Ortografia: «bejeca»

Com os copos

      No Verão, escreve o nosso autor, a venda de «bujecas» dispara. Mas não: é bejeca que se diz e escreve. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista que é alteração de «[cer]vejeca, diminutivo de “cerveja”», e que é vocábulo «informal». É calão, lê-se no «Temanet», no sítio do Instituto Camões. O seriíssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não se mete nestas coisas.
[Texto 200]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «sinobloco»


Assim percebemos


 


 

      Vou comprar um BMW ActiveHybrid X6. (Branco, é mais barato.) Não tenham inveja, não é para já. Primeiro tenho de gastar o Škoda. Na oficina disseram-me que tenho de mudar os sinoblocos. «Repita lá, por favor.» Repetiu. «Essa não está no dicionário.» «Desculpe?» Não está mesmo registado em nenhum dicionário que eu tenha. (E amanhã não vai para o Priberam, porque é feriado, Corpus Christi.) Os sinoblocos são peças de borracha que servem para absorver as vibrações da suspensão. Em inglês, silent block, «bloco silenciador». Ora, era demasiado complicado para a maioria dos mecânicos portugueses. Ficou «sinobloco».

[Texto 199]

Etiquetas
edit

«Reverter uma decisão»!

É bárbaro

      Vejam esta: «O Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidiu ontem, por unanimidade, reverter uma decisão de um tribunal de recurso da Califórnia e impedir que as funcionárias da cadeia de distribuição Wal-Mart pudessem apresentar uma acção colectiva por alegada discriminação com base no género contra a empresa» («Supremo recusa queixa por discriminação contra Wal-Mart», Público, 21.06.2011, p. 21).
      Reverter é voltar ao ponto de partida; retroceder; regressar — o que certos jornalistas deviam fazer, regressar às carteiras da escola primária. Então o verbo adequado no contexto não é «anular»? No nosso sistema judicial, o Supremo Tribunal de Justiça, através de um acórdão, anularia a decisão recorrida e ordenaria a baixa dos autos a um tribunal da Relação. Algum jurista nos confirmará se é assim exactamente.
[Texto 198]
Etiquetas ,
edit

«Si mesmo»

Themselves

      «Qualquer frase pode conter uma falsidade. Mas as palavras em si mesmo não mentem.» Há muito venho reparando que mesmo falantes que deviam ser qualificados, como tradutores e jornalistas, entendem «si mesmo» como sendo invariável. Santo Deus, não é! Si mesmo, si mesma, si mesmos, si mesmas. Na oralidade, é tolerável, mas na escrita, é imperdoável.
      «Porém todas estas coisas, verdadeiramente grandes e espantosas e nunca vistas, ainda que na primeira apreensão parecem muito para temer, bem consideradas em si mesmas, e em seus efeitos e fins, antes são muito para sossegar, e aquietar os ânimos, que para intimidar ou perturbar» (Sermões, tomo III, António Vieira. Lisboa: Editores J. M. C. Seabra & T. Q. Antunes, 1854, p. 339 [Actualização ortográfica minha]).

[Texto 197]
Etiquetas
edit

Ortografia: «maria-vai-com-as-outras»

Ora pois

      «Foi o meu grande amigo Rui Zink, corrigivelmente de esquerda, o primeiro a descobrir Pedro Passos Coelho como um agente do nosso futuro. Foi no Algarve, há muito tempo. Convenceu não só a Maria João, já convencida, como o Manuel Serrão e eu — que sou uma Maria-vai-com-as-outras, nem que seja por uma questão de educação» («Ora pois», Miguel Esteves Cardoso, Público, 21.06.2011, p. 39).
      A frase fica assim: «Convenceu não só a Maria João, já convencida, como o Manuel Serrão e eu»? No texto todo (citei somente um excerto), também faltam algumas vírgulas. E é maria-vai-com-as-outras que se escreve — temos de impedir que os computadores nos ensinem a escrever. (É pena os revisores continuarem a ter medo do simpático Miguel Esteves Cardoso.)

[Texto 196]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «night club»

Os morfinómanos do clube nocturno

      Aqui a nossa protagonista cantava «folksongs in a night club». O tradutor quer que seja numa discoteca. Há trinta anos, teria certamente traduzido por «boîte» (ou «boate», como também se lê por aí, adaptado pelos Brasileiros). Mas no caso, a história passa-se nos anos 30, dir-se-á melhor «clube nocturno», creio. São, decerto, os três locais de recreio onde se pode ouvir música, dançar e tomar bebidas, mas há diferenças quanto aos períodos em que se usaram ou usam.
      «O palco desta mudança era o clube nocturno. Se, até à guerra, “o máximo de desequilíbrio boémio de Portugal era o abuso de licores”, depois “e com o falso e verdadeiro cosmopolitismo […], importamos um carregamento completo de drogas”» (Os Nightclubs de Lisboa nos Anos 20, Júlia Leitão de Barros. Lisboa: Lucifer Edições, 1990, p. 76).

[Texto 195]
Etiquetas
edit

Tradução: «mansions»

Porque há quem se esquece

      Muito bem: mansion é, além de casa senhorial, termo que se começou a usar no século XIV, também, no plural, sabe-se lá porquê, prédio de apartamentos. Contudo, na tradução, é preciso ver se não é no singular (e habitualmente é) que se tem de traduzir: «o prédio». Quanto a «block of flats», dir-se-á melhor «prédio de apartamentos».
[Texto 194]
Etiquetas
edit

«Brande/brandy; uísque/whisky»

No brandy this time, dear?

      Já sabem, porque eu já contei, que em certas editoras se proíbe o aportuguesamento «uísque». Em relação a «brande», nunca vi nada. Mas agora pensem: na mesma página o tradutor escreveu «uísque» e brandy. «Uísque» será mais usado do que «brande»? É motivo suficiente para se admitir, numa tradução do inglês, o primeiro e rejeitar o segundo? Uma boa questão. Brande, só se for Brande-Hörnerkirchen.

[Texto 193]
Etiquetas ,
edit

Concordância com percentagens

Pior do que Por uma Vida Melhor

      Esqueçam a cruzada contra o Acordo Ortográfico de 1990. Resolvam estes problemas: «Numa sondagem da “Metroscópia”, 81 por cento dos inquiridos considerava que os “indignados” tinham razão, e 84 em cada 100 opinava que as preocupações do movimento correspondiam aos problemas reais dos cidadãos» («Os “indignados” chegaram a uma encruzilhada», Nuno Ribeiro, Público, 20.06.2011, pp. 2-3).
      Quando o sujeito é composto por uma expressão de percentagem no plural (no caso, «81 por cento») seguida de um termo preposicionado (no caso, «dos inquiridos»), o verbo concorda com o termo preposicionado que especifica a referência numérica: se o termo estiver no singular, o verbo vai para a 3.ª pessoa do singular; se estiver no plural, vai para a 3.ª pessoa do plural. Difícil? Em «84 em cada 100 opinava», ainda é mais flagrante a necessidade de haver concordância. Embora nesta oração se omita o especificador, mais óbvio, se assim podemos dizer, se torna a necessidade de o verbo concordar com o número.
      Última nota: uma «sondagem da “Metroscópia”» é equivalente, imagino, a uma «sondagem da “Marktest”»... O nome é Metroscopia, e, sendo um instituto de investigação social e de opinião, não precisa de aspas.
[Texto 192]
Etiquetas
edit

