Léxico: «esqueletizado»

A beleza do mecanismo


      Só tenho um relógio esqueletizado, um Hruodland Pilot, um excelente relógio mecânico chinês com uma reserva de marcha de 72 horas. O que vejo é que esta acepção tão específica do termo não está nos nossos dicionários, pelo que proponho ➜ esqueletizado RELOJOARIA diz-se de relógio, ou do respectivo movimento, cujas placas e pontes foram recortadas ou vazadas, de modo a tornar visíveis os componentes internos (rodas, molas, balanço, etc.), através do mostrador, do fundo ou de ambos, sem comprometer o funcionamento.

[Texto 22 881]

Como se traduz por aí

Falsos amigos para falsos tradutores


      «He picked up his service pistol, a 9 mm Walther P38, from the dressing table, checked the action, and slotted it into his holster.» Para o tradutor, é «verificou a acção», sem dedicar meio segundo a pensar se isso fazia sentido.

[Texto 22 880]

Definição e etimologia: «Eleutérias»

Ainda bem que isto apareceu


      «“Eleutéria”, que em grego – eleuthería – significa “liberdade” estará exposta no cruzamento da Avenida da Liberdade com a Rua Barata Salgueiro. A peça foi desenvolvida em parceria com o designer Nuno Lacerda e representa, de forma simbólica, a instabilidade de regimes autoritários» («“Eleutéria”: a cadeira que “nasceu para cair” marca o 25 de Abril em Lisboa», Teresa Almeida, Rádio Renascença, 25.04.2026, 10h20, itálico meu).

      É como a jornalista diz, o grego ἐλευθερία (transliterado eleuthería) é o substantivo que designa «liberdade», «condição de ser livre», tanto no plano político como pessoal. Deriva do adjectivo ἐλεύθερος (eleútheros), «livre». Não temos o nome comum, mas a Porto Editora regista Eleutérias, as «festas em honra de Júpiter libertador, para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano», mas não é bem, bem assim, porque não se restringiam ao contexto romano; porque não eram sempre para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano, eram antes celebrações da liberdade, frequentemente associadas a vitórias, sim, mas não redutíveis a essa fórmula; porque a referência a Júpiter libertador é enganadora. Assim, proponho ➜ Eleutérias festividades da Grécia antiga, especialmente as de Plateias, celebradas em honra de Zeus Eleutérios («Libertador») para assinalar a vitória sobre os Persas (479 a. C.) e a consequente libertação, com carácter comemorativo e agonístico. 

      Quanto à etimologia completa, passa por explicar que vem do grego Ἐλευθέρια (Eleuthéria), plural substantivado de ἐλευθερία (eleuthería) «liberdade», termo que designa, por extensão, festividades associadas à libertação; passou ao latim como Eleutheria, -orum, nome de festas comemorativas, donde o português erudito «Eleutérias». 

[Texto 22 879]

Sobre «palestino»

Princípio de Muphry, é isso 


      «Causou polémica a afirmação da comentadora da SIC, Maria João Tomás, de que Jesus era “palestino”. Na língua portuguesa, dizer que um palestiniano é “palestino” equivale a designar um francês como ‘franço’, ou um português como ‘portuga’. Mas não se pode exigir que uma professora universitária domine a própria língua. Sobretudo quando domina algo muito mais importante: a solução dos problemas mundiais» («Jesus até foi islâmico – e votaria em Seguro», João Cerqueira [escritor], Nascer do Sol, 30.01.2026, p. 41). 

      Eu não sei como não cai o céu quando se fazem afirmações tão estúpidas. Só ali as vírgulas a isolarem o nome da comentadora da SIC já dizem muito sobre o domínio da língua. Vamos lá ver: não se tem de ter sempre um cuidado acrescido quando estamos a fazer uma crítica? Então e não havia a porra de um dicionário, de um vocabulário, de uma enciclopédia, a internet? Veja se não encontra «palestino»/«Palestinos» imediatamente a seguir a «palestiniano»/«Palestinianos» na página 746 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Em todos os dicionários, aliás. Também não deixa de me espantar que nos jornais se publiquem textos deste jaez. Há-de dizer-se que decorre da mera liberdade, mas no caso parece mais que é dar corda para alguém se enforcar. Em última instância, no entanto, quem se lixa sempre são os leitores, que pagaram e têm de ler estes disparates e que, em alguns casos, por falta de preparação, por falta de discernimento, os vão repetir. 

