Tradução

Mais enviesamentos


      «À ce jour, c’est la Société française de pédiatrie qui a publié le rapport le plus objectif sur cette question, n’hésitant pas à faire part des incertitudes et des enquêtes biaisées.» Então agora digam-me com qual das traduções, subtilmente diferentes, concordam e porquê.
  1. «Até agora, é a Sociedade Francesa de Pediatria que publicou o relatório mais objectivo sobre esta questão, não hesitando em falar das incertezas e dos inquéritos enviesados.»
  2. «Até agora, é a Sociedade Francesa de Pediatria que publicou o relatório mais objectivo sobre esta questão, não hesitando em falar de incertezas e de inquéritos enviesados.»

      Quanto ao enviesamento, já aqui falámos.

[Post 3661]

Léxico: «rádula»

Ganha o caracol


      Se não devemos, razoavelmente, esperar que os dicionários gerais da língua expliquem que o córtex está dividido em seis camadas, numeradas de I a VI e todas com uma designação específica, porque não são enciclopédias ou manuais de Medicina, já acho muito razoável que esperemos encontrar neles o próprio vocábulo «neocórtex». Consultemos, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009). Na página onde devia estar registado (p. 1115), esbarramos com o vazio entre «neócoro» e «neocriticismo». Deve ser por se tratar da área mais evoluída do cérebro... Em contrapartida, todos registam, por exemplo, o vocábulo «rádula», que designa o órgão semelhante a uma língua de muitos moluscos, entre eles o caracol. Munida de numerosos dentículos, serve para cortar os alimentos — plantas, que os caracóis são herbívoros. Qual o critério para estas exclusões? Falta de espaço? A sério? Por mim, dispensem o encarregado da guarda, limpeza e boa ordem dos templos, entre os pagãos.

[Post 3660]

Sobre «secreta»

Não é segredo


      Cara Luísa Pinto: isso acontece muito, mas não é necessário grafar entre aspas, já aqui o expliquei mais de uma vez. Veja dois exemplos. «O despacho foi ontem publicado em Diário da República e, a partir de agora, será Mário Mendes a resolver qualquer situação de conflito de competências entre as forças e os serviços de segurança — não só das polícias mas também as “secretas” e a Protecção Civil — que surja na operação» («Visita do Papa reforça poderes de ‘superpolícia’», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 18). «O Presidente norte-americano nomeou ontem um veterano do Pentágono como novo patrão das secretas dos Estados Unidos» («General veterano vai dirigir as secretas dos Estados Unidos», Público, 6.06.2010, p. 14). Bastava usar-se — mas alguns dicionários até já registam o termo «secreta» na acepção de polícia secreta, como é o caso da edição de 2009 do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (p. 1438, 1.ª coluna). Terceira acepção.

[Post 3659]

Sobre «doula»

Ainda ontem


      Lê-se no Ciberdúvidas: «Sou revisora de texto numa revista cuja especialidade é a gravidez. Há pouco tempo deparei-me com a palavra “doula”, de origem grega, que é a mulher que acompanha a recém-mãe após o parto. Esta palavra é utilizada em diversas línguas. A minha questão é se faz parte do léxico português. Não constando em nenhum dicionário, deverá ser encarada como um estrangeirismo?» A consultora Ana Martins respondeu: «Sim, a palavra está dicionarizada. Cf. doula no Dicionário Aulete Digital. Há estrangeirismos que estão dicionarizados e há-os que não estão, dependendo da avaliação de frequência empreendida pelo lexicógrafo.» (Não teceu qualquer consideração sobre a aberração «recém-mãe», indigna de uma revisora, ao contrário do que, sem qualquer dúvida, faria um consultor como José Neves Henriques.)
      A transliteração para o alfabeto latino da palavra grega correspondente dá doulē. Foi num estudo, «Mothering the mother: how a doula can help you to have a shorter, easier and healthier birth», de Marshall Klaus e John Kennell, datado de 1993, que o vocábulo «doula» foi, à falta de um inglês para transmitir o conceito, usado. E foi através do inglês que nos chegou. Como não destoa da fonética nem da grafia da língua portuguesa, rapidamente está a ser integrado na língua e não tardará a chegar a outros dicionários. O Dicionário Aulete Digital devia ter registado, na etimologia, que nos vem do grego, sim, mas mediado pelo inglês. Em francês também se usa o termo «doula».

[Post 3658]

Infinitivo pessoal

Certo, para quem não sabe


      Original: «Les pédiatres et les nombreux “ spécialistes ” de la maternité, dénonçant les préceptes de leurs prédécesseurs — et parfois les leurs propres à quelques années de distance — retrouvaient les arguments d’un Plutarque ou d’un Rousseau qui surent si bien culpabiliser celles qui restaient sourdes à la voix de la nature.» Tradução: «Os pediatras e os numerosos “especialistas” da maternidade ao denunciar os preceitos dos seus predecessores — por vezes os seus próprios de alguns anos atrás — reencontravam os argumentos que tão bem souberam culpabilizar as que se mantinham surdas à voz da natureza.»
      Pois é, e onde está a concordância do infinitivo? E as necessárias vírgulas? Pois é... «Os pediatras e os numerosos “especialistas” da maternidade, ao denunciarem os preceitos dos seus predecessores — por vezes os seus próprios de alguns anos atrás —, reencontravam os argumentos que tão bem souberam culpabilizar as que se mantinham surdas à voz da natureza.»

[Post 3657]

Sobre «complicativo»

E não foi desta


      «São chefes de Estado. Ficam em hotéis de cinco estrelas. Têm direitos e exercem esses direitos. Em Portugal temos muita resposta e não é difícil encaixá-los. Mas não são primas donas [sic]. Às vezes, os assessores são mais complicativos» («“Uma boa conferência pode custar 400 mil dólares”», Luís Naves entrevista António Cunha Vaz, presidente da empresa consultora de comunicação Cunha Vaz e Associados, Diário de Notícias, 2.07.2010, p. 64).
      Nem sempre os dicionários são bons para aferir estas questões, mas, desta vez, a ausência do vocábulo complicativo parece-me corresponder ao seu baixo índice de frequência. E nunca vi o vocábulo ser usado num texto merecedor, pela sua intrínseca qualidade, de ser citado.

[Post 3656]

Sobre «interesse»

Não vá mais longe


      «É esse um dos encantos do capitalismo, o interesse de cada um (em francês percebe-se melhor, “intérêt” é também “lucro”).» («Que horror, iguais aos outros!», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 2.07.2010, p. 64).
      Caro Ferreira Fernandes: não saia da Península Ibérica. Então em espanhol não é precisamente o mesmo? «Interés», além de outras coisas, tanto é o «lucro producido por el capital» como a «inclinación del ánimo hacia un objeto, una persona, una narración, etc.». E não vimos aqui recentemente, a propósito de uma acepção de «barato» no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, uma escandalosa má tradução deste termo?

[Post 3655]

Países Baixos

Um plural singular


      Muito perturbado depois de uma discussão, o revisor só perguntava, completamente atoleimado: «Países Baixos? Países Baixos? Mas não é “País Baixo” que se diz?» Mas isso foi há um ano. Quando se traduz, é quase inevitável a tendência para copiar formas de grafar que nos são alheias. «Pays-Bas», diz o original francês. «Países-Baixos», traslada o nosso tradutor. «Royaume-Uni», lê-se no original francês. Mas aqui, o nosso tradutor não deixa de escrever «Reino Unido». Mas Nederland não significa «País Baixo»? São reminiscências da República dos Sete Países Baixos Unidos.

[Post 3654]

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