Erros de sempre e para sempre

Antes que se consolide


      «Em comunicado enviado posteriormente às redações, a GNR explica que a fuga “foi facilitada pela intervenção de cerca de duas dezenas de cidadãos que se encontravam no local e que criaram uma barreira física, impedindo o encalce imediato por parte dos militares”, os quais ainda fizeram “disparos de advertência para o ar”, mas não lograram travar o fugitivo» («Tiros para o ar durante fuga de tribunal», João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 14.05.2026, p. 39). 

      Claro que já vi demasiadas vezes este erro, mas hoje, João Carlos Rodrigues, vai aprender. Vai aí uma grande confusão nessa cabeça. A expressão é uma e só uma, sem variantes, ir no encalço de, que significa «seguir a pista de; perseguir». Era o caso. Quanto a «encalce», que não fique por esclarecer, é simplesmente uma forma do verbo encalçar, que significa «ir no encalço de; seguir de perto». Basta seguir aqui o seu colega: «O detido, algemado, fugiu pela porta principal do tribunal. Os militares arrancaram no seu encalço, mas, já no exterior, voltaram a ser agarrados por pessoas que ali permaneciam» («Invadiram tribunal para permitir fuga de cadastrado detido», Roberto Bessa Moreira, Jornal de Notícias, 14.05.2026, p. 16).

[Texto 22 980]

Definição: «garum»

O ketchup dos Romanos


      Ali entre a Casa dos Bicos e a Rua Augusta situava-se o complexo conserveiro, com as suas cetárias (termo que a Porto Editora dicionarizou em 26.11.2019, seguindo a minha sugestão), da antiga Olisipo, facto lembrado na quarta-feira, no programa A Escuta do Mundo, de Nuno Artur Silva, na TSF, por André Simões, professor e investigador em Estudos Clássicos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e estrela no Instagram e no TikTok. Veio à baila, inevitavelmente, o garum, e foi sempre este o termo usado, Porto Editora, nunca «garo». 

      Disse André Simões: «Era uma espécie de... A melhor comparação com a vida de hoje é como se fosse o ketchup dos Romanos. Não no sabor, não na consistência, mas na omnipresença. Ou seja, põe-se garum em tudo. E Lisboa era uma das maiores produtoras do Império, e a nossa Tróia, portanto, ali ao pé de Setúbal, era a maior produtora do Império, tanto quanto podemos saber, de garum. [...] Acontecia a mesma coisa com o garum, porque ele era feito com peixe, era uma espécie de lasanha de peixe, a preparação. Portanto, uma camada de peixe, uma camada de sal, de especiarias, mais uma camada de peixe, e o peixe incluía tudo: as vísceras, as espinhas, tudo. E depois era deixado a macerar durante meses.»

      A definição no dicionário da Porto Editora tem, pelo menos, dois problemas, que são a referência somente aos intestinos do peixe e a subdivisão da entrada em duas acepções («salmoura feita com os intestinos...» e «molho dessa salmoura»), que me parece artificial e conceptualmente pouco rigorosa, pois separa de forma algo forçada o preparado fermentativo e o condimento dele resultante. Assim, proponho ➜ garum CULINÁRIA molho fermentado preparado com peixe e sal, geralmente mediante maceração prolongada de camadas de peixe inteiro ou das suas vísceras, por vezes com especiarias, produzido em cetárias e amplamente usado como condimento na culinária da Roma Antiga; garo.

[Texto 22 979]

Léxico: «ritmo de glaciar»

Muito len-ta-men-te


      «Quizás alguna vez haya escuchado eso de que algo avanza “a ritmo glaciar”. Un recurso estilístico para transmitir lentitud. En las zonas más gélidas de la Tierra, la nieve aumenta durante los meses invernales y disminuye en verano. Todo natural hasta aquí. Pero si en la época cálida se funde menos nieve de la que cae en la fría, se forma una capa de hielo de un año para otro que va ganando peso y que se transforma mediante un proceso de compactación» («Científicos descubren por qué el glaciar Hektoria colapsó a un ritmo inédito», Xavier Fonseca, La Voz de Galicia, 13.05.2026, p. 29). 

      Alguns podem pensar que não temos nada que ver com isto, mas estão enganados. (Deve ser porque são muito rápidos a responder.) Podia citar meia dúzia de obras, traduções, em português, em que se quis expressar esta ideia, mas o fizeram de uma de duas maneiras erradas: «ritmo glacial» ou «ritmo glaciar». Ou se escreve «ritmo de glaciar», porque é gramatical e se compreende o que está por detrás, ou mais vale encontrar outra forma de o dizer. 