Acordo Ortográfico

O denunciante denunciado

      Hoje já ninguém se lembrará, mas ontem não terão sido poucos os leitores do Público que terão pensado como o texto de Nuno Pacheco estava escrito assim-assim mas mal pensado. E, por paradoxal que possa parecer afirmá-lo aqui, teria sido preferível o contrário. Vejamos. O título já prometia vindicta ou denúncia: «O caçador caçado». Começa assim: «Há muitas maneiras de dizer isto. Buscar lã e ser tosquiado, virar-se o feitiço contra o feiticeiro, caçador caçado. O significado é o mesmo, só as palavras mudam. No caso, retrata bem uma polémica que estalou no Brasil há mais de um mês e que ainda se desenrola, com estrondo mas sem desfecho à vista.» Refere depois o tal livro de que já aqui falei e entra então o «caçador caçado»: «Francisco Marins, presidente da Academia Paulista de Letras, escreveu e fez divulgar um texto inflamado onde acusa a “infeliz publicação” de aconselhar a que os alunos brasileiros escrevam, “sem nenhum castigo, mesmo em provas escolares, palavras e expressões de linguagem oral, chula, como estas: os menino pega peixes ou nois vai, nois vem, nois fica”.» Bem, parece-me meritório que alguém chame a atenção para os disparates que se vão fazendo. Nuno Pacheco, neste ponto, não parece divergir desta opinião. Introduz outra personagem secundária e prossegue assim: «O curioso é que tal polémica surja em plena aplicação do Acordo Ortográfico, pretensamente assinado para “facilitar” o ensino (no Brasil, dir-se-ia aprendizado).» Dá depois um exemplo irrelevante, para atingir o número de caracteres que lhe fora atribuído, e eis o parágrafo final: «Ora Francisco Marins, que tanto se indigna com o duvidoso livro, orgulha-se, na mesma missiva, de ter colaborado em Lisboa no Acordo Ortográfico, que mais não é do que, a pretexto da unificação linguística, a caixa de Pandora ideal para todos os erros, tergiversações e analfabetismos. É o caçador caçado. E na armadilha que montou.»
      Querem ver que a colaboração, independentemente de qual tenha sido, de Francisco Marins na redacção do Acordo Ortográfico deslegitima, para todo o sempre, qualquer intervenção sua relacionada com a língua no espaço público? E, vamos lá, não sou defensor do AOLP90, de que já apontei erros e lacunas e não estou sequer a aplicar, e preferia mesmo nunca ter de vir a fazê-lo, mas esta implicação (refiro-me à relação de consequência, não à embirração, que também transparece) não tem pés nem cabeça.
[Texto 191]
Etiquetas ,
edit

Sobre «recente»

Que aconteceu há pouco

      «“Utópico” deriva de “utopia”, que por sua vez é uma palavra relativamente recente. Foi inventada pelo filósofo Thomas More em 1516 e deu título ao livro Utopia. […] E foi do impacto deste livro que derivou o “ser utópico” enquanto ser irrealista, quimérico, acreditar no irrealizável» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa. Antena 1, 20.06.2011).
      A percepção do tempo, já sabemos, é eminentemente subjectiva, mas não abusemos. «Relativamente recente»! Se Mafalda Lopes da Costa estivesse a escrever no século XVII, ainda se compreendia a afirmação. A segunda frase só com muito boa vontade se compreende. Decorre do defeituoso cumprimento do objectivo inicial do programa: divulgar e explicar expressões. «Ser utópico» é então a expressão... Um absurdo. O serviço público no seu melhor.
[Texto 190]
Etiquetas
edit

«Eldorado»

Olha quem fala!

      «Há quem acredite que, com jeito, o país pode tornar-se um centro mundial de tecnologia, há quem acredite que a agricultura tem condições para garantir a auto-suficiência em produtos básicos como os cereais, há quem acredite que no mar pode estar o eldorado que durante séculos os portugueses não foram capazes de descobrir em terra firme» («Um olhar inteligente sobre o mar», Público, 20.06.2011, p. 34).
      Se se argumenta que deve ser grafado em itálico porque vem do castelhano — então milhares de outros vocábulos teriam de passar a ser grafados da mesma forma. E logo no Público, que até o negregado media grafa sem aspas nem itálico, nem mais. «Eldorado» é português, não precisa por isso de ser grafado em itálico.

[Texto 189]
Etiquetas ,
edit

Endereço electrónico

@ de razão

      Na sua crónica de hoje, Nuno Pacheco ocupa-se de uma questão que já aqui foi tratada: a publicação, pelo Ministério da Educação e Cultura do Brasil, de uma obra, Por uma Vida Melhor, em que se defende o indefensável. Escreve, a determinado passo, Nuno Pacheco: «No endereço electrónico do ministério, a polémica favorece o livro. A professora que o escreveu é bem-intencionada, os que criticam o livro não o leram bem, etc.» («O caçador caçado», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 20.06.2011, p. 3).
      É uma confusão já nossa conhecida: quer escrever-se «sítio» e sai «endereço electrónico». Ou terá sido porque, querendo evitar — o que é mais que louvável — o anglicismo site, pensou em «página electrónica»? Há-de ser lapso, mas, para o caso de subsistir alguma dúvida, deixo a definição da Infopédia: «Endereço utilizado para envio de mensagens pela Internet. É constituído pelo nome do utilizador, o símbolo @ (“arroba”), seguido do nome do fornecedor de serviços de acesso à Internet e o símbolo . (“ponto”) com a zona. Exemplo: utilizador@fornecedor.pt».
[Texto 188]
Etiquetas ,
edit

Tipos de frase

Interrogativa ou imperativa? Ou?...

      «Depois chega o momento alto da obra [Felizmente Há Luar!], quando Matilde, uma das personagens principais, veste a sua saia verde para assistir à execução do seu amado, o general Gomes Freire. “Digam lá o que simboliza a saia de Matilde?”» («Apostas em Sttau Monteiro, Pessoa e José Saramago», Romana Borja-Santos, Público, 20.06.2011, p. 9).
      A professora está a fazer uma pergunta ou um pedido? (Alguns dirão que é antes uma ordem.) É adequado, no contexto, o uso do ponto de interrogação? Fica resolvido se usarmos outra pontuação, dando-a como interrogativa parcial? Assim: «Digam lá: o que simboliza a saia de Matilde?» Digam o que acham, não se acanhem.

[Texto 187]
Etiquetas
edit

Superlativo hebraico

É só repetir

      «Há 21 anos nesta escola [Escola Básica e Secundária de Carcavelos], para Leonor Brazão o único segredo para os exames nacionais é trabalhar, trabalhar, trabalhar» («Apostas em Sttau Monteiro, Pessoa e José Saramago», Romana Borja-Santos, Público, 20.06.2011, p. 9).
      Em literatura, diz-se logo que se trata de repetição com valor expressivo. Quem já leu composições de alunos do 2.º ciclo, de crianças de 11 ou 12 anos, sabe que a repetição de uma palavra é, pela sua simplicidade, um dos recursos que mais usam. «E depois o príncipe foi andando, andando, andando...» Nunca mais parou. Isto fez-me lembrar outro recurso, também fundado na repetição. Ainda se ensina na escola o superlativo hebraico? Decerto que não. Nem a maioria dos professores mais novos saberá do que se trata. Rei dos reis, vaidade das vaidades, cânticos dos cânticos... Estão a ver agora? É uma construção enfática que consiste na intensificação do substantivo pela sua repetição no plural como adjunto adnominal. Veio do hebraico, pela Bíblia, directamente para o português, para o castelhano, para o francês, para o italiano, para o inglês. Em alemão, muito antes de qualquer vaga de anti-semitismo, o Cântico dos Cânticos passou, no século XVI, de Lied der Lieder para Hoheslied ou das Hohelied. «A vista repousava, bêbeda de luz, na confiança das confianças», escreveu Aquilino Ribeiro.

