Sobre «rotundo»

Vão ver que não

      Há sempre uma primeira vez: um autor português escreve aqui «um rotundo sim». Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «rotundo» é somente redondo e, em sentido figurado, gordo, obeso. Não chega, não explica nada. Já para o Dicionário Houaiss, «rotundo» é, além de, em sentido próprio, redondo, esférico; em forma de círculo, circular, em sentido figurado é o que soluciona, decide; que encerra uma questão, uma pendência; decisivo, categórico, peremptório. Claro que o sim também pode ser quase tudo isto, não me parece é que possa ser rotundo. Posso estar enganado (como hoje quando enfiei pela Sousa Loureiro quando queria ir para a Barjona de Freitas), mas este «rotundo» vem da forma como fica a boca ao pronunciar a palavra «não». Rotunda, redonda, aberta, hiante. Experimentem agora pronunciar a palavra «sim» da mesma maneira para ver se são capazes. Ridículo.
[Texto 2489]

Acordo Ortográfico

Portugal, 2016

      «Em 2016, eis um cenário muito possível: Angola manterá a ortografia existente anterior ao “Acordo”. Portugal seguirá, se não conseguir inverter o statu quo, o pobre “acordês”. E o Brasil terá entretanto revisto e certamente “melhorado” o “Acordo”, escrevendo numa terceira ortografia. Resumindo: cada qual escreverá de sua maneira, e ter-se-á esfrangalhado a ortografia comum que, até agora, era seguida por todos os países lusófonos, com excepção do Brasil. Ou seja: será um verdadeiro “acordo português”, em que ninguém sabe acordar» («Nem gregos nem troianos: assim-assim», Helena Buescu, Público, 8.01.2013, p. 47).
[Texto 2488]

«Em linha»

Está quase

      «A página original, reproduzida na Vanity Fair, dizia: “Esta é a terceira nomeação de Sharen Davis, que tinha sido anteriormente nomeada por Dreamgirls (2006) e Ray (2004)”. A página esteve pouco tempo em linha (na sexta-feira, dia 4) e foi substituída por um inócuo anúncio a lembrar que “as nomeações serão anunciadas no dia 10 de Janeiro de 2013”. [...] Se não parece haver dúvidas de que a página que chamou a atenção da Vanity Fair foi colocada em linha por erro, é já bastante menos claro que se deva concluir que Davis será mesmo nomeada. Uma fonte da Academia de Hollywood citada pela revista online Atlantic Wire explica que são criadas páginas para “todos os possíveis nomeados”, e que o aconteceu [sic] é que uma delas foi colocada em linha por engano. E há um bom argumento em favor desta explicação: problemas no sistema informático usado na recolha de votos para as nomeações levaram a Academia a prolongar o prazo de votação, que só terminou no dia 5, ou seja, já depois de a suposta fuga de informação ter estado em linha» («Academia de Hollywood deixou escapar nomeação de estilista?», Público, 7.01.2013, p. 48).
[Texto 2487]

«Arriar a bandeira»

Só calhou a vez ao calhau

      No dia 10 do mês passado, sugeri ao Departamento de Dicionários da Porto Editora que no verbete «arriar» incluísse a locução arriar a bandeira. É que o Dicionário da Língua Portuguesa acolhe outra locução — e menos usada, convenhamos: arriar o calhau. Até agora, nada. Entretanto, continuo a ver todas as semanas a calinada «arrear a bandeira». Todas as semanas, há meses.
[Texto 2486]

Léxico: «panilas»

Se fosse do quimbundo...

      «A mulher soltou-me o braço com um sonoro muxoxo: “Panilas! Todos os pulas são panilas.” Estalaram gargalhadas. Havia mais gente ali. Vultos encostados às paredes» (Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009).
      São assim os nossos dicionários: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «muxoxo» – do quimbundo, note-se –, mas não «panilas». Ah, sim, e «pula» na acepção do texto, pessoa de raça branca, até pode derivar do verbo «pular», mas é termo angolano.
[Texto 2485]

Léxico: «yé-yé»

Ora não sei porquê

      Ou yeyé, ou ieié... Enfim. Não está em nenhum dos dicionários que consultei. Vem do francês e há-de ser, como chachachá, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe, de origem onomatopeica.
[Texto 2484]

Palavra de 2012

Venceu a insensatez

      «É o estado de espírito do país que durante 2012 andou às voltas com a troika. Não será por isso de estranhar que “entroikado” tenha sido eleita a palavra do ano numa votação organizada pela Porto Editora. O adjectivo não terá sido usado com muita frequência, mas é a palavra que parece representar melhor o ano que acabou agora» (“Entroikado” é a palavra num ano de crise, cortes, impostos e desemprego», Cláudia Carvalho, Público, 5.01.2013, p. 26).
      E não, não terá sido usado com muita frequência, se é que alguma vez se usou. Nunca esteve na presença dos meus ouvidos ou dos meus olhos.
[Texto 2483]

Como se fala nos tribunais

Assim mesmo

      «João Aibéo aproveitou ainda as alegações finais para deixar um lamento: “O Ministério Público aguentou estoicamente ao longo destes oito anos [de julgamentos] afirmações absolutamente inadmissíveis”, afirmou, recordando o dia em que Sá Fernandes lhe lançou um shame on you — assim mesmo, em inglês e em plena audiência» («Carlos Silvino tem “complexos de homossexualidade”, acusa procurador em julgamento», Ana Henriques, Público, 4.01.2013, p. 8).
      Assim mesmo – sim, porque em português não há, como é sabido, palavras que cheguem para exprimir tal coisa.
[Texto 2482]

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