[Texto 22 978]

Léxico: «bloqueio escandinavo»

Parece que não é coisa boa


      Li no Meteored que algumas simulações do modelo europeu indicam a possibilidade de formação de um bloqueio escandinavo a partir de 18 de Maio, portanto, na próxima segunda-feira. Ai, ai... Não será melhor pormo-nos a andar daqui? A propósito, o que é um bloqueio escandinavo? É, segundo todas as fontes que consultei, isto ➜ bloqueio escandinavo METEOROLOGIA situação atmosférica caracterizada pela persistência de um anticiclone sobre a Escandinávia ou o Norte da Europa, que interrompe ou desvia a circulação habitual de oeste para leste e altera a trajectória normal das depressões atlânticas, podendo provocar, conforme as regiões afectadas, períodos persistentes de frio, seca ou precipitação na Europa.

[Texto 22 977]

Definição: «biocontenção»

Muito mais do que isso


      «“Um passageiro será transportado para a Unidade de Biocontenção do Nebraska após a chegada, enquanto os outros passageiros irão para a Unidade Nacional de Quarentena para avaliação e monitorização”, disse a porta-voz do Centro Médico de Nebraska, Kayla Thomas» («Mais dois casos de hantavírus em francesa e norte-americano vindos do MV Hondius», Miguel Dantas e Leonor Alhinho, Público, 11.05.2026, 8h29).

      O confinamento por causa do coronavírus contribuiu para enriquecer e corrigir muitos termos no dicionário (além de ter contribuído para reforçar a minha sanidade mental), e podemos estar a caminho do mesmo. Dizes, Porto Editora, que «biocontenção» é o «isolamento e protecção (de laboratório, edifício, etc.) contra a disseminação de agentes biológicos patogénicos (vírus, bactérias, etc.)». Na realidade, está muito longe de ser só isso, e este simples caso serve para o demonstrar. Assim, proponho ➜ biocontenção MEDICINA, MICROBIOLOGIA conjunto de medidas, procedimentos, equipamentos e instalações destinados a impedir a exposição, disseminação ou libertação acidental de agentes biológicos patogénicos, protegendo o pessoal, a comunidade e o ambiente.

[Texto 22 976]

Léxico: «bugar»

Fora do dicionário?!


      Aproveito a oportunidade de o aluno *** ter usado a palavra bugar, que até recentemente a minha filha usava muito (entretanto cresceu), para lembrar que obteve há muito direito de cidadania. Assim, proponho ➜ bugar INFORMÁTICA 1. apresentar erro ou falha de funcionamento inesperada; deixar de responder correctamente; bloquear ou comportar-se de modo anómalo; 2. coloquial, figurado ficar confuso, desorientado ou momentaneamente incapaz de reagir, compreender ou raciocinar normalmente. 

      Ao contrário do que se possa supor, o termo inglês bug, de onde deriva «bugar», já era usado em engenharia muito antes da informática moderna para designar pequenas falhas ou defeitos técnicos. O Smithsonian Institution recorda mesmo que Thomas Edison (1847-1931) empregava o termo nesse sentido já na década de 1870.

[Texto 22 975]

Léxico: «porta rápida»

Além da giratória, da santa, da suicida


      Preciso de mandar substituir uma porta interior. Digo-o, não porque espere que algum leitor me possa prestar este serviço, mas porque vi na página da internet de certas empresas (e depois largamente comprovado noutras fontes) que há também esta ➜ porta rápida porta industrial automática de abertura e fecho rápidos, concebida para locais com circulação frequente de pessoas, veículos ou mercadorias, usada para facilitar o acesso e reduzir perdas térmicas, correntes de ar, poeiras, ruído ou contaminações.

[Texto 22 974]

Sobre João Amaral (1943-2003)

Até Caim, primeiro agricultor


      À margem da língua, mas não à margem da Infopédia: revi uma entrevista que o antigo deputado do PCP João Amaral, um homem admirável, deu em 2002, menos de um ano antes de morrer, a Ana Sousa Dias (Por Outro Lado) e em que disse mais de uma vez que o pai era «funcionário superior do regime, um funcionário com responsabilidades elevadas dentro do regime de Salazar». A Infopédia, porém, prefere enfatizar — tal como fez então o PCP — que era «descendente de uma família de camponeses da Beira Alta». Isto quando forçosamente nem sequer conviveu com essa parte da família, já que, sendo o pai «um desses funcionários que o Salazar mandava andar de terra em terra», passou pelos Açores (de onde saiu com 18 meses), Portalegre, Tomar, Faro, Aveiro e Santarém, tendo ido para a Universidade de Coimbra. Era, ele mesmo o reconheceu, um dos privilegiados do regime, graças à posição do pai. Portanto, para quê falar dos antepassados camponeses? Não somos quase todos, neste país rural, descendentes de camponeses? Este enfoque pode servir os interesses do PCP (embora tivesse saneado João Amaral das listas de deputados), mas decerto que não os da Porto Editora nem os dos leitores.

[Texto 22 973]

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