[Texto 186]
Etiquetas
edit

Ortografia: «hidático»

Um caso clínico

      Então aqui o nosso autor escreveu que não sei quem tem «um quisto hidáctico». O Acordo Ortográfico de 1990 vai fazendo estragos insuspeitáveis há meia dúzia de anos. «Hidático», caro senhor, «hidático», nunca teve c — nem mudo nem falante. Ter-nos-á vindo do francês hydatique. Está, assinala o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por «hidatídico». Este quisto é causado por uma ténia, a hidátide. Se quiserem ficar maldispostos, pesquisem «hydatic» nas imagens do Google. Não, não precisam de acrescentar «cyst». Uma doença terrível, parece.

[Texto 185]
Etiquetas ,
edit

«Tirar prazos»

Justiça medieval

      Nos tribunais brasileiros também se tiram prazos, sabiam? Ah, não sabem o que é tirar prazos... Estes métodos de trabalho irracionais, ineficazes, deixámo-los nós lá. Em alguns tribunais, cá e lá, de vez em quando, os funcionários judiciais retiram todos os processos pendentes — que estavam a aguardar o decurso de certo prazo, por exemplo, ou a acumular actos praticados pelos diferentes intervenientes — das estantes e armários para analisar o que é necessário fazer neles. E lá vão os processos em massa da sec­ção para o gabinete do juiz, onde ficam a aguardar despacho. É a esta actividade, que não se extinguiu com o advento da informática, que se dá o nome de tirar prazos.
[Texto 184]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «gestionário»

Da gestão

      «Mais recentemente, salientam‑se as re­formas gestionárias e de informatização, propondo‑se, etc.» Nunca antes tinha lido tal palavra. Não está registada em nenhum dos dicionários que consultei. Só no Dicionário Houaiss, no verbete relativo ao elemento de composição «gest-», é que é referida. Parece ser um termo da gíria da economia, do economês, apropriada pela gíria jurídica. Não está mal formada e, como não tínhamos adjectivo relativo a «gestão», não é de rejeitar liminarmente. Ainda assim, não recomendo nem condeno: use-se quando for estritamente necessário.
[Texto 183]
Etiquetas
edit

Género: «criança»

O Público errou


      «Crianças que sonham ser campeões», escrevem os detractores-mores do Acordo Ortográfico. Mas todos os dicionários da língua portuguesa — e se isto mudou, avisem-me, que eu peço outra nacionalidade — registam que o vocábulo «criança» é do género feminino. Não sucede o mesmo com «cônjuge», pois parece que já há para aí dicionários, e eu nem quero saber quais, que admitem ambos os géneros. Ainda pensei na possibilidade de estarmos perante um tipo especial de concordância, mas não. É erro, e erro crassíssimo. Emende-se: «Crianças que sonham ser campeãs». Vamos ver se amanhã aparece na secção «O Público errou».
[Texto 182]
Etiquetas ,
edit

Pronúncia: «euro»

Mais um

      Está agora a ser emitido, na Antena 1, o programa Visão Global, que tem como comentador permanente o ex-embaixador José Cutileiro. A moeda da União Europeia foi já referida mais de uma vez. Ora, José Cutileiro pronuncia a vogal da sílaba átona de «euro» como u. Eu tinha escrito, há uns tempos, que a jornalista Isabel Gaspar Dias, da Antena 1, devia ser dos poucos portugueses que pronunciam a palavra «euro» com o a soar, dada a posição de átona final, como u (à semelhança de qualquer palavra grave, como «cinco», «lado»...).

[Texto 181]
Etiquetas
edit

Eurojust: género

Eurojust e IKEA

      É maioritária, e não somente na comunicação social, a atribuição do género masculino ao acrónimo Eurojust. No sítio desta instituição, designa-se a si mesma «a Eurojust», decerto por ter em conta o género do hiperónimo (Unidade Europeia de Cooperação Judiciária). Contudo, nem no âmbito das instituições da União Europeia a questão é consensual. Num texto da Comissão Europeia (aqui), Eurojust aparece treze vezes com o género masculino. Já vimos a mesma hesitação a propósito do nome IKEA.
[Texto 180]
Etiquetas
edit

Acordo Ortográfico

O acento diferencial

      Francisco Miguel Valada responde hoje no Público ao que José Mário Costa escreveu no mesmo jornal no dia 7 do corrente. Mas isso é o menos importante do texto. A argumentação acerca do erro que é suprimir o acento na forma verbal «pára» merece mais atenção, e os leitores decerto se lembrarão de que já várias vezes me referi, com exemplos, a esta alteração, que está a par de outras. Temos, porém, de convir que as consequências de suprimir o acento em «pólo» não serão as mesmas de o suprimir em «pára».
      «Há alguns meses, após ter apresentado uma comunicação no Instituto Franco-Português, em Lisboa, em seminário organizado pela União Latina, fui publicamente confrontado pelo senhor embaixador Lauro Moreira, defensor do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90) e então embaixador do Brasil junto da CPLP, com o facto de insistentemente me referir à supressão do acento da flexão verbal “pára”. Tratava-se de reacção ao exemplo de que me munira: um título do PÚBLICO de 13/4/2009 (“Bloqueio nos fundos da UE pára projecto de milhões na área do regadio”). Após supressão do acento agudo, tal como prescrito pelo AO 90 na sua base IX, 9.º, qualquer leitor poderia ser induzido em erro, pois “para” tanto poderia ser preposição, como flexão verbal, com óbvias consequências sintácticas e semânticas de tal “simplificação” na frase em apreço.
      Nesse longínquo mês de Novembro de 2009, recorri a uma ficção para ilustrar as consequências nefastas noutros planos, para além do grafofonémico. Infelizmente, com a adopção acrítica, obediente e arbitrária do AO 90 por parte de alguns meios de comunicação social, a comedida simulação deu lugar a uma perceptível realidade. Um exemplo recente da RTP põe em causa valores fundamentais do elementar bom senso. Aparentemente, os comboios adquiriram o direito à greve.
      Com “greve na CP para comboios em todo o país”, como se pode ler em notícia da RTP, estamos perante a descarrilada hipótese de os comboios poderem fazer greve. Admite-se, desta forma, que a greve se aplique aos comboios e não a quem é responsável pela sua circulação, independentemente da forma verbal elíptica (neste caso, “convocada”). Assim, considerando que “para” funciona na perfeição como preposição, a frase “convocada greve na CP para comboios em todo o país” é perfeitamente plausível. Poderia ser gralha, mas não é. É determinação do AO 90.
      […]
     Quando S. Tomás de Aquino, no De ente et essentia, remetia para o Acerca do Céu de Aristóteles, manifestava uma das grandes preocupações de todos aqueles que reflectem sobre os actos e as acções: o pequeno erro inicial resultará, no final, num enorme erro. Uma supressão perfeitamente arbitrária de um acento numa flexão verbal, tornando-a homógrafa de uma preposição, é esse pequeno erro inicial. Se a esta supressão juntarmos todas as supressões arbitrárias, temos o AO 90 como um conjunto de pequenos erros iniciais, que resultarão num erro final ainda maior do que o próprio: a sua adopção» («O acordo ortográfico e o direito dos comboios à greve», Francisco Miguel Valada, Público, 19.06.2011, p. 33).

