Sobre «exorável»

Desde o século XVI

      «É tambêm de notar que nos ficaram e subsistem no uso corrente vocábulos compostos cujos simples não são de nosso idioma. Dizemos inulto (de in e ultus, vingado), e não dizemos o primitivo ulto, e, como êste, outros muitos exemplos: invicto, immundo (de in e mundus, limpo). De uso freqùente é inexorável, mas dá-se o caso de que exorável, de exorabilis, o que se deixa vencer com rogar (de os, oris), se emprega pouco ou nada» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 229).
      Espanta que ainda subsista nos nossos dicionários.
[Texto 1183]

Léxico: «montícola»

Semelhante, sem dúvida

      «A modernização levada a cabo no Douro terminou com muitas práticas agrícolas já testadas ao longo das décadas ou até séculos anteriores. Uma das mudanças foi a opção por porta-enxertos mais vigorosos e produtivos, em detrimento do porta-enxerto tradicional, o montícula, muito mais resistente. Outra foi a introdução do sistema de condução da vinha em cordão, que é mais fácil de trabalhar, mas que é mais exigente para a videira» («No Douro recuperam-se práticas antigas para enfrentar os desafios climáticos», Pedro Garcias, Público, 4.03.2012, p. 6).
      Não encontro em nenhum dicionário, somente «montícola», que, contudo, só está dicionarizado na acepção de que é criado ou vive nos montes ou montanhas. Vejo aqui, contudo, que ao porta-enxerto (termo que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe) de nome Rupestris du Lot (Rup. du Lot) também se chama montícola.
[Texto 1182]

«Para lá disso»

Para lá disso, pra lá disso, 
palradiço...

      «A diferença de Mounier estava em que, para lá disso, propunha simultaneamente uma espécie de “socialismo cristão”, com o objectivo missionário de regenerar o proletariado, horrivelmente oprimido por um capitalismo sem alma, e o reconduzir a uma associação amigável de produtores (de patrões, claro, e de trabalhadores), ou seja, de uma forma qualquer de corporativismo» («Obra meritória», Vasco Pulido Valente, Público, 4.03.2012, p. 56).
      «Para lá disso». Não é lá muito eufónico, valha a verdade. Podia ser pior, olá se podia: «para além disso». Contudo, o simples mérito relativo não chega.

[Texto 1181]

«Em boa verdade»

Pois é

      Repórter José Ramos e Ramos, no Telejornal de anteontem: «Cortam-se os legumes, pica-se a cebola, mas não estamos num restaurante. Em boa verdade, estamos no Mercado Municipal de Alvalade, em Lisboa.» As expressões em boa verdade e na verdade são sinónimas? Então porque é que eu não me vejo a usar a primeira, deveras curiosa, no contexto acima?
[Texto 1180]

AOLP90: um mal-entendido

Desgosta de algumas regras?

      «O novo acordo ortográfico», disse a jornalista Diana Palma Duarte no Telejornal de anteontem, «abala agora a Associação de Professores de Português. Não gostaram de saber que o secretário de Estado da Cultura desgosta de algumas regras e admite ajustamentos em alguns casos. Para Francisco José Viegas, as palavras geraram um mal-entendido. “Há uma leitura abusiva das declarações que eu fiz, e uma descontextualização clara dessas declarações. Aquilo que para nós é evidente é que existe um acordo ortográfico que está em vigor, e portanto, está em vigor desde 2012, e isso não está em causa, nunca esteve em causa nem poderá estar em causa.” O período de adaptação ao acordo termina em Dezembro. Portugal não vai rever as regras e se ajustamentos estivessem nos planos teriam de passar por todos os países lusófonos.» Por isso é que é um acordo, pois claro.
[Texto 1179]

«Perdão/com licença»

Pardon me

      Às 8 da manhã, a minha filha já me estava a dar lições. Arroto (é do Penicillium roqueforti) e digo «com licença». «Não se diz “com licença”, papá, diz-se “perdão”.» «Neste caso, é igual», digo-lhe, mas ela tem uma teoria — ou mesmo uma tese, sei lá, Da Eructação e Formas Correlatas de Cortesia — e não se deixa convencer. Não hoje, pelo menos.
      «Parecia mais calmo, tornou a arrotar, até disse um “com licença” de bom agouro. Graças, meu Deus!» (O Pão não Cai do Céu, José Rodrigues Miguéis. Lisboa: Editorial Estampa, 1982, p. 154).

[Texto 1178]

Pronomes de tratamento

Vossa Beatitude

      No cartoon de Jeff Danziger que vem hoje na Pública, intitulado «Teologia moderna», o papa pergunta: «Que história é esta de o grande Presidente católico, John F. Kennedy, ter tido um caso com uma rameira de 19 anos?» «Bom», respondem-lhe, «é só a palavra dela sobre o caso, Vossa Senhoria». No original, «Well, there’s only her word that it happened, Your Grace...» Bem, quem traduziu não se preocupou em pensar nem em investigar. A forma de tratamento adequada é Vossa Santidade. Vossa Senhoria, que em Portugal não se usa, é de emprego praticamente residual, para autoridades não contempladas com tratamento específico.
      «A 19-year old trollop», lê-se no original. O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de trollop, um termo ofensivo, «prostituta; mulher desleixada». É pouco e fraco.
[Texto 1177]

«Lourinhanense»

Toma lá com a hapaxépia em cima

      «Carlos Lobo, da consultora Ernst & Young, e que foi secretário de Estado dos Assuntos Fiscais do Governo de Sócrates, é um lourinhanense por adopção. É ele quem tem dado apoio à autarquia no desenvolvimento deste projecto» («Lourinhã quer parque temático dedicado aos dinossauros em 2013», Carlos Cipriano, Público, 3.03.2012, p. 25).
      «Lourinhanense»? Isto não está a precisar que se lhe suprima uma sílaba? Não chega «lourinhense»? Imaginem: bondadoso, caridadoso, estendedal, idadoso, maldadoso, piedadoso, saudadoso, vaidadoso...

[Texto 1176]

Arquivo do blogue