[Texto 22 878]

Léxico: «barquinha»

Não só as dos aeróstatos


      Na semana passada, uma empresa de arboricultura em meio urbano, escalada e poda selectiva de árvores ornamentais, árvores de grande porte e árvores monumentais, a Árvores & Pessoas, andou aqui na avenida a tratar de todas as árvores. Entre os diversos equipamentos, usavam aquelas plataformas chamadas ➜ barquinha designação corrente de dispositivo elevatório instalado sobre viatura, constituído por braço articulado ou telescópico que sustenta uma pequena plataforma ou cesta destinada a elevar pessoas para trabalhos em altura (manutenção eléctrica, poda, telecomunicações, etc.), podendo atingir vários metros de elevação; no uso técnico, a designação refere-se mais estritamente à própria cesta.

[Texto 22 877]

Definição: «optoelectrónica»

Weniger Licht!


      Viram bem: a a optoelectrónica não é só a «disciplina que estuda e desenvolve tecnologia eletrónica capaz de interagir com luz». Demasiado vaga. E mal orientada: «interagir com luz» diz muito pouco e pode abranger praticamente tudo, do sensor mais rudimentar a um simples interruptor fotoeléctrico. Não pode ser. Falta-lhe o núcleo conceptual da área. Assim, proponho ➜ optoelectrónica TECNOLOGIA ramo da ciência e da engenharia que estuda e desenvolve dispositivos e sistemas que convertem radiação luminosa em sinais eléctricos, e vice-versa, incluindo a sua detecção, emissão e modulação, com aplicações em comunicação, medição, imagem e controlo. 

      O caso obriga-nos a dizer o contrário de Goethe: não mais luz, mas menos luz. Que foram, bem sei que sabem, as derradeiras palavras de Goethe; mas esperemos que não venham a ser as nossas últimas: ainda fazemos falta a muita gente. Muita não; alguma.

[Texto 22 876]

Léxico: «convoo | optrónica | optrónico»

Aprendamos


      «A Marinha receberá nesta sexta-feira (24) a primeira fragata construída no Brasil desde 1980. A entrada em operação da F200 Tamandaré é a culminação de mais um capítulo do atribulado processo de compras militares no país, e coincide com uma nova perspectiva para a Força» («Marinha recebe 1.ª fragata em 46 anos e ganha impulso com guerra no Irã», Igor Gielow, Folha de S. Paulo, 24.04.2026, p. A12). 

      Uma imagem com legendas desta nova fragata indica o nome de algumas partes e equipamentos, e entre eles ➜ convoo Brasil MARINHA convés de um navio destinado à operação de aeronaves, servindo de pista para aterragem e descolagem e de área de estacionamento, nomeadamente de helicópteros. 

      E também aparecem indicadas umas alças optrónicas, daí eu propor ➜ optrónico TECNOLOGIA relativo a sistemas que integram óptica e electrónica para captação, tratamento e análise de radiação luminosa, nomeadamente em dispositivos de observação, medição ou aquisição de alvos; optoelectrónico.

[Texto 22 875]

Definição: «geofagia»

Macacos me mordam!


      «Los famosos monos del Peñón de Gibraltar [macaco-de-gibraltar] han desarrollado un comportamiento sorprendente a la par que astuto para sobrevivir a su dieta: ingerir tierra de forma intencionada para aliviar los efectos digestivos de la comida basura que consumen debido al contacto diario con turistas. Así lo revela un estudio liderado por la Universidad de Cambridge, que documenta por primera vez la práctica habitual de la “geofagia” en esta población, la única de monos en libertad en Europa» («Monos de Gibraltar comen tierra para digerir la comida basura», La Razón, 24.04.2026, p. 58).

      Não sei para que são as aspas na palavra. Enfim, lá como cá, é assim que entendem as coisas. Mas a geofagia também não é só o que os dicionários dizem, o hábito patológico de comer terra ou argila. Longe disso, pelo que proponho ➜ geofagia MEDICINA, ZOOLOGIA hábito de ingerir terra, argila ou outros materiais do solo, observado em humanos e noutras espécies animais; no ser humano, pode associar-se a perturbações alimentares, carências nutricionais ou práticas culturais. 

      Sim, não faltam casos, de África até aos Estados Unidos da América, de geofagia ligada a práticas culturais, sem nenhuma conotação patológica. E não faltam estudos.

[Texto 22 874]


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P. S.: Para quem quiser, seja ou não lexicógrafo, aprofundar o conhecimento destes casos, deixo quatro hiperligações: a primeira para o documentário Eat White Dirt (2015), sobre o consumo de caulino no Sudeste dos Estados Unidos; a segunda para o estudo «Geophagy: An Anthropological Perspective», que enquadra o fenómeno em termos culturais e adaptativos; a terceira para o projecto de investigação «Kaolin-Linked Appetites and Edibles (KLAE)», dedicado à geofagia no Sul dos EUA; a quarta para o ensaio Eating Clay at the Bend of the Road, sobre a persistência desta prática na cultura afro-americana.


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