[Texto 179]
Etiquetas
edit

Verbo «haver»

Deslizes latinos

      Lapsus linguæ, «erro da língua», não tem que se lhe diga. Já quanto a lapsus calami, «erro da pena», Júlio Moreira sentiu-se na necessidade de explicar que «é apenas uma forma de dizer, para minorar a culpa de quem escreve». Neste caso não houve lapsus linguæ mas mero solecismo bem enraizado já na escrita e na oralidade: «Recuperar câmaras nas autárquicas, dentro de dois anos, é um dos objectivos. O Porto surge como exemplo no topo da lista, onde têm de haver coligações de esquerda, PS, CDU e Bloco juntos» (Noticiário das 10 da noite, Alexandra Madeira, Antena 1, 18.06.2011). Talvez seja um lapsus memoriæ: a repórter esqueceu-se da regra.
      Ainda recentemente o escrevi: é aconselhável voltar, de vez em quando, a referir aqui estes erros, que conspurcam toda a comunicação social, como já tivemos oportunidade de apontar mais de uma vez. Até para não dar o sinal, errado, de que tudo está melhor. Pergunto a mim mesmo o que há de tão complexo para que os jornalistas não percebam o que é a impessoalidade do verbo haver no sentido de existir. Mesmo nos tempos compostos. Mas a democracia é isto: qualquer dia, que não virá longe, as gramáticas vão acolher, como «variante», este erro.
[Texto 178]
Etiquetas ,
edit

Prefixo «anti-»

Tudo de uma vez

      Há anos que ando a avisar que o prefixo anti- é seguido de hífen somente se o elemento seguinte começar por h, i, r ou s. Salvo em relação a nomes próprios, um caso que também já tratei, não há excepções. Só é de espantar quando o erro aparece em livros revistos (mal, claro). Nos jornais, só vai sendo de admirar quando acertam. No exemplo, triplamente: «Newt Gingrich: “A Administração Obama é antiemprego, antiempresas, antienergia americana”» («Barack Obama foi o alvo e Portugal entrou no debate dos candidatos republicanos», Kathleen Gomes, Público, 15.06.2011, p. 14).

[Texto 177]

Etiquetas ,
edit

Sobre «irradiar»

Lançar raios de luz

      Acabei agora mesmo de ler três vezes o verbete, e por isso posso garantir: o Dicionário Houaiss não regista a acepção «afastar» do verbo «irradiar». E o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa também não. José Pedro Machado também desconhecia a nupérrima acepção, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolheu-a no seu seio despreconceituoso.
[Texto 176]
Etiquetas ,
edit

«Apelar para»

Não me convencem

      Correspondendo ao apelo da leitora Cristina e aproveitando ter-me passado agora mesmo pelos olhos uma frase com a regência errada («Muitos apelam à extin­ção da RTP.»), eis mais uma vez: a regência do verbo «apelar», na acepção que a frase acima exigia, é apelar para. A mim, basta-me esta notinha de Francisco Fernandes na página 83 do seu magnífico Dicionário de Verbos e Regimes: «APELAR A ALGUÉM ou A ALGUMA COISA é regência condenada pelos mestres.» Bem podem os novíssimos linguistas de pacotilha dizer o contrário.
      Eis um mestre: «Ao final, todos, mesmo os paulistas, apelaram para a ação do Governo, seja com a abertura de crédito barato, seja mediante legislação favorável à imigração, seja por medidas que possibilitassem o emprego do trabalhador nacional» (Emancipação dos Escravos: Projeto Dantas (dos sexagenários) e o parecer que o justifica, Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988, p. VII).
[Texto 175]

Etiquetas ,
edit

Da linguagem dos magistrados

Isto tem de mudar

      A directora do Centro de Estudos Judiciários (CEJ), em comunicado, referiu que o infeliz caso do copianço se deu numa «exercitação realizada pelos auditores de Justiça do XXIX Curso Normal de Magistrados Judiciais e do Ministério Público», que envolveu 137 candidatos. Ontem, no Jornal das 9, Mário Crespo admitia que o vocábulo existia, sim senhor, mas era uma forma pouco comum de alguém se referir a um simples teste ou exame. De facto, tratando-se de um comunicado, é para toda a população, e a gíria da área ou a linguagem rebuscada não se adequam ao fim em vista: esclarecer. É uma infeliz manifestação da linguagem prescritiva, bebida nas próprias normas, dos magistrados, que não estão habituados a comunicar, pelo menos no sentido etimológico do termo, antes a discursar solipsisticamente. Quando o bastonário da Ordem dos Advogados afirma que o sistema judicial português é medieval, é também nisto que deverá estar a pensar.
      Exercitação foi termo muito da preferência de António Feliciano de Castilho: «Outra vantagem de não leve monta lhe provirá desta exercitação: acostumar-se-á desde logo a variar por muitos modos a linguagem para ocorrer às sucessivas exigências dos vários metros; extraordinário recurso que depois se aplaudirá de possuir» (Tratado de Metrificação, António Feliciano de Castilho. Lisboa: Imprensa Nacional, 1851, p. 101). (Actualização ortográfica minha.)
[Texto 174]
Etiquetas
edit

«Aura/áurea/auréola»

Imparável

      Avisada embora, Mafalda Lopes da Costa prossegue o seu inexacto labor linguístico: «Mas inicialmente os ídolos não tinham sequer a áurea de carne e osso que têm hoje» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, 17.06.2011).
      Anda, nos últimos tempos, tudo muito confundido: «aura», «áurea», «auréola». A atmosfera que rodeia ou parece rodear alguém ou alguma coisa tem o nome de aura. Corrigida neste sentido, porém, nem assim a frase de Mafalda Lopes da Costa me parece fazer sentido.
      «Estacou diante da grande Bíblia de bordas douradas e seixas de couro pendentes como chapelões, fechada em seu suporte de madeira lavrada e irradiando de repente uma aura mágica» (O Sorriso do Lagarto, João Ubaldo Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1991, p. 47).

[Texto 173]
Etiquetas
edit

«Educação/instrução»

Já vimos isto

      «Mas o caso mais substantivo é a “Educação e Ensino Superior”. O poder das palavras deve ser aqui bem medido. Eu, enquanto pai, agradeço penhorado, mas não preciso de nenhum ministro da Educação. Menos ainda de um ministro da Educação e do Ensino Superior (a natureza judicativa inscrita no nome da pasta não diz muito bem do restante ensino). Preciso, isso sim, de um ministro do Ensino. É que a educação deve ser dada em casa. Na escola, eu espero que instruam, que ensinem — a ler, a contar, a escrever, e depois coisas bem mais sérias, como Geografia, História ou Biologia. A existência de um Ministério da Educação demite os próprios pais do seu maior dever» («O poder da palavra», Jorge Reis-Sá, Público, 15.06.2011, p. 37).
      Já tenho escrito sobre a diferença entre «educação» e «instrução», como decerto se lembram. Mas Jorge Reis-Sá decerto não queria que o ministério se viesse a chamar Ministério dos Negócios da Instrução Pública, como no século XIX. Não, vamos mesmo ter um Ministério da Educação, do Ensino Superior e da Ciência, que terá à frente o professor catedrático de Matemática e de Estatística Nuno Crato.

