«Tribunal da magistratura»?

Como é?...

      Ora vejam esta: «O assassino do ex-líder da extrema-direita branca Eugène Terre’Blanche foi ontem condenado a prisão perpétua no tribunal da magistratura de Ventersdorp, Noroeste da África do Sul. Chris Mahlangu, que em 2010 matou Terre’Blanche na sua residência, nos arredores de Ventersdorp, com uma barra de ferro, trabalhava na fazenda da vítima e confessou o crime, que justificou com a falta de pagamento de salários e agressões sexuais» («Perpétua por morte de Blanche», Diário de Notícias, 23.08.2012, p. 26).
      «Tribunal da magistratura»? Sim, o Diário de Notícias não é o único jornal a traduzir desta forma, porque é disso que se trata, a denominação de língua inglesa, que é Circuit Court of the North West.

[Texto 1989]

Infinitivo

Mas relendo...

      «Avô e neta, que morreram durante um passeio pelo areal da praia do Salgado, na Nazaré, chamavam-se Lara Lewis e Brian O’Dwyer, de 5 e 66 anos, respetivamente, segundo o jornal The Guardian. Na página da Internet do Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico, os turistas ingleses são avisados para terem cuidado nas praias portuguesas e obedecer aos avisos dos nadadores-salvadores» («Londres diz aos turistas para terem cuidado», Joana de Belém, Diário de Notícias, 23.08.2012, p. 19).
       «São avisados para terem cuidado nas praias portuguesas e obedecer aos avisos»...
[Texto 1988]

«Marés vivas»

É adivinhar

      Tenho estado de férias e não sei, mas pergunto a mim próprio: terá algum meio de comunicação social explicado o que são marés vivas? Duvido. «As marés vivas assinaladas um pouco por todo o País, após a passagem do furacão Gordon pelos Açores, serão usuais para esta altura do ano, na opinião dos especialistas» («Agitação marítima vista como “normal” nesta época do ano», Joana de Belém, Diário de Notícias, 23.08.2012, p. 19). 
      As marés vivas — custava assim tanto explicar ao menos uma vez? — são as que se apresentam quando a Lua e o Sol estão em conjunção ou em oposição e trabalham ambos para levantar marés coincidentes. Mais explicações deviam ser pedidas aos tais especialistas.
[Texto 1987]

«Casa-de-banho»?

E quanto a revisão...

      Uma ortografia própria: «A explosão ocorrida em Castro Marim não tem ainda causas determinadas mas pode ter-se verificado por acumulação de gases numa divisão da casa, um quarto com casa-de-banho» («Explosão ainda por explicar mata dentista e dois filhos», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 23.08.2012, p. 18).
      Nem pensar: não era assim antes, não é agora assim e praza a Deus que nunca venha a ser assim. Já chegam as outras esquisitices da ortografia.
[Texto 1986]

Como se escreve nos jornais

Para o anedotário

      «O cadáver da dentista Luciana Garcia, já muito debilitado, como explicaram ao DN, foi encontrado “próximo da porta do quarto”, o que para os bombeiros indicia que a mãe das crianças ainda terá “tentado abri-la” após a explosão, para todos conseguirem fugir» («Explosão ainda por explicar mata dentista e dois filhos», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 23.08.2012, p. 18).
      Será que há cadáveres cheios de vigor e saúde? Será que os jornalistas não podem dedicar cinco minutos a reler o que escrevem?
[Texto 1985]

«Accommodation» e «facility»

Turismo e língua

      «Gostaria de saber a sua opinião», pergunta-me o leitor P. R., «sobre a tradução de accommodation por “acomodação” e facilities por “facilidades” ou “comodidades”. Por um lado, estou farto de ver “equipas de tradutores” como a do Booking.com (não, aquilo não é feito por tradutores automáticos, por incrível que pareça), a assassinar a língua portuguesa. Por outro, falta-me o espaço e a veia humorística que o Helder possui para reflectir adequadamente sobre o assunto.»
      Em relação a accommodation, Agenor Soares dos Santos escreveu: «Notar as diferenças entre este s. e “acomodação”, pois esta, assim como “comodidades”, em alguns casos não traduz inteiramente o cognato ing.» Com efeito, o termo inglês refere-se, simultaneamente, ao alojamento, à comida e a outros serviços em hotel ou estabelecimento semelhante («lodging, food, and services or traveling space and related services», lê-se no Merriam-Webster). Talvez não seja a pior tradução, ao contrário de «facilidades» por facilities. Demasiado fácil. Ainda assim, abstruso é, creio, traduzir, no mesmo texto, accommodation por «acomodação» e facilities por «comodidades». Se se não encontra correspondência num só termo, decerto que o recurso a uma expressão é sempre possível.
[Texto 1984]

Léxico: «braça»

Surpresa

      Na última página da edição de hoje do Correio da Manhã: «Um homem de 44 anos morreu ontem, em Lustosa, Lousada, ao ser atingido por uma braça de um pinheiro que tinha acabado de ser cortada» («Morto por pinheiro», Correio da Manhã, 22.08.2012). 
      De todos os dicionários que consultei, só o Dicionário Houaiss regista braça nesta acepção: «qualquer ramo secundário do tronco de uma árvore ou de um grande arbusto; braço».
[Texto 1983]

Como se fala na televisão

Para variar, com certeza

      Jornalista Rui Lagartinho, no Telejornal de 15 do corrente a propósito do êxito de vendas (o primeiro este ano, parece) As Cinquenta Sombras de Grey, de E. L. James: «O relato da iniciação sexual de uma jovem pelos caminhos do erotismo fetichista é o livro que as mulheres do hemisfério ocidental passam de mão em mão.» Hemisfério ocidental... não faz a coisa por menos. Diga lá onde é isso exactamente.

[Texto 1982]

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