso de madeiras seleccionadas, nomeadamente abeto de regiões alpinas do Norte de Itália.

[Texto 22 660]

Léxico: «varano-malaio»

Falta-te este varanídeo


      «Se por instantes parece que os dinossauros estão de regresso à Terra não é por acaso. Afinal, é isso mesmo que a palavra dinossauro quer dizer: lagarto terrível (do grego ‘deinos’ + ‘sauros’. Este varano-malaio [Varanus salvator] – uma espécie que pode atingir os dois metros de comprimento e pesar 20 quilos – estava com fome e decidiu atacar um caixote do lixo em regime de self-service» («Indonésia. Dinossauro dos tempos modernos», «Versa»/Nascer do Sol, 6.02.2026, p. 10).

[Texto 22 659]

Léxico: «sadu | vixnuíta»

Verdades de Sacatrapo


      Este aqui não sabe que se escreve «sadu» em português. No blá-blá-blá é que eles são bons. «Falar é fácil porque não há palavra que não se deixe dizer», já sentenciava Sacatrapo. O pior é escrever. Paciência. O dicionário da Porto Editora afiança-nos que é a «designação de um asceta mendicante na Índia». Estranha definição, diga-se, a começar por «designação». Assim, proponho ➜ sadu RELIGIÃO asceta hindu que renuncia à vida material e aos vínculos sociais para se dedicar à prática espiritual, à meditação e à libertação (moksha), vivendo frequentemente de esmolas; pode pertencer a diferentes tradições devocionais (como as vixnuítas ou as xivaítas) e caracteriza-se por um modo de vida itinerante e austero.

[Texto 22 658]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Parece-me ocioso argumentar por que razão se deve preferir «vixnuíta» a «vixnuísta», mas o caso nem sequer é esse, Porto Editora: é que, como outros dicionários, acolhes «xivaíta» e «xivaísta». Logo...


Definição: «rede social»

Pois, não me parece


      Redes sociais. Ora bem, nos dicionários de outras línguas há, em geral, duas tendências claras: separação explícita entre o conceito sociológico e o uso digital e maior precisão terminológica. A Porto Editora, neste caso (e em muitos outros, como já aqui vimos), opta por uma via que traz muitos inconvenientes, que é a de autonomizar o verbete. Contudo, encontramos no verbete «rede», por exemplo, «rede de dados». Era nesta boa companhia, e onde 99 % dos falantes a vão procurar, que eu poria a expressão. 

      Quanto ao conceito em si: vejamos, há redes sociais há séculos e séculos, não nasceram com a informática ou a internet. Tendo em vista tudo isso, proponho ➜ rede social 1. SOCIOLOGIA conjunto estruturado de relações entre indivíduos, grupos ou organizações, estabelecidas com base em interacções, interesses ou vínculos comuns; 2. INFORMÁTICA plataforma digital que permite criar, manter e tornar visíveis redes sociais, mediante a partilha de conteúdos e a interacção entre utilizadores.

[Texto 22 657]

Miguel Ângelo, pois claro

Aleluia!


      «Das 391 figuras do fresco, muitas estão nuas ou seminuas, o que causou escândalo na época, levando a que fossem cobertas com panos pintados sobre a obra original, após a morte de Miguel Ângelo» («“Juízo Final” volta a ganhar brilho», Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 32). 

      Vá lá. São o reduto, os jornais, porque já há editoras a «aconselharem» a escrevê-lo sempre em italiano. Que estupidez... Até em Itália estarão a comentar: «Ma che cazzo, pare che alla fine i portoghesi sappiano scrivere in portoghese.»

[Texto 22 656]

Léxico: «sessão-relâmpago»

Mais relâmpagos


      Foi a tempo para o dicionário como segundo elemento invariável. «A votação na CCJ não estava prevista na pauta e foi realizada em poucos minutos, em um momento de reunião já esvaziada. O método motivou protestos da oposição» («CCJ do Senado aprova fim da escala 6x1 em sessão-relâmpago sem combinar com o governo», Caio Spechoto e Mariana Brasil, Folha de S. Paulo, 11.12.2025, p. A22).

[Texto 22 655]

Arquivo do blogue