[Texto 172]
Etiquetas
edit

«Ao deus-dará»

Não irá esquecer-se

      «O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) considerou ontem, em Fátima, que a lei que despenaliza a interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas tem sido administrada ao “Deus dará”» («Lei do aborto ao “Deus dará”, critica Igreja», Metro, 16.06.2011, p. 5).
      Até parece que D. José Policarpo invocou em vão o santo nome de Deus — mas não, a culpa é da revisora, Catarina Poderoso, que não sabe que se escreve «ao deus-dará». Agora já não vai esquecer-se.
      «A lei que despenaliza a interrupção da gravidez volta a ser alvo de críticas da Igreja Católica. “A lei não tem sido cumprida, tem sido facilitada, tem sido administrada um bocado ao deus-dará”, defendeu o cardeal-patriarca de Lisboa no final da Conferência Episcopal de três dias em Fátima» («Lei do aborto é aplicada “ao deus-dará”», Paula Carmo, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 17).

[Texto 171]
Etiquetas ,
edit

«Copianço»

Irão julgar-nos

      Auditores de justiça, futuros magistrados, a copiarem uns pelos outros. É a última indignidade — ou parecia ser, até ler a justificação: «Ontem, em declarações ao DN, Manuel Ramos Soares, da direcção da Associação Sindical dos Juízes, condenou o comportamento dos auditores de justiça do CEJ. “Nós falamos [sic] com os auditores e eles disseram-nos que, antes de começar a prova, trocaram umas impressões uns com os outros, não tiveram a noção de que era uma prova individual”, disse Ramos Soares, acrescentando, porém: “A associação condena tal comportamento, porque não revela compreensão dos deveres éticos. Por isso, concordamos com o despacho da directora”» («Copianço generalizado em teste na escola de magistrados», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 20). «Não tiveram a noção de que era uma prova individual»! A única solução decente era anular a prova, mas não foi isso que aconteceu.
      E já repararam como o termo coloquial «copianço» — desconhecido no Brasil, ao que me parece — está registado nos dicionários, ao contrário de muitos outros mais usados? Prefiro a definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: «Acto ou efeito de copiar, especialmente em provas escritas escolares.»
[Texto 170]
Etiquetas ,
edit

«Após o que»

Insuspeita mas mal-amada

      Nos últimos tempos ando a ver, e em grande profusão, na imprensa e em livros, ocorrências da expressão «após o que»: «A consulta aos partidos, iniciada ontem com PCP, BE e Verdes, termina hoje com CDS, PS e PSD, após o que o Presidente da República deverá indigitar Passos Coelho (ver texto ao lado)» («Esquerda avaliza rapidez na indigitação de Passos Coelho», Nuno Sá Lourenço, Público, 15.06.2011, p. 3).
      Tanto quanto sei, não impende sobre ela nenhuma suspeita, mas não me agrada, e vejo que até foi usada pelos nossos melhores escritores: «Dizia-se que em dous sabbados consecutivos, por volta da meia-noite, se tinham visto desfechar do céu em cima dos paços solitarios da encosta duas estrellas cadentes, após o que, dous gritos fugitivos, mas terrivelmente agudos, soavam da banda do pateo, e sentia-se em seguida o tropear de passos frequentes, como em dança doudejante ou em lucta desesperada» (O Monasticon, tomo III, Alexandre Herculano. Lisboa: em Casa da Viúva Bertrand e Filhos, 1848, p. 368).

[Texto 169]
Etiquetas
edit

«Zona Euro»

Do incriterioso uso da maiúscula

      O Público tem um conceito mínimo de Zona Euro: «Uma nova ajuda financeira à Grécia está prestes a ser acordada entre os países da zona euro em troca de um reforço das medidas de austeridade por parte do Governo e desde que os investidores privados aceitem participar no esforço» («Alemanha defende um reescalonamento de sete anos para a dívida pública grega», Isabel Arriaga e Cunha, Público, 9.06.2011, p. 18).
      No Diário de Notícias, em contrapartida, lê-se sempre assim: «Os ministros das Finanças europeus não se entendem quanto à forma de ajudar a Grécia a sair da difícil situação em que se encontra e que está a pôr em risco outras economias fragilizadas da Zona Euro, entre as quais Portugal» («Ajuda a Atenas está a minar relações europeias», Eduarda Frommhold, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 31).

[Texto 168]
Etiquetas
edit

Tradução: «upwelling»

Mais água

      «A chamada nortada, com efeito, “‘empurra’ as águas mais aquecidas da superfície do oceano para o largo e as águas mais frias e profundas ascendem à superfície, trazendo muitos nutrientes dos quais se alimentam a sardinha e outros peixes” [diz António Lopes, investigador do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa]. É o chamado upwelling, que desta vez não teve o desempenho esperado» («Vento. A culpa da falta de sardinhas frescas? É da nortada», Inês Sequeira, «P2»/Público, 15.06.2011, p. 4).
      Já vi o termo traduzido por «afloramento» e «ressurgência». Mais uma infausta vez, vergamo-nos aos estrangeirismos, como se só eles nos permitissem descrever o mundo.

[Texto 167]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «fluvina»

Também mete água

      «Cerca de 100 mil pessoas visitam anualmente a Praia das Rocas, inaugurada em 2005 em Castanheira de Pêra. O complexo inclui piscinas — entre as quais o maior tanque com ondas do país — uma ilha artificial, uma albufeira com fluvina, onde os barcos servem de alojamento, e vários bungalows» («Praia das Rocas chega a ter mais gente do que o concelho», Sandra Ferreira, Público, 15.06.2011, p. 27).
      Designa a marina fluvial. Sempre vi o vocábulo empregado em relação a rios, mas compreende-se a extensão de sentido. Não o vejo registado em nenhum dicionário.
[Texto 166]
Etiquetas
edit

Léxico: «anteporto»

Na água

      «O anteporto da marina de Vilamoura vai ser requalificado, através de um [sic] nova configuração arquitectónica e abrindo portas para uma futura “cidade lacustre”» («Marina de Vilamoura abre portas a projecto de “cidade lacustre”», Idálio Revez, Público, 15.06.2011, p. 27).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, anteporto é o «lugar de abrigo à entrada de um porto». É uma definição pouco clara. Segundo o Dicionário Houaiss, é o «ancoradouro existente, em alguns portos, antes do fundeadouro principal».
[Texto 165]
Etiquetas
edit

