«Homicídio por negligência»

Negligência, sim

      «O processo aos cientistas acusados de homicídio na sequência do terramoto ocorrido em 2009 na cidade de Áquila, em Itália, que matou 309 pessoas, conheceu ontem o veredicto. Os seis cientistas italianos e um ex-oficial do Governo foram acusados de “negligência e imprudência” por não terem fornecido com exatidão dados sobre o terramoto, de 6,3 de magnitude, que provocou a morte de várias pessoas. O tribunal regional onde estavam a ser julgados condenou-os a seis anos de prisão por “homicídio por imprudência”, avançou a AFP. Em protesto, o advogado de um dos acusados, Alfredo Biondi, disse que “não se pode julgar a ciência”» («Cientistas condenados por terramoto», Diário de Notícias, 23.10.2012, p. 27).
      A imprensa italiana fala em omicidio colposo (na verdade, omicidio colposo plurimo e lesioni colpose), que se poderá traduzir por homicídio por negligência. Hoje de manhã, no Bom Dia Portugal, o jornalista João Tomé de Carvalho foi nestes termos que se exprimiu. E será mesmo um «ex-oficial do Governo», como também este jornalista disse, ou «responsável governamental»?
[Texto 2241]

«Crise dos mísseis»

Importante, mas

      «No seu texto, Fidel aproveita ainda para lembrar a Crise dos Mísseis, de há 50 anos. “Cuba não teve nada a [sic] ver com a arma nuclear”, escreve, acrescentando que a conduta da ilha foi “eticamente inatacável”. Lembrando que só aceitou a ajuda russa para se defender dos planos dos norte-americanos de invadir Cuba, Fidel conclui: “Nunca pediremos desculpa a ninguém pelo que fizemos. A verdade é que já passou meio século e continuamos aqui, de cabeça erguida”» («Fidel: “Nem me lembro o que é uma dor de cabeça”», Susana Salvador, Diário de Notícias, 23.10.2012, p. 26).
      Será que a expressão realçada a amarelo merece as maiúsculas iniciais? Não me parece — nem nunca antes tinha visto.
[Texto 2240]

Sobre «amiguismo»

Agora sim

      «Ou seja, [Alberto da Ponte] contrata sem fazer concurso, sem cuidar da existência de outras empresas que fizessem o mesmo trabalho por um preço mais baixo. Erro: não se escapou de acusações de amiguismo por parte da Comissão de Trabalhadores da empresa que agora dirige» («Falsa partida», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 22.10.2012, p. 52).
      Há dois anos, eu escrevia aqui que, se quiséssemos mesmo ler uma definição do vocábulo «amiguismo», tínhamos de consultar um dicionário espanhol. Agora já não é assim, pois o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o: «preferência dada a alguém que tem poder a familiares ou amigos, independentemente do seu mérito pessoal; favoritismo».
[Texto 2239]

«Copeque», mas já foi «copeca»

Contou o Pápotchka

      Numa loja, duas senhoras conversavam esta manhã: «O arroz-doce ainda está em promoção, e por isso continua a não haver.» Fez-me lembrar aquela anedota do preço dos ovos na antiga União Soviética. Uma senhora entra numa loja e pergunta o preço dos ovos. O merceeiro responde-lhe que estão a 30 copeques a dúzia. «Ali na loja em frente estão a 26!» «Então porque não vai lá comprá-los?» «Não têm, estão esgotados.» «Pois então, quando eu não tiver, também os vendo a esse preço.»
      Em português, a centésima parte do rublo já se escreveu «copeca», que é a forma ainda hoje usada em castelhano.
[Texto 2238]

Símbolos de unidades de medida

Está na hora

      «O paraquedista caiu de bruços em terra batida perto de uma ruína e à velocidade calculada de mais de 300 kms./hora. O salto previa uma queda livre durante 20 ou 30 segundos, a que se seguiria a abertura do paraquedas» («Paraquedista inglês morto era um praticante experiente», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 22.10.2012, p. 20).
      O jornalista não terá nunca tido notícia de que os símbolos técnicos não têm plural nem são seguidos de ponto abreviativo?
[Texto 2237]

A língua no dia-a-dia

2280 sem IVA

      Um «comercial» da oficina de caixilharia de alumínio veio aqui ao prédio tomar as medidas para uma porta nova com as caixas de correio para fora. Quase um executivo. Com iPhone. Instantes depois, já me estava a entregar a declaração de conformidade, o título de registo da empresa e o orçamento, no qual se lê que são «22 caixas do correio formato A4 omolgadas pelos C. T. T.». Não lhe será adjudicado o trabalho, não por ter amolgado a ortografia, mas porque já tenho um orçamento que se fica pelos 1900 euros.

[Texto 2236]

Dr. Hífen, traído

Nasceu um novo topónimo?

      Todos já ouvimos ou lemos Entre-Douro-e-Minho. Apareceu algo parecido. Foi nesta sinopse, que se pode ler no sítio da Leya, da obra Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, de Paulo Feytor Pinto: «Neste livro apresentam-se todas as regras da ortografia em vigor em Portugal segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, de 1990. Tal significa que inclui as regras que constituem novidade e que, por isso, estão devidamente assinaladas a vermelho, mas também as regras que se mantêm inalteradas. Além disso, diante da possibilidade de dupla grafia no conjunto dos países de língua oficial portuguesa, apresenta-se aqui a ortografia a utilizar em Portugal, em contextos formais, de acordo com a pronúncia da norma culta do português europeu, baseada no dialeto de entre-Lisboa-e-Coimbra, de acordo com o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa.»
[Texto 2235]

Esqueceram-se do «pôr»

É inadmissível que se escreva assim

      «Rosário Rodrigues, desempregada de 44 anos, não tem medo do trabalho duro da agricultura. Instalada desde 2007 na aldeia de Pedra do Altar, no concelho de Proença-a-Nova, há muito que se agarrou à terra para dela tirar muito do que coloca na mesa, onde se senta com a filha» («O mercado onde o campo entra no saco de quem compra», Célia Domingues, Diário de Notícias, 21.10.2012, p. 32).
      «Coloca na mesa»! Como é que um jornalista pode escrever assim? Ouviu alguma vez os pais ou os avós falarem assim? Isto está a merecer uma petição no Facebook (que nunca será subscrita por mim, porque não estou no Facebook).
      «— O que eu disse, basta. E se o senhor entendeu, para que dizer mais? Monsenhor põe na mesa a mão enorme» (O Casamento, Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Agir, 2006, p. 175).
[Texto 2234]

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