«À vista desarmada/a olho nu»

E com aspas... Safa!

      «A proteção especial sugerida pela ARH visava evitar o impacte do estacionamento continuado na degradação ainda mais acelerada dos muros. Foi há um ano. Certo é que nem condutores nem as autoridades estão a cumprir as normas impostas. As anomalias são visíveis “a olho nu”: grandes fendas nos muros, desnivelamento de passeios, pavimento irregular» («Excesso de areia no Mondego ameaça muros ao longo do rio», Paula Carmo, Diário de Notícias, 20.10.2012, p. 19).
      «Quando se detetam gases como metano ou o etano num determinado ambiente, não é possível perceber à vista desarmada se eles foram produzidos por organismos vivos, ou se resultam simplesmente de processos geológicos» («Do Alentejo para Marte», Filomena Naves, Diário de Notícias, 20.10.2012, p. 33).
      E ambas na mesma edição. Já aqui vimos o que é nosso e o que foi emprestado. Emprestado a quem não precisava.
[Texto 2225]

Como se escreve nos jornais

Desmazelo

      «O rio [Mondego] tem 234 metros de extensão mas é na cidade de Coimbra que o perigo das suas águas volta à ordem do dia. “O assoreamento, que prejudica a prática de desportos náuticos, a navegabilidade do barco turístico [“Basófias”] e está a provocar danos nos muros, é um problema grave” admite ao DN o atual presidente da Câmara Municipal de Coimbra. “Não podemos deixar que aconteça uma desgraça em Coimbra”, alerta» («Excesso de areia no Mondego ameaça muros ao longo do rio», Paula Carmo, Diário de Notícias, 20.10.2012, p. 19).
      É verdade que há, com espanto o comprovo, algumas divergências sobre a extensão do rio Mondego, mas, ao que sei, ninguém jamais afirmou que era de 234 metros. Uma releitura a tudo o que escrevem não faria mal.
[Texto 2224]

Tudo é possível dizer

Não é assim?

      Tudo (ou quase...) é possível dizer nesta língua, por mais intricado: «Advertiu Angelino em que Preciosa chorava, e ela, que no seu reparo fez advertência, lhe disse» (Alegoria Sagrada intitulada a Precioza. Em que se descreve, com rara, e singular elegancia, a peregrinação da alma nesta vida, para a eterna. Escrita pela muyto Religioza Senhora Jozefa Téreza dos Serafins. Monja Cisterciense, em o Real Mosteyro de Odivelas. 1722, mss., 454 pp., 23 caps. ANTT: Manuscritos da Livraria, 2038).
[Texto 2223]

Não é «beneficiência»

Que lhe chegue a notícia

      Jornalista Fátima Marques Faria às 20h42 no Telejornal de ontem: «Ironia, humor e sentido de autocrítica. Este foi o menu principal de um jantar de beneficiência que ontem à noite juntou Barack Obama e Mitt Romney à mesma mesa.»
      Não está no Prontuário Sonoro este erro de todos os dias? Devia estar. Vou sugerir que o incluam.

[Texto 2222]

Sobre «conflitivo»

Mas não precisamos

      «Conflictivos», acabei de ler num texto em língua portuguesa. Mas conflictivo é espanhol (e mais próximo, como quase sempre nestas comparações, do étimo latino). Suponho, no entanto, que o autor consentirá somente em aspar o c, ficando «conflitivo», que até hoje só li em textos escritos por brasileiros. Para o Aulete, que o regista, é o «que tem caráter conflituoso, colidente; conflitante». Também «conflitante» nunca é visto por cá... A mesma língua, sim, mas com bastas diferenças.
[Texto 2221]

Sobre «misoginia»

Não para nós

      «O que é um misógino? É alguém que odeia mulheres, ou alguém que tem um preconceito profundo contra elas? O dicionário australiano Macquarie, considerado a autoridade no inglês da Austrália, resolveu mudar a definição, na sequência de um debate, quando a primeira-ministra, Julia Gillard, acusou o líder da oposição, Tony Abbott, de sexismo e misoginia. [...] E uma semana depois, surge novamente com a decisão do dicionário de mudar a definição de misoginia não só para “um ódio patológico às mulheres” mas também “um preconceito enraizado contra as mulheres”. A editora do dicionário, Sue Butler, explicou: “Havia uma definição, de ódio, mas não é assim que a palavra tem sido usada nos últimos 20, 30 anos, especialmente na linguagem feminista”, disse à rádio ABC» («A misoginia segundo Gillard já está no dicionário», Maria João Guimarães, Público, 17.10.2012, p. 23).
      Na Austrália e na língua inglesa, pois segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é o «horror ou aversão às mulheres», que é a acepção mais imediatamente derivada do étimo, e a «aversão patológica do homem ao contacto sexual com as mulheres».
[Texto 2220]

«Perguntado»

A ignorância é mãe de todolos erros

      Quem é que disse que não se podia escrever assim? «Demócrito, Philósofo de alta estatura, perguntado porque razão casàra com mulher pequenita, respondeu: Do mal, o menos» (Rafael Bluteau, in Vocabulario Portuguez & Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico, Brasilico, Comico, Critico, Chimico, Dogmatico, Dialectico, Dendrologico, Ecclesiastico, Etymologico, Economico, Florifero, Forense, Fructifero... autorizado com exemplos dos melhores escritores portugueses, & latinos..., Coimbra, no Colégio das Artes da Companhia de Jesu, 1712–1728, p. 543).
[Texto 2219]

«Preciso»

Parece invariável

      «Preciso. — Bons escritores cometem erros feios por falta de reflexão. Exemplo: “Para traduzir êsse poder de visão era-lhe preciso uma língua ágil e vibrante”.
      Correcto será: “Era-lhes precisa uma língua...”, assim como: “Para pregar o quadro na parede são-me precisos pregos e é-me preciso um martelo. Ao sapateiro são precisas tachas para pregar os tacões”. O adjectivo concorda com o substantivo em género e número, diz a gramática elementar; mas, como nas expressões é preciso trabalhar, é preciso viver (ou necessário, indispensável, etc.) parece invariável, esta aparência faz escorregar muita gente naquela incoerência» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 249).
[Texto 2218]

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