Acordo Ortográfico

Mentiras e trapalhadas

      O Público continua, deliciado, a dar voz a todos quantos são contra o Acordo Ortográfico de 1990. Faz mal — sobretudo quando se trata de disparates. Foi o caso da carta de um leitor, João Fraga de Oliveira, de Santa Cruz da Trapa. A carta ocupa mais de metade da secção «Cartas à Directora», e termina assim: «Mas, até há dias, tinha ainda sobre o memorando uma preocupação acrescida, mais “adjectiva”: a tradução para português. Ora, agora, o memorando foi traduzido para português sob a “exclusiva responsabilidade do Governo” e este resolveu mandar às malvas a Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011 (um Governo a desobedecer ao Conselho de Ministros, uma delícia...) e não adoptou o famigerado Acordo Ortográfico. Estou finalmente relaxado e, mais, (re)ler o memorando é para mim uma delícia quotidiana.»
      É grave que o Público propine tão irresponsavelmente estas mentiras aos leitores. Eis o que se lê no n.º 1 da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011: «Determinar que, a partir de 1 de Janeiro de 2012, o Governo e todos os serviços, organismos e entidades sujeitos aos poderes de direcção, superintendência e tutela do Governo aplicam a grafia do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 26/91 e ratificado pelo Decreto do Presidente da República n.º 43/91, ambos de 23 de Agosto, em todos os actos, decisões, normas, orientações, documentos, edições, publicações, bens culturais ou quaisquer textos e comunicações, sejam internos ou externos, independentemente do suporte, bem como a todos aqueles que venham a ser objecto de revisão, reedição, reimpressão ou qualquer outra forma de modificação.»
      O Sr. João Fraga de Oliveira devia dedicar-se a um passatempo mais inócuo. Palavras cruzadas, por exemplo.
[Texto 164]
Etiquetas ,
edit

«Cartão de cidadão»

Talvez mude agora

      «O cartão de cidadão inclui os números de identificação civil, de edentificação [sic] fiscal, dos serviços de Saúde e da Segurança Social» («Diário da República via cartão de cidadão», C. N., Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 17).
      É raro ver a locução bilhete de identidade grafada com minúsculas iniciais, o que é estranho. Talvez se inaugure, com o novo documento, uma forma adequada de o referir. Neste caso, o jornalista distraiu-se apenas em relação à grafia de Diário da República, que no Diário de Notícias é sempre, e bem, grafado em itálico.

[Texto 163]
Etiquetas
edit

«Crise humanitária»?

Esta não (lhes) passa

      «No lado norte da fronteira, no devastado Cordofão Sul, forças de Cartum estão a bombardear populações civis de tribos pró-sulistas, tendo provocado dezenas de mortos e uma crise humanitária» («Norte e Sul não se entendem sobre divisão do petróleo», Luís Naves, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 25).
       Este veio para ficar. Eu já escrevi antes isto, mas, como os jornalistas reincidem, repito: o vocábulo «humanitário» apenas se pode utilizar em expressões que qualifiquem acções benéficas, positivas: ajuda humanitária, corredor humanitário, intervenção humanitária, missão humanitária das ONG, trabalhador humanitário, etc. De contrário, já reparou, Luís Naves?, a semântica de cada um dos termos é de sinal oposto.
      Quanto à grafia do topónimo Cordofão Sul, está muito bem. Tem o seu mérito. Afinal, no Público escrevem Kordofan.

[Texto 162]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «heat»

Ainda no mundo do surfe

      «O jovem de Cascais [Vasco Ribeiro], que lidera actualmente o ranking europeu de juniores e ficou no segundo do mundial de sub-18 no Peru, foi o segundo atleta mais pontuado do seu heat (eliminatória), com 12.50 pontos» («Vasco Ribeiro justificou convite», Madalena Esteves, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 39).
      Madalena Esteves é já um caso a seguir no Diário de Notícias. Sim senhor: estrangeirismo, tradução. No âmbito do desporto, heat é a designação para eliminatória, etapa. «E já era mais que tempo de aportuguesar definitivamente “surf”», comentou a leitora Cristina. «Os dicionários de português mais usados “em linha” (Priberam e Porto Editora)», lembrou então o leitor R. A., «já têm o verbo surfar e o substantivo surfe.» «Resta a questão da pronúncia», acrescentou. Bem, mas comecemos por algum lado: hoje em dia, quase ninguém, em Portugal, escreve de outra forma que não «icebergue», por exemplo. Aguardemos. Quanto a ranking, é dispensável.

[Texto 161]
Etiquetas
edit

Léxico: «lançador»

Bem lançados

      «Segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil e a Agência Espacial Brasileira, os testes servirão para preparar o centro de Alcântara para lançadores de maior porte» («Brasil faz testes com foguetões para lançamento de satélites», Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 30).
      Temos muita sorte — eu, sem o desejar, quase o esperava — por não ter sido usado, desta vez, um anglicismo para o que todos compreendemos o que é. Curiosamente, apesar de usada com alguma frequência, esta acepção do vocábulo «lançador» ainda não está registada nos dicionários. E convinha.

[Texto 160]
Etiquetas
edit

Plural dos apelidos

Por pouco

      «Talvez por isso, o regime, contam outros refugiados, “que arrasou aldeias inteiras, casas, árvores, culturas” e eliminou muitos dos seus habitantes, começou a “entregar armas às famílias alauitas”, a comunidade religiosa a que pertencem os Assad» («Damasco arma alauitas e tropas avançam em Jisr al-Chughur», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 13.06.2011, p. 24).
      Ao contrário do que vimos no Público, no Diário de Notícias sabem que o vocábulo alauita não precisa de acento. Claro que o texto de Lumena Raposo não é perfeito. O plural de Assad é Assads, «os Assads», e será a tropa e não as tropas que avançam em Jisr al-Chughur. Pormenores muito importantes — e descurados pela maioria.

[Texto 143]
Etiquetas
edit

Tradução: «Indian Summer»

Para quê?

      «Levaram-me», pode ler-se na tradução, «a X durante a noite amena e chuvosa como a de um Verão índio.» No original: «Indian Summer». A esmagadora maioria das vezes, a tradução que se vê é outra: Verão indiano. Ora, ao período de finais de Outubro a começos de Novembro damos nós o nome de Verão de S. Martinho. Passe-se a acção no Alentejo, em Nova Iorque ou no Brasil (onde é conhecido por veranico), não é igualmente preciso? Não exprime o mesmo conceito?
[Texto 119]
Etiquetas ,
edit

«Estereótipo» e «inêxito»

O interesse dos debates

      Maria Flor Pedroso acaba de usar, na Antena 1, a palavra «estereótipo», mas deslocou a tónica para a sílaba -ti-, e logo, talvez também escreva «estereotipo». Não demorará muito e todos os dicionários registarão, sem indicação de forma preferencial, as duas variantes.
      Estes debates das legislativas são também uma fonte de interesse linguístico. Ontem, Bagão Félix falava em «êxitos e inêxitos». «Inêxito» não é nada de novo, mas ouve-se muito poucas vezes. Poderá ter-nos chegado do Brasil na década de 1950. «Ser ou não ser, perseguindo com irremediável inêxito um critério de opção sem que, mau grado o inêxito, se possa desistir — é trágico: Antero» (Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda, Mário Sacramento. Porto: Editorial Inova, 1970, p. 193).
[Texto 100]
Etiquetas
edit

Preposições e conjunções

By taxi

      «Sai à volta de dez euros por mês — o preço de uma ida-e-volta por táxi a um restaurante ou a uma praia, uma só vez por mês. […] Estou convencido que é a freguesia sublime de Colares que é responsável por estas economias» («Junho até agora», Miguel Esteves Cardoso, Público, 2.06.2011, p. 39).
      Cada língua tem as suas especificidades. Em espanhol, por exemplo, a preposição que se usa para indicar o meio de transporte é en: en autobús, en avión, en bici. (Mas diz-se a caballo e a pie.) Em português, não usamos a preposição por para indicar o meio de transporte, mas sim a preposição de: de comboio, de carro, de táxi.
      Na segunda frase, o problema é outro: há conjunções e verbos repetidos, sem ganhos de expressividade, antes pelo contrário. «Estou convencido que é a freguesia sublime de Colares a responsável por estas economias.»
      «Ida e volta» não precisa de hífenes, mas ultimamente Miguel Esteves Cardoso anda para aí virado: «As poucas pessoas que ficam à espera das campanhas para se decidirem em quem votam — e que são susceptíveis ao dinheiro que se gastou para convencê-los — são uns borra-botas e umas baratas-tontas, que se fazem caras, no sentido mais extravagante da palavra» («Poupem-nos», Miguel Esteves Cardoso, Público, 24.05.2011, p. 39).
[Texto 99]
Etiquetas
edit

«Frente-a-frente»: plural

Deixem assentar mais a poeira

      «O disparate, neste episódio, é que se a lei regula e impõe tempos de antena, não regula (nem pode fazê-lo), os frente-a-frentes, porque são iniciativas estritamente editoriais, tal como não regula notícias, reportagens ou entrevistas» («A democracia não é imposta por tribunais», Público, 2.06.2011, p. 38).
      Não sei se é doutrina se é gralha — o certo é que não falta quem pluralize este neologismo. A tendência da língua, já o escrevi mais de uma vez, é para fazer os plurais desta forma regular. Lembrem-se de um caso semelhante, «sem-abrigo». De vez em quando, lá nos escorrega a língua ou a tecla e sai o plural «sem-abrigos».
[Texto 98]
Etiquetas ,
edit

«Enfermeiro sénior»

Para eles, é fácil

      «Ao perceber que ninguém fez nada, Bryan, um enfermeiro sénior com três décadas e meia de experiência, decidiu recorrer à BBC» («Tortura de deficientes em hospital choca britânicos», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 2.06.2011, p. 33).
      Mr. Bryan... Digo, o Sr. Bryan é senior nurse — e nós, decerto por influência anglo-saxónica, agora também temos enfermeiros seniores (espero que estes saibam pronunciar correctamente a palavra). Os antigos enfermeiros especialistas, enfermeiros-chefes e enfermeiros supervisores passaram a ter a categoria de enfermeiros seniores.
      Apesar de a nossa língua dever muito mais ao latim do que o inglês (que, ainda assim, tem no latim mais de 50 % dos seus étimos), não podemos fechar sempre os olhos e, complacentes, reconhecermos que antes importarmos anglicismos de matriz latina do que de matriz germânica. Mas não é tão simples. Pense-se só no caso do vocábulo «media» para designar os meios de comunicação social. Para o inglês, que também tem plurais que não somente em s, é fácil integrar todos estes neologismos.

[Texto 97]
Etiquetas
edit

Tradução

Poesia e prosa

      Maria Leonor Nunes entrevistou José Bento para o JL («José Bento. Afición e poesia», JL, 1060, Maio de 2011). Quando o poeta e tradutor afirmou que «temos a impressão de que é mais difícil traduzir poesia», a entrevistadora não deixou passar a oportunidade: «E não é?» Respondeu o tradutor de D. Quixote: «Não. Por vezes, a prosa até pode ser mais difícil. Os valores que estão em jogo na poesia não são os mesmos da prosa. Posso dar um exemplo supremo, D. Quixote de la Mancha. Ainda hoje, não tenho a certeza do que Cervantes queria dizer com certas expressões. Por exemplo, palavras que caíram em desuso, cujo significado mudou ou que simplesmente não se sabe o que queriam dizer ou que num sítio têm um significado e a 40 quilómetros querem dizer uma coisa diferente.»
[Texto 96]
Etiquetas
edit

Léxico: «audimetria»

Não peçam tanto

      Ah, os dicionários... Como é que se pode pretender que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registe o vocábulo «audimetria» se nem sequer acolhe o muito mais vulgar «audiometria», o estudo metrológico da audição? A audimetria é o sistema de recolha electrónica de informação sobre o comportamento de determinado público em relação aos programas de televisão através de um aparelho denominado audímetro. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista «audiometria».

[Texto 95]


Etiquetas
edit

Aspas e maiúscula

Águias, Leões, Dragões

      «FC Porto e Benfica decidem hoje quem conquista o título de campeão nacional de basquetebol. O sétimo e derradeiro encontro da final do play-off realiza-se esta noite (20h30, SPTV1), no terreno dos “dragões”. “Está tudo nas mãos do FC Porto e há muito tempo que não perdemos um jogo no Dragão Caixa”, sublinhou o treinador dos “azuis e brancos”, Moncho López, referindo-se à invencibilidade caseira da equipa nesta época. […] Por seu lado, o técnico do Benfica acredita que a maior experiência dos “encarnados” em jogos decisivos poderá desequilibrar a eliminatória» («Dragão Caixa recebe hoje a “negra” que decide o título», T. P., Público, 2.06.2011, p. 36).
      Um leitor pergunta-me se as aspas em «negra» se justificam. Não justificam. O termo pertence à gíria desportiva e está dicionarizado, o que, de qualquer modo, não é condição para se usar sem aspas. Como não se justificam em «dragões», «azuis e brancos» e «encarnados». Estes nomes, aliás, deviam ser grafados com maiúscula inicial: Dragões, Leões, Águias...

[Texto 94]
Etiquetas
edit

Tradução

Árvore Ellen!?

      Os tempos ainda pediam que se encontrassem nomes portugueses para as personagens, escrevi eu, mas vejam agora. Grace e Amy estão a descansar depois de uma corrida à volta do campo — «liderada por Ned», diz a tradução recente; «com Nuno à frente», lê-se na tradução antiga.
      «— Não gosta de andar a cavalo? — perguntou Grace a Melita, que estava a descansar, depois de uma corrida em volta do campo com as outras, com Nuno à frente.
      — Sou doida por isso. A minha irmã Gui costumava montar quando o pai era rico, mas agora não temos cavalos, a não ser a Ellen Tree.
      — Conte-me tudo a respeito da Ellen Tree. É um burro? — perguntou Grace cheia de curiosidade» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Maria da Graça Moura Brás. Lisboa: Portugália Editora, s/d, p. 167).
      «— Não gosta de montar? — perguntou Grace a Amy, enquanto repousavam depois de uma corrida à volta do campo com os outros, liderada por Ned.
      — Tenho talento para tal. A minha irmã, a Meg, costumava montar quando o nosso Pai era rico, mas agora já não nos resta nenhum cavalo, excepto a Árvore Ellen — acrescentou Amy, rindo.
      — Fala-me de Árvore Ellen. É uma mula? — perguntou Grace, curiosa» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Ana Mendes da Silva. Alfragide: Edi9, 2010, p. 128).

[Texto 93]
Etiquetas
edit

Tradução

Não se conheciam os picles

      «— Não acredito que qualquer de vocês sofra o que eu aturo — exclamou Melita —, porque não têm de ir para a escola com raparigas insuportáveis, que põem um rótulo de acusado de qualquer crime ao nosso pai, se ele não é rico, como elas pretendem.
      — Se disseres só acusado de qualquer crime, está bem; mas não nos fales em rótulos, como se o nosso pai fosse um frasco de conserva — aconselhou Zé com uma risada» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Maria da Graça Moura Brás. Lisboa: Portugália Editora, s/d, p. 11).
      «— Não acredito que nenhuma de vocês sofra tanto como eu, — chorou Amy — nenhuma de vocês tem de ir à escola com raparigas impertinentes que nos moem a paciência se não sabemos a lição, que fazem troça dos nossos vestidos, rotulam o nosso Pai por não ser rico e ainda por cima fazem pouco de quem não tem um nariz bonito.
      — Se te referes às más línguas*, diria que sim, e não a rótulos, como se o Papá fosse um frasco de picles — recomendou Jo, rindo» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Ana Mendes da Silva. Alfragide: Edi9, 2010, p. 8).

A nota a «más línguas» (má ortografia), diz: «Trocadilho entre as palavras libel (más línguas) e label (rótulo). [N. de T.]» Maria da Graça Moura Brás esqueceu-se do insulto ao nariz, «and insult you when your nose isn’t nice», e os tempos ainda pediam que se encontrassem nomes portugueses para as personagens. Na tradução mais recente, a nota de rodapé não é muito clara. Digam-me que tradução preferem.
[Texto 92]

 

Etiquetas
edit

Léxico: «enteremorrágico»

Tem mais uma tentativa

      Depois de Ana Maia, com o seu inconcebível «enterohemorrágica», hoje foi a vez de Ana Gerschenfeld tentar — e errar: «E as E. coli entero-hemorrágicas (EHEC) como a que tem provocado o surto de infecções alimentares na Alemanha?» («Perguntas e respostas», Ana Gerschenfeld, Público, 1.06.2011, p. 3). Bem, mas melhorou, pelo menos não ofende gravemente. O texto tem, porém, outros erros. Um exemplo: «Estas bactérias morrem a temperaturas superiores aos 70.ºC ou inferiores aos –20.ºC.»
[Texto 91]
Etiquetas
edit

«Deduzir acusação contra»

Nem por decreto

      «O Ministério Público deduziu acusação de crime de homicídio qualificado à mulher suspeita de ter afogado o filho de dois anos na ribeira do parque da Serra das Minas, concelho de Sintra, anunciou a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa» («Mãe será julgada por afogar o filho», Público, 1.06.2011, p. 29).
      Deve ter sido também o Ministério Público que ordenou a mudança de regência verbal.

[Texto 90]
Etiquetas
edit

Léxico: «inemprestável»

Também podia ter acertado

      «Eis uma novidade na coexistência dos formatos. Li, no meu Kindle, um livro que eu queria emprestar e dar a ler, sem ter de prescindir do meu Kindle para que o lesse. […] Seja: o livro, impresso e enviado de Inglaterra, custou metade da versão e-book, electrónica e inimprestável, que eu tinha comprado» («Que grande corte», Miguel Esteves Cardoso, Público, 1.06.2011, p. 39).
      Trata-se então de não ser susceptível de se emprestar, é isso? Mas a segunda frase (como diria Fernando Venâncio) range. In + emprestável = inemprestável. Espero que Miguel Esteves Cardoso não tenha pretendido reduplicar o sufixo de «imprestável» (que não presta; inútil). E a mesma preposição, «de», a reger dois adjectivos que pedem preposições diferentes também deixaria os mais puristas arrepiados.

[Texto 89]

 

Etiquetas
edit

«Saco de gatos»

E podia ter acertado

      De «O Público errou»: «Escrevemos na edição de ontem que António Vitorino usara, num comício do PS em Setúbal, a expressão “saco de ratos”, quando o que foi dito foi “saco de gatos” (“quando cheira a poder aparecem todos juntos, para logo a seguir voltarem a ser um saco de gatos”)» (Público, 1.06.2011, p. 38). Apenas com a transposição de uma letra e troca de outra: «quando cheira a podre aparecem todos juntos, para logo a seguir voltarem a ser um saco de ratos». No D. Quixote também há, lembra-se, Fernando Venâncio?, um saco de gatos, não para dar a ideia, agora transmitida quando se usa a expressão, de desorganização, mas literal.
[Texto 88]
Etiquetas
edit

Sobre «evento»

Já chega

      Não se abre hoje um jornal sem que encontremos uma ou duas dúzias de ocorrências da palavra «evento». Apesar de os dicionários mostrarem o contrário, quem escreve e quem revê parece ter desistido de encontrar sinónimos. Neste caso, João Lopes encontrou a palavra certa, «certame»: «Seja por vocação cultural, seja por mero gosto da agitação mediática, a expectativa do “escândalo” faz parte da dinâmica tradicional do Festival de Cannes. Para o interior do próprio certame, porque alguns participantes anseiam pela sua revelação; e também para o exterior, já que essa imagem de marca parece satisfazer muitos dos que nunca lá puseram os pés» («Festival de Cannes expulsa Lars von Trier», João Lopes, Diário de Notícias, 20.05.2011, p. 44). É verdade que o mérito é relativo, pois o termo há muito se usa quando se fala sobre concursos ou acontecimentos públicos desta natureza. Virá de outros séculos, dos certames poéticos, desafios entre poetas (o étimo latino, certāmen, significa precisamente «debate, disputa, desafio»).
[Texto 87]

 

Etiquetas
edit

«Pandam/pandã»

Era previsível

      «Sim, é mesmo isso: as imputações falsas de Merkel fazem pandã com as preconceituosas “avaliações dos mercados” que lançaram, com espasmódicas baixas de rating, os países periféricos numa espiral de dívida» («A fábula de la merkel», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 20.05.2011, p. 15).
      Cá está o desnecessário faire pendant aportuguesado. Já tinha tratado desta questão há dois anos. Os leitores tinham razão: só se podia aportuguesar em «pandã».
[Texto 86]
Etiquetas
edit

«Grama»

Regresso ao básico

      «O Hadrocodium wui, que foi um dos primeiros mamíferos a andar pelo planeta, há 190 milhões de anos, pesava apenas duas gramas e tinha um crânio que media 15 milímetros» («Olfacto alargou o cérebro dos mamíferos», Filomena Naves, Diário de Notícias, 20.05.2011, p. 30).
      Na oralidade, já uma vez o escrevi, é relativamente comum este erro; na escrita, e sobretudo na escrita jornalística é raro — e imperdoável. É bom tratar destes casos menores de vez em quando, não se vá pensar que desapareceram dos nossos jornais e da comunicação do dia-a-dia.
[Texto 85]

 


 

Etiquetas
edit

Linguagem

Sôbolos rios que vão...

      «Em 2010, pois, um decréscimo brutal de quatro milhões de habitantes sobre os 10,7 milhões que somos hoje» («Mapa da mina abandonada», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.05.2011, p. 56).
      Parece-me impróprio o uso da preposição «sobre» neste contexto. Aliás, esta preposição é das mais mal utilizadas na nossa língua — e não estou a aludir às confusões, pela semelhança fonética e pelo parentesco, entre as preposições «sob» e «sobre».
[Texto 84]
Etiquetas
edit

Arquivo do blogue